1. Entre os pensadores que, como Nietzsche ou São Paulo, tiveram o gosto e o gênio da provocação, Joseph de Maistre ocupa lugar não desprezível, elevando o menor problema ao paradoxo e à dignidade do escândalo, manejando o anátema com crueldade fervorosa e criando uma obra rica em enormidades, um sistema que seduz e exaspera, espírito excessivo que, pela amplitude de suas aversões, pela paixão posta a serviço de causas indefensáveis, pelo empenho em legitimar injustiças e pela predileção pela fórmula assassina, esmaga o adversário pelo adjetivo em vez de persuadi-lo e responde às solicitações do ceticismo com a arrogância de suas prevenções e a veemência dogmática de seus desprezos.
2. No fim do século XIX, no auge da ilusão liberal, podia-se chamá-lo profeta do passado e tê-lo por sobrevivência ou aberração, mas uma época mais desenganada sabe que ele é atual justamente por ter sido um monstro e que é pelo lado odioso de suas doutrinas que permanece vivo, e, mesmo superado, pertenceria à família dos espíritos que envelhecem com beleza.
3. É invejável o privilégio que teve de desconcertar detratores e devotos, obrigando-os a perguntar se fez a apologia do carrasco e da guerra ou apenas reconheceu sua necessidade, se no requisitório contra Port-Royal exprimiu o fundo de seu pensamento ou cedeu a um acesso de humor, onde acaba o teórico e começa o partidário, se foi um cínico, um exaltado ou um esteta extraviado no catolicismo.
4. Manter o equívoco com convicções tão nítidas é uma proeza, e era inevitável que se questionasse a seriedade de seu fanatismo e se destacassem suas restrições à brutalidade e suas raras cumplicidades com o bom senso, mas não cabe tomá-lo por morno, pois o que nele interessa é sua soberba, sua impertinência maravilhosa, sua falta de equidade, medida e às vezes decência, sem a qual não se teria paciência de lê-lo, já que as verdades de que foi apóstolo só valem pela deformação apaixonada de seu temperamento, que transfigurou as banalidades do catecismo e deu sabor extravagante aos lugares-comuns da Igreja, sabendo que as religiões morrem por falta de paradoxos e introduzindo no cristianismo mais picante e mais horror, graças ao talento de escritor mais que à piedade, que segundo Mme Swetchine carecia de calor, pois um amante da expressão corrosiva não podia ruminar as fórmulas flácidas das orações nem praticar a humildade, estranha à sua natureza, e suas contradições e os mal-entendidos que criou sobre si o salvaram da desgraça de ser compreendido, a pior que pode cair sobre um autor.
5. O que há de áspero e elegante em seu gênio e estilo evoca ao mesmo tempo um profeta do Antigo Testamento e um homem do século XVIII, reconciliando sopro e ironia e fazendo participar, por suas fúrias e tiradas, do encontro entre o espaço e a intimidade, o infinito e o salão, embora, submetido à Bíblia a ponto de admirar indistintamente seus achados e tolices, odiasse sem nuance a Enciclopédia, da qual procedia pela forma de sua inteligência e pela qualidade de sua prosa.
6. Penetrados de uma raiva tonificante, seus livros nunca entediam, exaltando ou rebaixando até a inconveniência ideias, acontecimentos e instituições em tom de promotor ou de turiferário, como ao declarar que todo francês amigo dos jansenistas é tolo ou jansenista, que tudo é milagrosamente mau na Revolução, que o protestantismo é o maior inimigo da Europa, úlcera das soberanias, filho do orgulho e pai da anarquia, e que nada há no universo mais calmo, circunspecto e humano que o tribunal da Inquisição.
7. Quem ignorasse a prática do excesso aprenderia com Maistre, tão hábil em comprometer o que ama quanto o que detesta, cujo livro Do Papa, avalanche de elogios ditirâmbicos, assustou o Sumo Pontífice, consciente do perigo de tal apologia, pois só há um modo de louvar, fazer temer quem se exalta, obrigá-lo a esconder-se longe da estátua erguida e a medir e sofrer sua mediocridade sob a hipérbole, sendo toda apologia digna desse nome um assassinato por entusiasmo.
8. Maistre afirma que não há grande caráter sem tendência ao exagero, mas o tom cortante de suas obras não se encontra em suas cartas, cuja amenidade surpreendeu ingenuamente, pois um pensador põe sua loucura nas obras e guarda o bom senso para as relações com os outros, já que o face a face com a ideia faz desarrazoar, oblitera o juízo e dá a ilusão da onipotência, nascendo nossos desregramentos do combate contra abstrações e da vontade de vencer o que não é, o que explica o caráter impuro, tirânico e divagante de toda obra, ao passo que nas cartas o pensador exprime projetos, fraquezas e derrotas e repousa de seus excessos, de modo que a correspondência de Maistre é a de um moderado, que alguns apressadamente classificaram entre os liberais, esquecendo que foi tolerante na vida por sê-lo tão pouco nas obras, cujas melhores páginas magnificam os abusos da Igreja e os rigores do Poder.
9. Sem a Revolução, que o arrancou a seus hábitos e o despertou para os grandes problemas, Maistre teria levado em Chambéry a vida de bom pai de família e bom maçom, misturando a seu catolicismo, realismo e martinismo a fraseologia rousseauísta de seus primeiros escritos, mas o exílio provocado pela invasão francesa da Saboia beneficiou seu espírito e seu estilo, como mostram as Considerações sobre a França diante das produções declamatórias anteriores, e a desgraça, firmando gostos e preconceitos, salvou-o da indefinição e tornou-o para sempre incapaz de serenidade e objetividade, virtudes raras no emigrado, condição que conservou mesmo como embaixador em São Petersburgo, marcando todos os seus pensamentos, como a afirmação de que só há violência no universo e de que tudo é mal porque nada está em seu lugar.
10. Nada está em seu lugar, refrão das emigrações, é também ponto de partida da reflexão filosófica, pois o espírito desperta ao contato da desordem e da injustiça, entorpece-se diante do natural e anima-se com a frustração e a espoliação, enriquecendo-se de tudo o que lhe escapa, de modo que perder a pátria é para o pensador uma bênção e o exilado é pensador menor ou visionário de circunstância, oscilando entre espera e medo, salvo se tiver gênio, como Maistre, que se eleva acima dos acontecimentos e os interpreta, vendo na Revolução a prova de que a ordem e a Providência nunca são tão visíveis quanto quando a ação superior substitui a do homem e age sozinha.
11. Quando tomamos consciência da nulidade de nossas iniciativas, assimilamos o destino à Providência, disfarce tranquilizador da fatalidade, camuflagem do fracasso e confissão de impotência que ainda pretende revelar um sentido, ou a um jogo mecânico e impessoal de forças que regula ações e crenças, jogo que no entanto investimos de prestígios que sua definição exclui, convertendo conceitos em agentes universais e potência moral responsável pelos acontecimentos, como no positivismo, que falava misticamente do futuro com eficácia quase igual à da Providência, pois se insinua em nossas explicações um pouco de teologia indispensável a todo pensamento que pretenda dar uma imagem coerente do mundo.
