Antes de tentar seguir os estetas hindues nos últimos mistérios poéticos, onde a operação verbal é a imagem de um trabalho sobre si mesmo, é preciso lembrar a base artesanal da arte hindu. Para o Hindu, a expressão da personalidade não tem nenhum valor artístico. O belo é o poder comovedor do verdadeiro 1). O artista é antes de tudo um artesão, que tem por tarefa fazer certos objetos segundo certas regras e com um certo objetivo. Deve conhecer antes de tudo a matéria que tem que trabalhar. A arte poética está, portanto, fundada sobre uma ciência e sobre uma doutrina de emprego da linguagem.
Entre as palavras e as coisas, há um mero acordo convencional 2) ou uma apropriação eterna? As duas teses, nas Índias como na Grécia, foram sustentadas. Mas a segunda — exposta por Bhartrihari 3) — não exclui a primeira. Segundo Bhartrihari, existem dois tipos de linguagem. Um é feito de palavras-germes (sphota), ideais, inalteráveis, que são as modalidades do âtman universal, as divisões reais do universo; a palavra-sphota está para o objeto na relação de causa manifestante a efeito manifestado 4). O outro é feito de palavras sonoras (dhvani), palavras usuais, submetidas às leis naturais, isto é, às regras da fonética e da gramática 5). Quando Mammata e Viçvanâtha explicam como os sentidos convencionais se associam às palavras (por concomitância de percepções, reflexão ou ensino direto), falam certamente apenas dessa linguagem natural e sensível; isso não quer dizer que neguem a realidade de formas preexistentes às palavras e aos objetos.
A doutrina do sphota certamente não é fácil de entender, e sem dúvida me reserva muitas descobertas. A existência de um pensamento sem palavras mas não sem formas é, porém, necessária, por exemplo, a todo trabalho de tradução. Todo bom tradutor se esforça, sem bem se dar conta, de traduzir primeiro seu texto em sphota, para retraduzi-lo, daí, na segunda língua; mas seria ainda melhor tradutor se se desse claramente conta dessa operação.
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*PS: Approches de l'Inde - Tradition et incidences, dir. Jacques Masui, Cahiers du Sud, 1949*