3 Ilusão do destino

PARFAIT, Nicole. Cioran ou le défi de l’être. Paris: Desjonquères, 2001.

1. O apoio de Cioran à Guarda de Ferro, movimento cruel que misturava pré-história e profecia, mística da oração e do revólver, apesar de ter percebido seu caráter utópico e seu terrorismo sanguinário, só se compreende por um desvio pela história do que ela representava nos anos de 1932 a 1936, quando ele pôs sua pena a seu serviço.

A GUARDA DE FERRO

1. A Liga de Defesa Nacional Cristã, ancestral da Guarda de Ferro fundada por Alexandru Cuza com o único programa de excluir e expulsar os judeus da Romênia, só sobreviveu à sua pobreza ideológica graças ao carisma e aos atentados de Codreanu, que, dizendo-se incumbido por São Miguel de formar uma elite de homens novos, transformou-a na mística e revolucionária Legião do Arcanjo e conquistou muitos deserdados com promessas de partilha das terras e da riqueza nacional.

2. Inspirado em Mussolini, Codreanu criou em 1930 a Guarda de Ferro, milícia anticomunista que logo adotou uma estratégia terrorista e um culto dos mártires, ganhando apoio popular crescente na ausência de alternativa à esquerda, elegendo deputados em 1932 e atraindo maciçamente a juventude a partir de 1933, em meio ao colapso econômico, à ascensão de Hitler e sobretudo à aproximação de Nae Ionescu.

3. Pouco antissemita em teoria, Ionescu encontrou afinidades com a Guarda de Ferro por seu antiparlamentarismo e vitalismo, tornou-se porta-voz da revolução espiritual europeia exaltando o heroísmo, o sacrifício e a morte salvadora, e arrastou muitos alunos, entre eles Cioran, cujo Nos Cumes do Desespero ecoa as teses gardistas sem, contudo, aderir incondicionalmente a elas, já que condena o profetismo e o fanatismo como ilusões perversas análogas à santidade.

UM PATRIOTISMO DOLOROSO

1. A influência de Ionescu e o espírito da época não bastam para explicar o engajamento súbito e a radicalização de Cioran durante a estada na Alemanha, processo intelectualmente suicida cuja razão essencial é psicológica: um patriotismo doloroso e sem esperança.

2. O amor de Cioran pela Romênia, origem de seu ódio a uma cultura sem envergadura e resignada à fatalidade, levou-o, por não encontrar nada no passado nem no presente que alimentasse seu orgulho, a forjar para o país um futuro de potência, grandeza, loucura e destino, delírio que lhe minou a saúde e no qual ele mais tarde reconheceu um inferno inesgotável onde seu orgulho e seu quixotismo feroz se deleitavam no sofrimento.

3. Ao descrever as práticas da extrema direita nos termos mais duros e insistir no caráter inexpiável da falta, Cioran não atenua sua responsabilidade e, ao afirmar que nunca acreditou de fato nas ideias defendidas, priva-se da desculpa do erro, o que torna crível sua explicação, coerente com a análise da negatividade dialética da consciência presente nos livros da mesma época.

4. A Romênia funcionava como um espelho de todas as características negativas de seu ser e como meio de realizar o desafio de vencer o nada interior, tentativa cujo fracasso ele pressentia, mas que se tornava ainda mais exaltante porque a intuição da catástrofe conferia ao desafio grandeza e ao desesperado a possibilidade de adquirir um destino intenso nas convulsões de um mundo condenado.

O CREPÚSCULO DOS ÍDOLOS CONTRA O DECLÍNIO DO OCIDENTE

1. Os longos artigos escritos na Alemanha, eruditos e perspicazes demais para serem obra de um demente, como o ensaio sobre a França e a Alemanha, sustentam a incompatibilidade dos sistemas de valores das duas civilizações e veem no nazismo não uma aberração, mas o prolongamento da tradição mística e organicista alemã desde Lutero, de modo que o sucesso de Hitler aparece como exemplo para uma Romênia de história análoga, cabendo aos romenos escolher um chefe capaz de lhes abrir a perspectiva de um destino glorioso.