12. Atribuir sentido ao processo histórico, mesmo por uma lógica imanente, é subscrever uma forma de providência, de modo que Bossuet, Hegel e Marx pertencem à mesma família, já que o importante não é definir o sentido, mas postulá-lo, e passar da teologia ou da metafísica ao materialismo histórico é apenas mudar de providencialismo, pois, olhando além do conteúdo das ideologias, percebe-se que os partidários se distinguem só na aparência e se unem no fundo pelo ato de escolher, sendo loucura crer que a verdade reside na escolha quando toda tomada de posição é desprezo da verdade, fatalidade a que ninguém escapa e que nos faz optar por uma irrealidade como doentes febris, já que confundir-se com qualquer coisa revela disposições mórbidas e não há saúde fora do ser puro como o vazio, e a medida do desastre de uma época está no empenho dos crentes em justificar os desígnios da divindade, como nas Noites de São Petersburgo, variação sobre o governo temporal da Providência numa época que exigia sofisma, fé e ilusão para discernir a bondade divina, à maneira de Salviano no século V, na Gália devastada pelos bárbaros, combate desesperado contra a evidência que faz da justificação da Providência o quixotismo da teologia.
13. Embora dependente dos momentos históricos, a sensibilidade ao destino depende também da natureza do indivíduo, pois quem se engaja em grandes empreendimentos se sabe à mercê de uma realidade que o ultrapassa e só os fúteis e irresponsáveis creem agir livremente, como mostram Saint-Martin, para quem os governantes são administradores da Providência, Meinecke, que via os heróis hegelianos como funcionários do Espírito absoluto, e Maistre, para quem os líderes da Revolução eram autômatos, instrumentos e celerados que sofriam o curso dos acontecimentos em vez de conduzi-los.
14. Esses autômatos não eram mais culpados que a força superior que os suscitara e cujos decretos executavam, força que Maistre não acusa por ser o único ponto fixo no turbilhão revolucionário, mas que faz intervir apenas nos momentos de crise, apagando-se nos períodos calmos, providência de circunstância útil para explicar catástrofes, o que diminui seu peso, pois ela só se justifica plenamente se vigia sempre e em toda parte, restando perguntar o que fazia antes de 1789 e se não quis também o século XVIII que Maistre responsabiliza pela guilhotina.
15. A Providência ganha conteúdo para ele a partir de um milagre, a Revolução, tão maravilhosa em seu gênero quanto a frutificação instantânea de uma árvore em pleno inverno diante de mil testemunhas.
16. Diante de uma força que opera tais prodígios, o crente pergunta como salvaguardar sua liberdade e evitar o quietismo e o fatalismo, dificuldades que Maistre tenta contornar por sutilezas e equívocos, afirmando que estamos presos ao trono do Ser supremo por uma corrente flexível que retém sem escravizar e que os seres livres, livremente escravos, agem voluntária e necessariamente, fazendo o que querem sem poder perturbar os planos gerais.
17. A corrente flexível e os escravos que agem livremente traem o embaraço diante da impossibilidade de conciliar onipotência divina e liberdade humana, e talvez para preservar esta Maistre postule o apagamento da intervenção divina nos momentos de equilíbrio, intervalos curtos, pois a Providência só sai do repouso para golpear, tendo na guerra seu departamento, onde o homem age de modo quase mecânico, já que o êxito depende do que menos depende dele, guerra divina e lei do mundo, sobretudo pelo modo como irrompe, quando Deus avança para vingar a iniquidade dos homens.
18. Divino é o adjetivo preferido de Maistre, aplicado à constituição, à soberania, à monarquia hereditária, ao papado e a toda autoridade consolidada pela tradição, enquanto o resto é usurpação humana, de modo que divino designa o conjunto das instituições execradas pelo pensamento liberal, e, aplicado à guerra, deixaria de parecer infeliz se substituído por irracional, substituição que atenuaria o escândalo de muitas de suas frases, mas empalideceria um pensamento cuja virulência é seu encanto, restando que invocar Deus a todo instante e associá-lo ao horrível faz estremecer o crente equilibrado, ao contrário do fanático, verdadeiro crente, que se deleita com as extravagâncias sanguinárias da divindade.
19. A guerra das Noites exerce certa fascinação, o que não ocorre quando ocupa um espírito secundário como o discípulo espanhol Donoso Cortés, para quem a guerra, obra de Deus, é boa como suas obras, mas pode ser desastrosa e injusta como obra do livre-arbítrio, e quem a anatematiza não é filósofo nem cristão.
20. O pensamento do mestre, já extremo, não suporta o suplemento de exagero do discípulo, pois as más causas exigem talento ou temperamento e o discípulo, por definição, não tem nem um nem outro.
21. A agressividade é em Maistre inspiração e a hipérbole ciência infusa, levando-o a arrastar-nos aos extremos e a reconciliar-nos com a guerra e com a solidão do carrasco, se não com o próprio carrasco, cristão por persuasão mais que por sentimento, alheio aos personagens do Novo Testamento e secretamente amante do fausto da intolerância, que só pôde descrever os vícios da Revolução por encontrá-los em si, já que não se insurge impunemente contra uma época e, para combater o Terror, teve de assimilá-lo, de modo que sua experiência religiosa é dominada pela obsessão do sangue, preferindo o Deus dos exércitos ao Cristo, de quem fala em frases convencionais e sublimes, sobretudo para justificar a teoria da reversibilidade das dores do inocente em proveito dos culpados, e só lhe conviria o Cristo da estatuária espanhola, sanguinolento, desfigurado, convulso e satisfeito até o delírio com sua crucificação.
22. Ao relegar Deus para fora do mundo e privá-lo das virtudes que lhe permitiriam fazer sentir sua presença, os deístas rebaixaram-no a ideia e símbolo abstrato de bondade e sabedoria, de modo que, após um século de filosofia, tratava-se de restituir-lhe os antigos privilégios e o estatuto de tirano, pois, bom e correto, deixava de ser temível e perdia todo império sobre os espíritos, perigo de que Maistre foi mais consciente que seus contemporâneos e que só podia conjurar lutando pelo retorno do verdadeiro Deus terrível, já que nada se entende das religiões se se crê que o homem foge de uma divindade caprichosa e feroz ou se se esquece que ele ama o medo até o frenesi.
