O Sabor é a essência, o «si» (âtman) do poema. Assim como no homem, no poema o âtman se manifesta por certas «virtudes» (guna), que se chamam também «funções, atividades específicas» (dharma) do Sabor. Elas se classificam em três categorias: suavidade, que «liquefaz o espírito», o amolece; ardor, que o «incendeia», o exalta; evidência, que o ilumina «com a rapidez do fogo na lenha seca». Dessas três categorias derivam os diferentes tipos de emoções poéticas 1).
Assim como o estado interior do homem se expressa por atitudes, a poesia tem suas «andaduras» (rîti), estreitamente ligadas às «virtudes». A cada uma corresponde o emprego de certas sonoridades e de certas construções sintáticas. Há uma «andadura» fácil, doce, em que o sentido da frase se desenvolve gradualmente da primeira palavra à última. A «andadura» oposta, exaltante, mantém o ouvinte em suspenso até os últimos termos da frase, que o iluminam de modo explosivo 2). E há as «andaduras» intermediárias. Cada uma corresponde a uma atitude profunda do poeta, que ele quer transmitir ao ouvinte 3). Antes de compor um poema, o poeta deve, portanto, compor-se a si mesmo, dispor-se interiormente para ser o melhor receptáculo possível do Sabor. Para isso, deve pôr de lado o que chamamos sua «personalidade», domar os impulsos de sua vaidade e os caprichos de sua imaginação.
O poema tem um «corpo», que é feito «dos sons e dos sentidos», e que está submetido às leis dos «três poderes» da linguagem. A matéria que o poeta trabalha não é apenas uma matéria sonora; é sobretudo uma matéria psicológica. Empregar uma palavra não é apenas produzir sons vocais, é abalar todo um mundo de associações, de sentidos figurados e derivados, de sugestões, cujas leis é preciso conhecer. E para aquele que conhece essas leis, «uma só palavra, bem empregada e perfeitamente compreendida, é, diz-se, no Céu e neste mundo, a Vaca a preencher todos os desejos.»
Esse corpo, como o corpo humano, tem seus «defeitos» (dosha): falhas, «do som» ou «do sentido», que é preciso eliminar o quanto possível. E tem seus enfeites, as figuras de retórica ou «ornamentos» (alamkâra). O estudo dos «ornamentos» é, materialmente, o que ocupa mais espaço nos tratados de poética o traçado do olho de uma mulher é o mesmo que o do corpo de um ciprinídeo, um torso de homem se desenha como uma cabeça de touro vista de frente, etc.. Notemos aqui que um dos grandes recursos de nossa arte, a imitação da natureza, é para os Hindus apenas um alamkâra pouco importante, e do qual não se deveria abusar (é o 68° no S. D.).. Não há quase poesia sem ornamento. Mas se estes prevalecem sobre o sabor, se são empregados por si mesmos, a poesia que resulta é considerada de mau gosto e de uma espécie inferior. O ornamento só é legítimo como um condimento destinado a «reforçar o Sabor», e então seu verdadeiro sentido é a sugestão mesma desse sabor — a intenção profunda do poeta que o emprega. A essa condição, o Hindu nunca se cansará de um alamkâra, de um clichê repetido há séculos por todos os poetas, pois mostrou-se bom no uso 4). A imagem do deus com arco florido que trespassa os corações dos jovens, empregada por um verdadeiro poeta, é tão comovente hoje como ontem ou há mil anos.
A prosódia também concerne ao «corpo» do poema. Mas os Hindus nunca confundem métrica e poesia. A maioria de seus trabalhos didáticos está em versos e, se a poesia é muitas vezes métrica, não o é necessariamente. A métrica só toma valor estético preciso no canto. O que corresponde, em poesia, à noção de «ritmo», não é a forma métrica que só interessa aos sons, mas antes as «andaduras», que regulam a marcha tão complexa dos sons e dos sentidos, imagens e emoções; é, mais geralmente, a maneira como o poeta faz andar juntos esses movimentos simultâneos 5).
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*PS: Approches de l'Inde - Tradition et incidences, dir. Jacques Masui, Cahiers du Sud, 1949*