IDEAIS E DECADÊNCIA

1. Profeta no deserto, decepcionado com o marasmo político romeno, Cioran ataca com violência rara a covardia, a dependência de Paris e a falta de espiritualidade do país, que só poderia entrar na história por um salto definitivo numa selvageria primitiva salvadora, uma transfiguração que despertasse as forças vitais e instintivas do povo.

2. Em A Transfiguração da Romênia, panfleto que ele próprio chamaria depois de elucubração de um louco furioso e hino de um assassino movido por um amor invertido, as conquistas das Luzes, humanismo e democracia, aparecem como causas do declínio das civilizações, e o maior mérito de Hitler e de Lênin seria ter aniquilado o espírito crítico de uma nação, pois as pequenas nações só podem dar um salto pela ditadura e só um entusiasmo exacerbado, a fanatização, pode transfigurar a Romênia.

UM ANTISSEMITISMO AMBÍGUO

1. Os desenvolvimentos antissemitas da Transfiguração revelam uma atitude ambígua e contraditória, que celebra o povo judeu como o mais inteligente e dotado do mundo para condenar seu suposto materialismo e apetite de poder, reconhece que o antissemitismo não resolve os problemas nacionais e sociais da Romênia e que culpar os judeus esconde as verdadeiras causas da miséria do país, mas ainda assim retoma os preconceitos da época e conclui pela necessidade de afastá-los da vida nacional, já que vê neles o negativo de um povo romeno incapaz de elevar-se a um destino.

2. No capítulo Um Povo de Solitários de A Tentação de Existir, apresentado como ato de contrição, Cioran admite ter amado os judeus aos vinte anos e depois os ter odiado com um ódio que era amor invertido ao perceber seu papel de primeiro plano na história universal, numa visão de onipresença e de sobrevivência certa típica de todo antissemita, acompanhada da confissão de que tinha então apenas uma comiseração livresca por seus sofrimentos passados e não podia adivinhar os que os esperavam.

3. O reconhecimento da injustiça não o leva a rever todos os preconceitos, pois continua a ver no judeu o totalmente outro, o estrangeiro em si, privado de pátria e excluído da história e da decadência, sem raízes nem seiva e portanto sem possibilidade de murchar, dotado de uma perenidade demoníaca que o impele a agir sem descanso e de uma perseverança no fracasso que faz dele um vencido singular, naturalmente desequilibrado, por efeito de um destino genial em escala de um povo.

4. A genialidade dos judeus reside em terem criado um Deus tirânico e caprichoso e, ao mesmo tempo, em terem ousado resistir-lhe e gritar-lhe sua revolta como Jó sem jamais o trocarem pelo Deus dos Evangelhos, distribuidor de uma graça barata, de modo que sua recusa do cristianismo é seu maior título de glória, e sua fidelidade ao Antigo Testamento, livro que Cioran sempre venerou por anunciar a eleição sem a graça e uma tragédia sem a glória do sacrifício, ensina-lhes a sabedoria do desafio, única fonte de dignidade e de sabedoria diante da certeza do fracasso.

5. Essa sabedoria do desafio preserva os judeus da decadência e da saciedade que atingem os velhos povos sedentários, dando-lhes a doença do projeto, a vontade de serem eles mesmos num mundo alheio, a insurreição contra a fatalidade e um otimismo de pestilentos que, com a emancipação no século XIX, surpreendeu as sociedades europeias desiludidas e lhes infundiu, por meio de uma sede de poder e de glória comparável à dos conquistadores, um ritmo acelerado e um veneno profético.

6. Esse desafio permanente ao tempo e ao mundo é o que Cioran quis cultivar em si, vendo nos judeus domadores do abismo e mestres de existir, de modo que o ódio a eles equivalia a uma recriminação dirigida a si próprio, a uma intolerância ao próprio ideal encarnado no outro, e, na maturidade, sua gratidão ao Antigo Testamento e sua recusa de aplicar-lhes critérios comuns compõem uma homenagem ambígua, não isenta de clichês, mas a mais positiva possível em sua lógica, pois faz de cada judeu um caso e de sua história uma epopeia cujos próprios fracassos atestam a superioridade de seu destino.