23. O problema do mal só perturba alguns delicados e céticos revoltados com o modo como o crente o acomoda ou escamoteia, e a eles se dirigem as teodiceias, tentativas desesperadas de humanizar Deus desmentidas a cada instante pela experiência, que não os persuadem da justiça da Providência, a quem pedem contas em nome da evidência do mal, que Maistre tenta negar reduzindo-o a força puramente negativa, cisma do ser e acidente, enquanto outros o pensam como constitutivo do ser tanto quanto o bem, natureza e ingrediente essencial da existência, assim como a doença não é ausência de saúde, mas realidade positiva e duradoura, coexistindo em Deus um princípio bom e um mau, sendo a ideia da culpabilidade de Deus necessária, compatível com sua onipotência e única capaz de tornar inteligível o monstruoso, insensato e derrisório da história, a começar pela Criação, que Deus não podia empreender sem o mal, motor dos atos e agente de quem, exasperado de repousar em si, quer sair de si e aviltar-se no tempo, sem o qual vegetaríamos na perfeição monótona do bem, numa aventura da Criação sem fins morais e talvez sem sentido, cuja iniciativa cabe a Deus, a quem não podemos querer mal por seu prestígio de primeiro culpado que nos fez seus cúmplices na solidariedade do mal que sustenta a confusão universal.
24. Maistre não chegaria a doutrina tão fundada em razão, pois pretende dar verossimilhança à teoria temerária de uma divindade unicamente boa, empresa irrealizável que tenta cumprir acusando a natureza humana, afirmando que ninguém é punido como justo, mas sempre como homem, de modo que não é a virtude que sofre neste mundo, mas a natureza humana, que sempre o merece.
25. Não se pode exigir do justo que separe sua qualidade de homem de sua qualidade de justo, pois nenhum inocente dirá que sofre como homem e não como homem de bem, e exigir essa dissociação é erro psicológico que desconhece o sentido da revolta de Jó, que cedeu diante de Deus mais por cansaço que por convicção, nada permitindo considerar a bondade atributo maior da divindade, como o próprio Maistre parece às vezes admitir ao perguntar que injustiça Deus poderia cometer sem um legislador acima dele, ao recomendar redobrar o temor e as orações quanto mais terrível ele parecer, já que nada garante que sua bondade suprirá, e ao comparar a criação a um império de onde não se pode sair, cujas leis, algumas talvez duras e injustas, só deixam como partido a resignação, o respeito e mesmo o amor, já que, se é preciso servir o senhor, mais vale servi-lo com amor.
26. Essa confissão inesperada, que teria encantado Voltaire, desvela, denuncia e torna suspeita a Providência pela boca de quem pretendia celebrar sua bondade, sinceridade admirável cujos perigos ele deve ter compreendido, pois depois se descuidará cada vez menos, voltando a acusar o homem e desprezando o processo movido contra Deus pela revolta, pelo escárnio ou pelo desespero, até forjar a teoria insustentável da origem moral das doenças, segundo a qual sem mal moral não haveria mal físico, toda dor é suplício por um crime atual ou original e todas as doenças são castigos.
27. Maistre deriva essa doutrina do pecado original, sem o qual nada se explicaria, mas erra ao reduzir o Pecado a uma transgressão primitiva e deliberada em vez de vê-lo como tara e vício de natureza, e ao atribuir à nossa iniquidade a doença original, inscrita como o Pecado em nossa própria essência, desregramento primordial que atinge indiferentemente o bom e o mau, o virtuoso e o vicioso.
28. Maistre está certo ao descrever os males que nos esmagam e erra ao explicar e justificar sua distribuição, sendo exatas suas constatações e inumanos seus juízos, pois, se as doenças fossem castigos, os hospitais estariam repletos de monstros e os incuráveis seriam os maiores criminosos, embora se deva indulgência a quem, para inocentar Deus, reserva ao homem a honra de ter concebido o mal, já que a ideia da Queda, como toda grande ideia, explica tudo e nada, sendo tão difícil usá-la quanto dispensá-la, mas explica em parte, seja por falta, seja por fatalidade, nossos erros, nosso inacabamento, nossas buscas infrutíferas, a singularidade terrível dos seres e o papel de animal desregulado e inventivo de cada um, e tem o mérito incontestável de fazer remontar nossa decadência à separação do todo, o que não escapou a Maistre, para quem o mal vem de uma divisão inexplicável e o retorno ao bem de uma força contrária que nos impele a uma unidade igualmente inconcebível.
29. A divisão não se explica, quer se atribua à insinuação do devir no ser, à infiltração do movimento na unidade primordial ou a um impulso fatal dado à indistinção feliz anterior ao tempo, mas parece certo que a história procede de uma identidade quebrada, de uma laceração inicial, fonte do múltiplo e do mal.
30. A ideia do pecado, solidária da divisão, só satisfaz se usada com precaução, ao contrário de Maistre, que imagina arbitrariamente um pecado original de segunda ordem responsável pelo selvagem, descendente de um homem destacado da grande árvore da civilização por alguma prevaricação, cujo anátema estaria escrito na alma e na forma do corpo e que não se assemelharia ao homem primitivo, pois seríamos para este o que o selvagem é para nós.
31. Pronto a levar uma ideia aos confins, Maistre sustenta que a civilização e a ciência são o estado natural e primitivo do homem, que os primeiros humanos, seres maravilhosos, possuíam uma ciência superior à nossa, viam os efeitos nas causas e recebiam comunicações de seres superiores, e que certos povos refratários ao nosso pensamento conservariam a lembrança dessa ciência primitiva e da era da intuição.
32. Colocar a civilização antes da história, essa idolatria dos começos e do paraíso já realizado, é a marca do pensamento reacionário ou tradicional, pois pode-se conceber uma era da intuição desde que não se a confunda com a civilização, que, ruptura com o conhecimento intuitivo, supõe relações complicadas entre ser e conhecer e a incapacidade do civilizado de sair de suas categorias e perceber simultaneamente o imediato e o último, sendo jogo de palavras falar de civilização perfeita antes das condições que tornam possível toda civilização e ampliação abusiva incluir nela a idade de ouro, e, para Maistre, a história deve reconduzir pelo desvio do mal e do pecado à unidade paradisíaca e aos segredos da ciência primitiva, que decreta impenetráveis, tratando toda hipótese como certeza, como a de uma ciência imemorial sem a qual não explicaria o dilúvio, castigo de crimes inauditos que supõem conhecimentos muito superiores aos nossos, teoria a aproximar da que atribui o selvagem a um chefe de povo que, por prevaricações hoje impossíveis porque já não sabemos o bastante para ser tão culpados, transmitiu o anátema à posteridade numa degradação acelerada.
33. Nada se precisa sobre a natureza dessa prevaricação, nem com a referência a um pecado original de segunda ordem, e é cômodo demais, para inocentar a Providência, atribuir à criatura todas as anomalias da Terra, pois, se o homem é degradado desde o princípio, sua degradação, como a do selvagem, não pode ter começado por uma falta cometida num momento dado, prevaricação inventada para consolidar um sistema e uma causa duvidosa.
