Espero ter mostrado por estas notas que a poesia, para os Hindus, se não é senão um meio a serviço do conhecimento, é também uma das mais altas atividades que o homem possa exercer. «O estado de homem é difícil de alcançar neste mundo, e o conhecimento então é muito difícil de alcançar. O estado de poeta é difícil então de alcançar, e a potência criadora é então muito difícil de alcançar [^Agni-purâna, Leitura 336, st. 3 e 4.].» A operação poética — da qual a gustação poética é o reflexo — é um verdadeiro trabalho do poeta, não apenas para conhecer as leis de sua matéria e as regras de seu ofício, mas também, trabalho interior, para disciplinar-se e ordenar-se a si mesmo a fim de tornar-se um melhor instrumento das funções «sobrenaturais» — em suma, uma espécie de yoga. Pelo jogo dos sons, dos sentidos, das ressonâncias, das andaduras, todo seu mundo interior é posto em movimento. E, como é um reflexo do âtman universal, seu ato poético participa do movimento cósmico. «Todos os poemas recitados, e todos os cantos sem exceção, são porções de Vishnu, do Grande-Ser, revestido de uma forma sonora [^Vishnu-purâna, citado em Sâhitya-darpana, I. Um autor sobre o samgîta (o conjunto: canto-música-dança) diz do mesmo modo: «Servindo o Som (musical), servem-se os deuses Brahmâ, Vishnu, Çiva, pois eles mesmos são feitos dele.»].»
Gostaria de dar exemplos. Mas suas traduções não dariam grande coisa. Cada um poderá procurá-los, por sua conta, entre os poetas que saboreia, pois as leis da poética hindu, em seus princípios, são válidas para todas as línguas. Mas atenção. Em nossos poetas, a potência de sugestão do rasa se exerce um pouco ao acaso, segundo mecanismos que conhecem mal e que se classificam sob a noção muito vaga de «inspiração». O aprendizado se faz sem método, e os sucessos são acidentais. O poeta hindu é o produto de uma educação metódica, levada a cabo junto a um mestre, e com um objetivo superior à própria arte. O poeta ocidental se forma como pode, sem saber muito bem como, e, quase sempre, seu talento se especializa na expressão dos sentimentos mais conformes à sua natureza individual. Racine é um poeta maravilhoso do Erótico — mas quase unicamente do Erótico — em várias de suas nuances. O poeta hindu deve poder, como bom artesão, tocar toda a gama de cada sentimento. A diferença é ainda mais marcante para o ator-dançarino, mas é bem visível em todas as artes 3° exercícios levados a cabo de maneira assídua sob a direção de um mestre..
Gostaria também de mostrar como todas as artes hindues estão ligadas; o Teatro as contém todas; a analogia corporal do poema só é realmente compreensível pela dança; a pintura, diz-se, não se compreende sem a dança, que não se compreende sem a música [^Vishnudharmottara-purâna, citado por P. Masson-Oursel, A estética indiana (art. citado), segundo J. Przyluski, Dançarino e músico, em Revue des Arts asiatiques, 1931, 2, p. 79.]; na estatuária e na dança, reencontra-se a mesma ciência das atitudes — cujos princípios pertencem ao yoga —, e a mesma linguagem por sinais manuais… Gostaria de tentar dizer como, segundo o que li e ouvi, os mesmos princípios da poesia regem a dança, a mímica, a música e as artes plásticas. Mas nada é tão contrário ao gênio hindu quanto tratar de assuntos que não se conhece praticamente. Ganeça não me perdoaria.
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*PS: Approches de l'Inde - Tradition et incidences, dir. Jacques Masui, Cahiers du Sud, 1949*