A TIRANIA DO MAL: A HISTÓRIA

1. A história do Ocidente, ao contrário dessa história autêntica, é decadência, tradução temporal da separação da totalidade provocada pela irrupção da consciência, escândalo biológico que decompõe as forças vitais, de modo que a vitalidade do homem civilizado se mede pela força de seus ideais absolutos, cujo embate, e não o das armas, rege a história e impede que a vida apareça em sua verdade de pura subsistência vazia diante do nada.

2. O homem, dominado pela consciência de sua finitude, precisa de um ideal que dê sentido à existência, mas a ideia projetada nunca é neutra, pois exprime suas necessidades e frustrações e, transformada em crença, insere-se no tempo como acontecimento, consumando a passagem da lógica à epilepsia da qual nascem ideologias, doutrinas e farsas sangrentas.

3. Crer no valor do próprio ideal implica querer impô-lo aos outros e inscrevê-lo na realidade, e essa realidade tida como objetiva não passa de engodo, já que o homem criador de valores delira ao crer que algo existe e chama de real a projeção de suas alucinações megalômanas.

4. Essa fé combativa em verdades transcendentes forma, com o princípio do mal, a trama da história, que, como efeito da vontade de poder coextensiva à natureza humana, é demoníaca, uma sucessão de falsos absolutos e templos dedicados a fantasmas, nascida da superstição do divino e da necessidade incoercível de adorar, fonte de todos os crimes cometidos para obrigar os semelhantes a se prostrarem diante dos mesmos ídolos.

5. A história, sucessão de sujeições a mitos efêmeros, é delirante e utópica, mas não se pode resistir à sua tentação, porque se adota uma crença não por ser verdadeira mas por uma força obscura, e viver é cegar-se sobre as próprias dimensões, universalizando um sentido que transcende a finitude, de modo que cismas, heresias e nacionalismos fizeram dos homens joguetes da história que pretendiam transformar.

6. A história é o próprio imaginário utópico, e do mártir da fé ao fã das modas todos sacrificam a vida a uma visão de mundo que lhes confere destino demais, força que na juventude fascinava Cioran nos tiranos, culto que ele atribui à vergonha da inferioridade física própria dos intelectuais e que o levava a tentar igualar pela desmedida do verbo a devastação que eles operavam nas coisas.

7. Mesmo depois de abrir os olhos diante da catástrofe, Cioran continua a ver na megalomania dos tiranos a mola íntima da história e em sua bestialidade inspirada casos humanos levados ao paroxismo da virtude e do crime, paixão do crime presente em todo homem, de modo que as obras humanas proviriam da incapacidade de matar ou de matar-se.

A TIRANIA DA LINGUAGEM: A ILUSÃO DAS CONCEPÇÕES DO MUNDO

1. A tendência a petrificar a ideia em visão de mundo arruína a autonomia do pensamento e a liberdade, pois um pensamento puro só poderia existir fora da tirania do articulado, já que a palavra traz em si a vocação ao conceito universal e, como em Heidegger, toda formulação supõe um olhar que transforma o mundo em visão, em teoria, daí o desejo insensato de escrever diretamente com os sentidos, aquém do conceito.

2. O anseio de voltar às eras anteriores às palavras, ao paraíso do estupor anterior aos idiomas, é sobretudo a formulação lírica de uma ideia de Bergson, que em Matéria e Memória supõe uma consciência adulta encerrada no presente e moldada ao objeto exterior, base de sua teoria da percepção pura, na qual a percepção faria verdadeiramente parte das coisas.

3. Rompida a unidade primordial, o paraíso só poderia existir aquém da realidade e da conceitualização, lógica reacionária ilustrada por Joseph de Maistre, que situava a idade de ouro antes da falta original, quando os homens se comunicavam diretamente com Deus, mas, contra Maistre, o pecado original não é transgressão a ser resgatada pelo sofrimento e sim um vício de natureza devido a Deus, cuja culpa explica o curso insensato da história e a própria Criação como projeção para fora do mal que nele jazia, mal no qual, como em Hegel, Boehme e Goethe, reside o princípio do dinamismo do mundo.