34. A doutrina da Queda seduz os reacionários de todos os matizes, e os mais lúcidos sabem que ela oferece recurso contra o otimismo revolucionário ao postular a invariabilidade de uma natureza humana condenada à decadência, sem saída para os conflitos sociais nem mudança radical possível, fazendo da história um tempo idêntico de degradação monótona, e o reacionário, conservador sem máscara, toma das sabedorias o pior e o mais profundo, a concepção do irreparável e a visão estática do mundo, pois toda sabedoria e toda metafísica são reacionárias ao buscar constantes e libertar-se da superstição do diverso e do possível, sendo contradição um sábio ou metafísico revolucionário, já que, num certo grau de desapego e lucidez, a história e o próprio homem deixam de contar, e quem medita sobre a miséria essencial dos seres não se detém na das desigualdades sociais, como mostra a impossibilidade de uma revolução tirar seus slogans de Pascal.
35. O reacionário é muitas vezes um sábio hábil e interessado que explora politicamente as grandes verdades metafísicas e esquadrinha sem piedade o fenômeno humano para publicar seu horror, aproveitador do terrível que minimiza ou calunia o tempo, ao passo que o pensamento revolucionário, mais generoso por ser mais ingênuo, associa ao devir a substancialidade, vê na sucessão enriquecimento e perfectibilidade e desafia a ideia do pecado original, querendo libertar o homem do culto das origens a que a religião o condena e minando os deuses que nos prendem a um mundo anterior à história e nos fazem desprezar o Devir, fetiche dos inovadores, já que nossas concepções políticas dependem de nossa visão do tempo, indiferente às mudanças das instituições se nos obceca a eternidade e decisiva se, como o revolucionário, cremos que o tempo contém a resposta a todas as questões e o remédio a todos os males, embora este só idolatre o devir até instaurar a ordem por que lutou, quando se desenha o sempre das utopias, eternidade terrena que encerra a história, de modo que crentes e descrentes partilham a ideia de paraíso, mas entre o paraíso primordial das religiões e o final das utopias há a distância entre saudade e esperança, remorso e ilusão, e quanto mais um momento é marcado pelo espírito utópico, mesmo disfarçado de científico, mais chances tem de triunfar, como mostra o marxismo, pois na ação se ganha sempre ao situar o absoluto no possível ao fim do tempo, enquanto Maistre, como todos os reacionários, o situou no passado, estendendo o qualificativo de satânico a todo movimento e pretendendo prender os homens à tradição e afastá-los de questionar dogmas e instituições, já que Deus teria posto certos objetos além de nossa vista por ser perigoso vê-los e o que devemos ignorar seria mais importante do que devemos saber.
36. Partindo da ideia de que sem a inviolabilidade do mistério a ordem desaba, Maistre opõe às indiscrições do espírito crítico as interdições da ortodoxia e à proliferação das heresias a rigidez de uma verdade única, mas vai longe demais ao declarar extravagância culpável toda proposição metafísica que não saia de um dogma cristão e, fanático da obediência, acusa a Revolução de ter desnudado o fundo da autoridade e revelado seu segredo às massas, como a criança que quebra um brinquedo para ver seu mecanismo, sem perceber que há coisas que se destroem ao mostrá-las.
37. Essas palavras de lucidez insolente poderiam ser ditas por representante de qualquer regime ou partido, embora nenhum liberal ou homem de esquerda ousasse adotá-las, pois a direita afirma e a esquerda nega que a autoridade deva repousar num mistério irracional, diferença puramente ideológica, já que toda ordem que quer durar só o consegue pela obscuridade que a cerca, pelo véu sobre seus motivos e atos e por um pouco de sagrado que a torna impenetrável às massas, evidência que os governos democráticos não podem proclamar, mas que os reacionários, indiferentes à opinião, dizem sem pudor, escandalizando os democratas, que sabem que a reação traduz muitas vezes suas segundas intenções e suas amarguras íntimas, presos a um programa generoso que os impede de desprezar o povo ou a natureza humana e de invocar o Pecado original, otimistas com a morte na alma, dilacerados por um ideal inutilmente nobre e puro, invejando em segredo o desembaraço doutrinal dos inimigos, já que o desespero do homem de esquerda é combater em nome de princípios que lhe proíbem o cinismo.
38. Esse tormento foi poupado a Maistre, que, temendo sobretudo a libertação do indivíduo, quis assentar a autoridade em bases sólidas contra os princípios dissolventes da Reforma e da Enciclopédia, minimizando a premeditação e a vontade na criação das instituições e das leis e negando que as línguas tenham sido inventadas, pois a palavra precede o homem e só é possível pelo Verbo, doutrina cujo sentido político Bonald revela ao afirmar que, se o gênero humano recebeu a palavra, recebeu com ela o conhecimento da verdade moral e há uma lei soberana e uma ordem de deveres, ao passo que, se o homem fez sua palavra, fez seu pensamento, sua lei e a sociedade e pode tudo destruir, como sustentam os que veem a sociedade como convenção arbitrária.
39. A teocracia, ideal do pensamento reacionário, funda-se no desprezo e no medo do homem, na ideia de que ele é corrompido demais para merecer a liberdade, que usa contra si mesmo, devendo-se por isso fundar leis e instituições num princípio transcendente, de preferência na autoridade do velho Deus terrível sempre pronto a intimidar e desencorajar as revoluções.
40. A nova teocracia é assombrada pela antiga, pois para Maistre a legislação de Moisés é a única que desafiou o tempo e saiu do círculo do poder humano e para Bonald a mais forte de todas, por ter produzido o povo mais estável, depositário de todas as verdades, cabendo à Restauração, depois que a Revolução emancipou civilmente os judeus, reconsiderar sua religião e exaltar a civilização sacerdotal ridicularizada por Voltaire.
41. O cristão que busca os antecedentes de seu Deus esbarra em Jeová e intriga-se com o destino de Israel, interesse de Maistre e Bonald não isento de cálculo político, já que esse povo estável, supostamente hostil à mania de inovação, censurava as nações voltadas às ideias modernas, entusiasmo passageiro, pois, ao perceber que na Rússia os judeus ecoavam as ideologias francesas, Maistre os tratou de subversivos e os comparou aos protestantes, e não se imagina o que diria se previsse seu papel nos movimentos de emancipação social, preso demais às tábuas de Moisés para prever as de Marx, com afinidades tão profundas com o Antigo Testamento que seu catolicismo parece judaico, impregnado de frenesi profético ausente da doce mediocridade dos Evangelhos, buscando por toda parte sinais do retorno à Unidade e do fim da degradação, a ponto de esquecer Deus ou de pensá-lo mais em suas manifestações que em seu ser, nas aparências chamadas Providência, vias e artifícios da inqualificável estratégia divina.
