Um dia aprendi diretamente que todos esses livros só me haviam oferecido planos fragmentários do palácio. O primeiro conhecimento a adquirir, doloroso e real, era o da minha prisão. A primeira realidade a experimentar era a da minha ignorância, da minha vaidade, da minha preguiça, de tudo o que me prende à prisão. E quando novamente olhei as imagens desses tesouros que, pela via dos livros e do intelecto, a Índia me enviara, vi por que essas mensagens nos permanecem incompreendidas.
Vamos em direção a essas verdades antigas e vivas com nossas atitudes psíquicas de europeus modernos, daí os perpétuos mal-entendidos.
O Moderno se crê adulto, acabado, não tendo mais até sua morte senão ganhar e gastar alternadamente matérias (dinheiro, forças vitais, saberes), sem que essas trocas afetem a coisa que se denomina «eu». O Hindu 1) se vê como uma coisa a aperfeiçoar, uma falsa visão a endireitar, um composto de substâncias a transformar, uma multidão a unificar.
Entre nós, chama-se conhecimento a atividade específica do intelecto. Para o Hindu, todas as funções do homem devem participar do conhecimento.
Chamamos progresso do conhecimento a aquisição, por nossos aparelhos perceptivos e lógicos atuais, de novas informações sobre as coisas que podemos perceber ou de que podemos ouvir falar. No pensamento hindu, o progresso do conhecimento é o aperfeiçoamento desses aparelhos e a aquisição orgânica de novas faculdades de conhecer.
Dizemos que conhecer é poder e prever. Para o Hindu, é tornar-se e transformar-se.
Nosso método experimental tem a ambição de aplicar-se a todos os objetos — exceto ao «si», que é rejeitado nos domínios da especulação filosófica ou da fé religiosa. Para o Hindu, o «si» é o objeto primeiro, último e fundamental do conhecimento; conhecimento não apenas experimental, mas transformador 2).
Entre nós considera-se os homens como iguais em ser, e só diferindo pelo ter: qualidades inatas e saberes adquiridos. O Hindu reconhece uma hierarquia no ser dos homens; o mestre não é apenas mais sábio ou mais hábil que o discípulo, é, substancialmente, mais que ele. E é isso que torna possível a transmissão ininterrupta da verdade.
Para o Moderno, enfim, o conhecimento é uma atividade separada, independente (ou desejada independente) das outras. Para o Hindu, a aquisição do conhecimento, sendo mudança do próprio homem, acarreta e supõe a mudança de todas as suas manifestações, de todo seu modo de viver.
Essa mudança do modo de viver se manifesta diferentemente segundo os tipos humanos (instituição originária das castas 3)); segundo as idades e os estágios da vida (regra dos âshrama 4))); e segundo os ofícios e as funções sociais (doutrina do dharma 5)). Não posso acceder direta e praticamente aos hinos védicos, não sendo brâmane; nem às upanishad, não sendo um sannyâsin. Só posso me deixar iluminar, de vez em quando, por seus clarões. Os tratados de liturgia, de direito, de arquitetura, de estratégia, de arte veterinária, de arrombamento… e cem outros pelos quais a doutrina desce às diversas atividades humanas, não são para mim. Mas sou, por ofício, escritor, e gostaria um dia ser poeta. A porta que se abre para mim sobre a tradição hindu é, portanto, a das ciências da linguagem, da retórica e da poética 6). É seguindo meu dharma de escritor que poderei dar um conteúdo prático aos ensinamentos dos livros. Tentarei aqui dar alguns apontamentos sobre as ideias mais fecundas que um escritor pode encontrar nos tratados hindus de estética e poesia.
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*PS: Approches de l'Inde - Tradition et incidences, dir. Jacques Masui, Cahiers du Sud, 1949*