A TIRANIA DO ESPÍRITO: O ENGODO DA ESPERANÇA E DO PROGRESSO

1. Sem redenção possível, com o Ser originário inacessível e a história sem sentido, restaria ao lúcido a loucura, inacessível pela vontade e angustiante, de modo que se elogiam a morte voluntária e sobretudo a preguiça positiva, a única que preserva da tentação suprema da ideia de progresso, ideia falsa mas indispensável, que redime as errâncias do passado e justifica o futuro, mas que, ao despertar a esperança, pulsão contra a natureza, desonra o intelecto e precipita o declínio da história e da humanidade.

2. A própria história o comprova, pois os pré-socráticos tiveram a coragem de admitir que a vida é trágica e Hesíodo, inventando a primeira filosofia da história, inventou a decadência, enquanto seus sucessores mais poderosos, Aristóteles, São Tomás e Hegel, em sistemas que exprimem a vontade de poder, acorrentaram o homem à imagem de sua onipotência, de modo que, cercado de um mundo criado por ele, nunca esteve tão escravo e, cego quanto ao fundamento da fé na verdade, que é o desejo de superar a si mesmo, crê estar prestes a chegar ao fim.

3. Essa cegueira leva a falar de mutações na história, cujos supostos benefícios são sintomas de uma catástrofe sem igual, como mostram os perigos nucleares e ecológicos do domínio total da natureza, mas é mais difícil relativizar o ganho essencial da modernidade, a democracia, vista como garantia do progresso.

UMA PERVERSÃO DO INSTINTO DE DOMINAÇÃO: A DEMOCRACIA

1. A democracia, tida como o sistema mais acabado, aparece primeiro como superstição contra a natureza, baseada num recalque doentio dos instintos de dominação que enfraquece a natureza humana, pois viver é recusar os outros, e o liberalismo, contrário aos instintos mais profundos, elimina o mistério, o absoluto e a ordem, devolvendo o indivíduo a si mesmo sem acesso às próprias profundezas, quando o mundo precisa de um delírio novo, de modo que a tolerância é a extinção das forças vitais e a república o paraíso da debilidade.

2. Há algo próximo do pesar ao evocar os dois últimos grandes delírios do Ocidente, pois este teria falhado ao abandonar ao Oriente a tarefa de realizar o comunismo em vez de humanizá-lo e liberalizá-lo segundo suas tradições, e Hitler, monstro que o continente poderia ter produzido de melhor qualidade, teria tentado salvar pela barbárie a civilização ocidental, já que comunismo e nazismo, como para Heidegger, propunham um mito substancial capaz de estimular os instintos de vida do Ocidente.

3. Os mitos naufragam assim que se tenta realizá-los, como mostra o marxismo, última utopia providencialista e a mais generosa, arruinado pelos que o encerraram nas velhas instituições, pois só o estado pré-revolucionário é revolucionário e, uma vez realizada, a revolução torna-se conservadora e perde sua energia, segundo a lei de bronze do declínio que faz o pensamento degenerar em sistema e a ação em poder, e nem a democracia escapa a isso, já que a liberdade exige o vazio, sucumbe a ele e trabalha, mortal, para sua própria negação e agonia.

O PESSIMISMO DO ÚLTIMO MONGOL

1. O pessimismo do último mongol visa despertar, pois a história, como a natureza, tem horror ao vazio e a época vive a espera de outros deuses, cabendo ao Ocidente, se não estiver mortalmente atingido, reapropriar-se das utopias que abandonou e assumir sua grandeza na aptidão de desafiar o tempo e negar a negatividade da existência, sem lógica da história nem destino transcendente, já que o destino jaz tragicamente na consciência e a liberdade deve abrir espaço ao riso do desafio, ao jogo da inocência, à dança do corpo e ao prazer estético da leveza reencontrada.

2. Viva Nietzsche, mas Cioran não é Nietzsche, falso iconoclasta com traços de adolescente, e não se deixa seduzir por nenhum ideal com pretensão de verdade, nem pelo super-homem, de modo que o que redime Nietzsche é ter representado a tragédia da existência até a euforia da loucura, que vence a consciência e a finitude e alcança o domínio fértil da ideia pura, retorno à loucura que fecha o círculo sem salvar o iconoclasta, pois, aquém de uma história impossível, persiste a necessidade vital de um sentido que justifique a existência individual.