42. Por invocar constantemente o mistério diante de toda fronteira do raciocínio, atribuiu-se a Maistre um misticismo contra a evidência, pois o verdadeiro místico não interroga o mistério, não o rebaixa a problema nem o usa como explicação, mas instala-se nele e o vive como realidade, com um Deus que não é, como o dos profetas, absorvido pelo tempo, traidor da eternidade, exterior e superficial, mas o Deus de nossos solilóquios e dilacerações, em quem se reúnem nossos gritos.
43. Maistre optou pelo Deus dos profetas, soberano contra quem é vão queixar-se, encarregado das igrejas e indiferente às almas, e por um mistério abstrato, anexo da teologia ou da dialética, conceito mais que experiência, alheio ao encontro entre a solidão humana e a divina, mais aberto aos problemas da religião que aos dramas da fé e inclinado a relações jurídicas mais que confidenciais com Deus, falando do mistério como magistrado e reduzindo a religião a cimento do edifício político, síntese híbrida de utilitarismo e inflexibilidade teocrática, preferindo o Pai ao Filho e o Papa a ambos, de modo que a frase sobre a conversão de Werner, ter recebido um golpe de catolicismo, aplica-se a ele, atingido não por Deus, mas por uma forma institucional do absoluto, como Bonald, com quem se dizia em uníssono perfeito, conformidade lamentável com um escritor apagado e voluntariamente limitado, que Joubert via como fidalgote erudito que erige em doutrinas seus primeiros preconceitos, mas reveladora da disciplina que se impunha para evitar a aventura e o subjetivismo na fé, embora às vezes o visionário vença o teólogo e o eleve à percepção da eternidade, quando deseja lançar-se além dos limites do mundo e imagina a Jerusalém celeste em que, abolidos o mal e o interesse, todos os espíritos se interpenetrariam, perguntando o que seria então do eu.
44. A pergunta sobre o que será do eu não é de um místico, para quem o eu é pesadelo de que se liberta pelo desvanecimento em Deus e pela volúpia da unidade, que Maistre nunca parece ter atingido pela sensação ou pelo êxtase, permanecendo nele obsessão de teórico, apegado a seu eu e incapaz de representar bem o retorno à identidade anterior à divisão e a nostalgia do paraíso, que só se compreende como experiência cotidiana em Claude de Saint-Martin, de quem sofreu forte influência, que dizia possuir apenas dois postos, o paraíso e o pó, de quem um velho inglês disse ter lançado o mundo para trás, ancorado no além numa época de reabilitação do homem e qualificado para pregar a Queda, outro rosto do século XVIII, iniciado que não perdeu a ingenuidade, místico verdadeiro avesso à ironia, que nunca reza, e cujo único orgulho talvez tenha sido o do suspiro, nas notações sobre a natureza como dor concentrada, sobre a impossibilidade de fixar-se sem Deus e sobre ter visto o que há acima do sol sem glorificar-se disso.
45. Essas notações discretas e profundas não tornam indulgente com o lirismo intolerável de O Homem de Desejo, em que tudo irrita salvo o título e Rousseau está presente a cada página, Rousseau que só agiu sobre os outros por seus lados duvidosos, cuja ênfase e jargão prejudicaram o estilo de Saint-Martin e de Robespierre, responsável pelo tom declamatório antes, durante e depois da Revolução, pelo que anuncia e desqualifica o romantismo e pelo horror da prosa poética, influência que marcou Chateaubriand e Sénancour e a que só Joubert escapou, e cujas ideias vagas exasperaram Voltaire, que julgou Dos erros e da verdade o livro mais absurdo e tolo já impresso, obra apreciada por Maistre na época de seu rousseauísmo e teosofia, e que, mesmo ao renegá-los e chamar a maçonaria de tolice, conservou sua simpatia pelo Filósofo desconhecido, de quem adotou as teses sobre a ciência primitiva, a matéria, o sacrifício e a salvação pelo sangue, devendo-lhe talvez a importância da ideia da Queda, rejuvenescida por um espírito livre e heterodoxo, como a ideia de providência difundida nas lojas, além do mérito de dar acento religioso, em pleno progresso indefinido, ao mal-estar de viver no tempo e ao horror de estar nele encerrado, via em que Maistre o segue com menos ardor, vendo o tempo como algo forçado que só pede para acabar e o homem como sujeito ao tempo, mas estranho a ele por natureza.
46. Para Maistre a entrada na eternidade não se faz pelo êxtase e pelo salto individual no absoluto, mas por um acontecimento extraordinário que encerre o devir, pelo fim dos tempos como desfecho do processo histórico, em profeta e não em místico, anunciando que não há mais religião na Terra, que o gênero humano não pode permanecer assim e que oráculos temíveis anunciam a chegada dos tempos.
47. Cada época tende a julgar-se a última, e hoje como ontem concebemos mais facilmente o inferno que a idade de ouro e o apocalipse que a utopia, com uma ideia de catástrofe cósmica tão familiar quanto aos budistas, pré-socráticos ou estoicos, num equilíbrio instável favorável ao dom profético, sobretudo após as grandes convulsões, quando céticos e fanáticos se rejubilam com a ideia do desastre e com a volúpia de tê-lo previsto, especialmente os teóricos da Reação, que exultam tragicamente diante do pior, sua razão de ser, como Maistre, que em 1819 escrevia morrer com a Europa, e Bonald, que lhe confessara ver como única clareza o Apocalipse.
48. Depois de pensar a Restauração, ambos se decepcionaram ao ver que, realizada, ela não apagava os vestígios da Revolução nos espíritos, decepção que talvez esperassem, a julgar pela pressa em entregar-se a ela, pois a história ignorava o curso que lhe atribuíam e desmentia seus sistemas, e as palavras mais sombrias de Maistre, de certa complacência romântica, datam da época em que suas ideias pareciam triunfar, como a confissão à filha de que um braço de ferro invisível sempre pesou sobre ele como um pesadelo que o impede de correr e respirar.
49. Suas decepções com o rei Vítor Emanuel pesavam nessas crises, mas o inquietava sobretudo a perspectiva de novos abalos e o espectro da democracia, e, recusando o futuro que pressentira, esperava, com o otimismo incurável dos vencidos, que, ameaçado seu ideal, tudo estivesse ameaçado e que com sua forma de civilização desaparecesse a própria civilização, ilusão frequente e inevitável, pois é difícil desligar-se de uma realidade histórica que se desagrega quando se harmonizava com o mais profundo de si, e, incapaz de subscrever o futuro, cede-se à ideia de decadência, nem verdadeira nem falsa, mas que explica por que cada época só se individualiza sacrificando valores anteriores reais e insubstituíveis.
50. O antigo regime devia perecer, minado pelo esgotamento muito antes de ser destruído pela Revolução, sem que isso prove a superioridade do terceiro estado, cuja burguesia, apesar de suas virtudes e reservas de vitalidade, não marcava progresso de gosto sobre a nobreza decaída, pois as substituições históricas revelam mais o automatismo que a urgência da mudança, e, se no absoluto nada é caduco, tudo o é no relativo e no imediato, em que o novo é o único critério e a metamorfose a única moral, de modo que para compreender os acontecimentos é preciso vê-los como matéria oferecida ao olhar desenganado, já que quem faz a história não a compreende e quem dela participa é seu joguete ou cúmplice, garantindo só o desengano a objetividade, mas, sendo a vida parcialidade, erro e vontade de ilusão, julgar objetivamente talvez seja passar para o lado da morte.
51. O terceiro estado, ao afirmar-se, devia ser impermeável à elegância, ao requinte, ao ceticismo e ao estilo do antigo regime, pois todo progresso implica recuo e toda ascensão queda, ainda que circunscrita, e a ascensão da burguesia libertou energias acumuladas no afastamento político, passo adiante como o será o surgimento do proletariado destinado a substituir uma classe estéril, embora também aqui atue o princípio de retrogradação, já que os recém-chegados não poderão salvaguardar valores que redimem os vícios da era liberal, o horror à uniformidade, o gosto da aventura e do risco, a paixão do desalinho intelectual e o apetite imperialista no nível do indivíduo mais que da coletividade.
52. Uma lei inexorável rege sociedades e civilizações, e quando o passado, sem vitalidade, faliu, agarrar-se a ele é inútil, mas é justamente esse apego a formas de vida caducas e causas perdidas que torna patéticos os anátemas de Maistre e Bonald, pois tudo parece admirável e tudo é falso na visão utópica, ao passo que tudo é execrável e tudo parece verdadeiro nas constatações dos reacionários.
53. A distinção tão nítida entre Revolução e Reação sacrifica à ingenuidade ou à preguiça e ao conforto das definições, já que o concreto denuncia a comodidade dos conceitos e mostra que uma revolução bem-sucedida e instalada deixa de ser revolução, imita a aparelhagem e o funcionamento da ordem que derrubou, destrói seus princípios e prestígio, torna-se conservadora a seu modo defendendo o presente e afasta-se das visões exaltadas que faziam seu dinamismo, sendo verdadeiramente revolucionário apenas o estado pré-revolucionário, que cultua o futuro e a destruição, pois enquanto possibilidade a revolução transcende as constantes da história e, instaurada, nelas reentra e prolonga o passado usando os meios da reação que condenara, e até o anarquista esconde um reacionário à espera da tomada do poder, quando a metamorfose do caos em autoridade coloca problemas que nenhuma utopia ousa resolver sem cair no lirismo ou no ridículo.
54. Todo movimento de renovação, ao aproximar-se do objetivo e realizar-se pelo Estado, desliza para o automatismo das velhas instituições e assume o rosto da tradição, perdendo energia à medida que se define, como as ideias, cuja eficácia diminui quanto mais formuladas e explícitas, sendo uma ideia nítida ideia sem futuro, pois além de seu estágio virtual pensamento e ação se degradam no sistema e no poder, duas formas de esterilidade, e a única certeza comum a todas as revoluções é a decepção que suscitam em quem nelas acreditou com fervor.
55. Que a renovação essencial das realidades humanas seja concebível em si e irrealizável de fato basta para tornar mais compreensível Maistre, representante, por odiosas que sejam algumas opiniões, da filosofia imanente a todo regime congelado no terror e nos dogmas, teórico encarniçado contra todo nascimento e todo fazer, que odiava o ato como prefiguração de ruptura e chance de advento, pois para ele agir era refazer, como o revolucionário em relação ao presente em que se instala e que quer eternizar, presente que logo se torna passado e ao qual, agarrando-se, ele acaba juntando-se aos defensores da tradição.
56. O trágico do universo político está na força oculta que leva todo movimento a negar-se, trair sua inspiração e corromper-se à medida que avança, pois em política como em tudo só se realiza sobre a própria ruína, e, enquanto as revoluções se põem em marcha para dar sentido à história, a reação replica que esse sentido já foi dado e deve ser defendido, o que dirá também uma revolução vitoriosa, de modo que a intolerância resulta de uma hipótese degenerada em certeza e imposta por um regime, e cada doutrina contém possibilidades infinitas de desastre, já que o espírito só é construtivo por inadvertência e o encontro entre homem e ideia tem quase sempre consequência funesta.
57. Convencidos da futilidade das reformas e da vaidade herética do melhor, os reacionários querem poupar à humanidade os dilaceramentos da esperança, intimando-a a contentar-se com o adquirido e escolher entre o instinto de conservação e o gosto da tragédia, mas o homem recusa justamente essa escolha, e nessa impossibilidade se esgota seu drama, sendo animal ao mesmo tempo ou alternadamente reacionário e revolucionário, e a distinção clássica entre revolução e reação, embora frágil, deve ser mantida como referência problemática e indispensável, convenção suspeita mas fatal, que obriga a falar de direita e esquerda, termos sem correspondência intrínseca que se preferiria deixar ao demagogo, já que a direita às vezes supera a esquerda em vigor e dinamismo, como nos levantes nacionais, e a esquerda, presa ao poder ou a superstições, pode adquirir as taras da direita, cabendo ao analista detectar a vitalidade sem se preocupar com o verniz doutrinal, e certos povos fazem a revolução pela direita e outros pela esquerda, o que revela a inanidade de toda definição unívoca, sendo direita e esquerda aproximações indispensáveis, pois dispensá-las seria suspender o juízo político, libertar-se do tempo e exigir que o homem desperte para o absoluto como animal metafísico, salto de que poucos são capazes, já que todos dormimos e por isso mesmo agimos, convindo continuar praticando essas distinções felizes por ignorar que os valores nascidos no tempo são, em última instância, intercambiáveis.
58. As razões que levam o mundo político a forjar conceitos e categorias diferem das de uma disciplina teórica e recobrem realidades menos honrosas, pois todas as doutrinas de ação e combate foram inventadas para dar aos homens boa consciência e permitir-lhes odiar-se nobremente, sem constrangimento nem remorso, de modo que ao espírito livre, rebelde às ideologias mas ainda servo do tempo, parece restar diante dos acontecimentos a escolha entre desespero e oportunismo.
59. Maistre não podia ser oportunista nem desesperado, impedido por sua religião e princípios, mas, vencendo o humor a fé, conheceu acessos de desânimo diante de uma civilização sem futuro, crendo morrer com a Europa, como muitos depois, sobretudo após as grandes derrotas, na França após 1814, 1870 e 1940 e na Alemanha após 1918 e 1945, enquanto a Europa, indiferente às Cassandras, persevera alegremente numa agonia tão obstinada que talvez equivalha a nova vida, problema de perspectiva e ideologia, sem sentido para o marxista e angustiante para liberais e conservadores que veem desvanecer suas razões de viver, e, se hoje morre uma forma de Europa, é apenas etapa de um imenso declínio, pois a fórmula de Valéry sobre Bergson como último representante da inteligência europeia servirá ainda para muitos, e quem proclama o fim da civilização o faz por rancor contra um futuro hostil e vingança contra a história que não se conforma à sua imagem, como Maistre, que morria com sua Europa avessa à inovação, o maior flagelo, convicto de que só uma ideia universal imposta de grado ou à força, encarnada no catolicismo, salvaria as sociedades da desordem, opondo o absoluto do dogma ao relativismo da experiência e recusando o título de religião ao protestantismo, que permite o juízo particular e o livre exame, mais nocivo politicamente que o islamismo ou o paganismo, deslizando para a intolerância quando, por ódio à Revolução, se entregou à Igreja e abandonou o liberalismo de sua fase maçônica.
60. Inspirados na utopia ou na reação, os absolutismos se assemelham e se encontram, pois, independentemente do conteúdo doutrinal, que os diferencia só na superfície, seguem o mesmo esquema lógico de todos os sistemas que fazem de um princípio incondicionado dogma e lei, e as doutrinas da Unidade são tão aparentadas que estudar uma é examinar todos os regimes que recusam a diversidade e negam ao homem o direito à heresia, à singularidade e à dúvida.
61. Obcecado pela Unidade, Maistre ataca toda veleidade de inovação ou autonomia, sem perceber que a heresia é a única possibilidade de revigorar as consciências e preservá-las do torpor conformista, enfraquecendo a Igreja, mas fortalecendo a religião, já que todo Deus oficial é um Deus só e amargurado e só se reza com fervor nas seitas, entre minorias perseguidas, na obscuridade e no medo, mas para ele a raiva da submissão prevalece sobre as efusões da fé, odiando luteranos, calvinistas e jansenistas como rebeldes e traidores e recomendando contra eles todos os meios que não sejam crimes, recurso a que, lendo sua apologia da Inquisição, não parece repugnar, sendo Maistre o Maquiavel da teocracia.
62. A unidade concebida por Maistre tem duplo aspecto, metafísico, como triunfo sobre a divisão, o mal e o pecado, e histórico, como instauração definitiva e apoteose do catolicismo vitorioso sobre os erros modernos, unidade da eternidade que escapa a todo controle e unidade do tempo que parece ilusória, pois nenhuma ideia religiosa parece hoje capaz de unificar espiritual e politicamente o mundo, e, sendo o cristianismo fraco demais para seduzir ou domar os espíritos, a tarefa caberá a uma ideologia ou a um conquistador, ao marxismo, a um novo cesarismo ou a ambos, síntese desconcertante para a razão, mas não para a história, reino da anomalia.
63. O catolicismo, mais ainda que o cristianismo em geral, está em plena deliquescência e, prudente, conciliador e moderado como hoje se mostra, não toleraria um apologista tão feroz quanto Maistre, que só denunciou o espírito de seita nos outros por estar dele impregnado, aplaudindo a Revogação do Édito de Nantes enquanto maldizia o Terror, desprezando como objeções de lojista o prejuízo das manufaturas levadas pelos refugiados e opondo, com má-fé insuperável que beira o jogo ou a insanidade, Luís XIV, que esmagou o protestantismo e morreu glorioso em seu leito, a Luís XVI, que o acariciou e morreu no cadafalso.
64. Num acesso de moderação, Maistre reconhece que o espírito protestatário precede Lutero e remonta a Celso, para quem o cristão era aparição desconcertante e inconcebível, e cujo Discurso verdadeiro, texto patético, ataca a nova seita que agravava a situação de um império cercado pelos bárbaros, sem compreender que se preferisse à filosofia grega um ensino suspeito e nebuloso cuja força de contágio pressentia com desespero, argumentação retomada dezesseis séculos depois por Voltaire, que, estupefato diante da carreira do cristianismo, assinalou seus abusos e devastações, obra salubre que Maistre exagera ao fazer origem do Terror, para quem irreligião e cadafalso são correlativos, pedindo que se mate o espírito do século XVIII, cujo único fanatismo foi o da tolerância, e condenando a guilhotina depois de ter sido terno com a fogueira, contradição de servidor de uma causa que legitima seus excessos e execra os da outra, paradoxo de todos os tempos do espírito partidário.
65. Considerar o século XVIII encarnação do mal é comprazer-se em aberrações, pois em nenhuma época as injustiças foram denunciadas com mais rigor, obra salutar de que o Terror foi a negação e não o coroamento.
66. Tocqueville observa que nunca a tolerância religiosa, a doçura no mando, a humanidade e a benevolência foram tão pregadas e aparentemente aceitas quanto no século XVIII, em que o próprio direito de guerra se restringira e suavizara, e que desses costumes tão doces sairia a revolução mais inumana.
67. A época, civilizada demais, atingira um refinamento que a condenava à fragilidade e a uma duração brilhante e efêmera, pois costumes doces e dissolutos andam juntos, como na Regência, o momento mais agradável, lúcido e corrompido da história moderna, quando a vertigem da liberdade começava a pesar e Mme du Deffand, mais representativa do século que Voltaire, notava que a liberdade não é um bem para todos e poucos suportam seu vazio e sua obscuridade, e foi talvez para fugir deles que a França se lançou nas guerras da Revolução e do Império, sacrificando os hábitos de independência, desafio e análise adquiridos em cem anos de conversação e ceticismo e recompondo-se, ameaçada pela devassidão de inteligência e ironia, pela aventura coletiva e pelo desejo de submissão nacional, conforme a máxima de Maistre de que os homens só se reúnem para um fim sob uma lei que os prive da vontade, sendo preciso ser religioso ou soldado.
68. Esse vício de nossa natureza alegra Maistre, que o invoca para exaltar a realeza, o papado, os tribunais espanhóis e todos os símbolos da autoridade, discípulo e depois porta-voz dos jesuítas, cúmplices das autocracias, a quem confessa dever não ter sido orador da Constituinte, julgando-se sempre em relação à Revolução e defendendo ou denegrindo a França por referência a ela, saboiano que se dizia o estrangeiro mais francês e que penetrou como poucos o gênio do povo iniciador, destinado por seu espírito de proselitismo a exercer na Europa uma verdadeira magistratura, aplicando-lhe a palavra de Isaías de que cada fórmula desse povo é uma conjuração, verdadeira então, menos depois e sem sentido após a guerra de 1914.
69. A Revolução esteve presente em todos os abalos do século XIX sem que nenhum a igualasse, pois os insurgentes de 1848, obcecados pelas figuras de 1789 e paralisados pelo medo de trair os modelos, eram epígonos presos a um estilo de revolta que não criaram, já que uma nação nunca produz duas grandes ideias revolucionárias nem dois messianismos radicalmente diferentes, dando sua medida uma só vez, no momento supremo de sua expansão, em que triunfa com todas as suas verdades e mentiras, e esgotando-se depois com a missão que recebeu.
70. Desde a Revolução de Outubro, a Rússia exerce a mesma influência, terror e fascinação que a França desde 1789, impondo suas ideias a um universo submisso, trêmulo ou pressuroso, com força de proselitismo ainda maior, de modo que Maistre diria hoje que a Providência decretou a era dos russos e lhes aplicaria a palavra de Isaías, ele que, vivendo entre eles, não subestimou suas capacidades, vendo no russo o homem que quer com mais paixão, cujo desejo faria explodir uma cidadela, e numa nação tida por indolente a mais móvel, impetuosa e empreendedora do universo, o que o mundo só percebeu após a insurreição dezembrista de 1825, quando reacionários e liberais passaram a prever convulsões na Rússia, evidência do futuro que não exigia dom profético, pois nenhuma revolução foi tão segura e esperada, impossível de deter por reformas, humanização ou concessões, sem mérito em eclodir por existir antes de aparecer e ter podido ser descrita em detalhe, como em Os Demônios, antes de manifestar-se.
71. Como para Maistre os únicos garantes da boa ordem eram a escravidão ou a religião, desejava para consolidar o poder dos czares a manutenção da servidão, já que desprezava a igreja ortodoxa, adulterada e contaminada pelo protestantismo e incapaz de contrapor-se às ideias subversivas, sem perguntar se a igreja católica, em nome da verdadeira religião, impediu a revolução na França, pois o interessava o governo absoluto, e todo governo o é, já que, se se pode resistir-lhe a pretexto de erro ou injustiça, deixa de existir.
72. Encontram-se em Maistre impulsos liberais, ecos de sua primeira formação ou expressões de um remorso, mas o lado humano de suas doutrinas interessa pouco, pois seus dons só florescem nos excessos antimodernos e nos ultrajes ao bom senso, sendo o reacionário que apaixona e o escritor que se supera quando insulta nossos princípios e esmaga nossas superstições em nome das suas, envolvendo a visão mais sombria numa aparência leve, debruçado em plena cólera sobre minúcias da linguagem, fulminando como literato e gramático, temperamento epiléptico apaixonado pelas futilidades do verbo, mistura de transes e chistes, convulsões e minúcias, baba e graça que compõe o universo do panfleto em que perseguia o erro com invectivas, ultimatos da impotência, vingando-se pela palavra da humilhação de não poder erigir em leis seus preconceitos e manias, buscando verdades não por si mesmas, mas como armas, definindo-se por recusas e aversões e precisando, para exercer a inteligência, execrar sempre alguém ou algo e meditar sua supressão, condição da fecundidade de seu desequilíbrio, sem a qual cairia na esterilidade dos pensadores que não cultivam seus desacordos, de modo que a tolerância teria sufocado seu gênio, e, para um amante do paradoxo após um século de declamações sobre liberdade e justiça, o único meio de ser original era abraçar as ficções opostas da autoridade, mudando de extravio.
73. Quando Napoleão lia em Milão, em 1797, as Considerações sobre a França, talvez visse nelas a justificação de suas ambições e o itinerário de seus sonhos, interpretando em seu favor a defesa do rei, ao passo que os escritos liberais de Necker, Mme de Staël e Benjamin Constant o irritavam, oferecendo, segundo Albert Sorel, a teoria dos obstáculos a seu reinado, pois o pensamento liberal, que repudia o destino, não pode seduzir um conquistador, que aspira a encarná-lo e a ser intérprete da Providência, de modo que as Considerações revelavam Bonaparte a si mesmo.
74. Além do amor-ódio existe o sentimento mais turvo da admiração-ódio, que Maistre nutria por Napoleão, felicidade de ter por contemporâneo um tirano digno de ser abominado, a quem se dedica um culto às avessas e com quem secretamente se quer parecer, de modo que Napoleão, obrigando seus inimigos a elevar-se à sua altura e à inveja, foi para eles uma bênção, sem a qual Chateaubriand, Constant e Maistre não teriam resistido tão facilmente à tentação da medida, participando o histrionismo de um, a versatilidade de outro e as cóleras do último do histrionismo, versatilidade e cóleras do próprio Napoleão, pois combater um monstro é ter afinidades com ele e tomar-lhe traços, e Maistre lembra Lutero, Voltaire e o Pascal das Provinciais, que mais atacou, bom panfletário que compreendia os panfletários adversos por partilhar seu gosto da inexatidão e da parcialidade, definindo sua própria arte ao fazer da filosofia a arte de desprezar as objeções, asserção excessiva mas quase verdadeira, já que ninguém defenderia uma posição se tivesse de multiplicar escrúpulos e pesar incessantemente prós e contras, sendo o pensador original um impetuoso que avança mais do que cava, um combativo da abstração cuja agressividade, mesmo velada, é real e eficaz, movido por uma vontade e um instinto tão necessários à gênese de um sistema quanto a inteligência para vencer as objeções e a paralisia a que condenam, pois toda afirmação pode ser anulada por outra e emitir uma opinião exige bravura, certa irreflexão e razões extrarracionais, como mostra Maistre ao afirmar que todo o gênero humano vem de um casal e, diante dos que o negam, perguntar que importância isso tem, procedimento usado por todos os que se identificam com uma doutrina, mas raramente confessado, e que ele, por uma inabilidade honrosa, revela com orgulho, entregando o segredo de seus excessos.
75. Não isento da ingenuidade do dogmatismo, Maistre faz-se intérprete de todos os detentores de certeza ao proclamar-se feliz possuidor da verdade, linguagem triunfal inconcebível para os céticos, mas que fortalece o crente, pois uma fé que admite outra e não reivindica o monopólio da verdade abandona o absoluto que a legitima e reduz-se a fenômeno de civilização, de modo que o grau de inumanidade de uma religião garante sua força e duração e uma religião liberal é zombaria ou milagre, verdade terrível sobretudo no mundo judaico-cristão, em que pôr um Deus único é professar a intolerância e subscrever o ideal teocrático, e as doutrinas da Unidade, mesmo antirreligiosas, seguem o esquema formal da teocracia como teocracias secularizadas, como o positivismo, que rejeitou o conteúdo dos sistemas retrógrados para adotar sua armação lógica, usando Comte as ideias de Maistre como Marx as de Hegel.
76. Positivistas e católicos exploraram em proveito próprio o pensamento do autor de Do Papa, ao passo que Baudelaire, mais livre, dele tirou por necessidade interior os temas do mal e do pecado e preconceitos contra a democracia e o progresso, fazendo consistir a verdadeira civilização na diminuição dos traços do pecado original, inspirado nas Noites, e reconhecendo que Maistre e Poe lhe ensinaram a raciocinar, quando antes lhe forneceram obsessões, invertendo e agravando motivos maistrianos ao invocar uma providência diabólica e professar o satanismo com negatividade vivida, assim como Bonald influenciou Balzac, prolongamentos literários inesperados da filosofia da Restauração, pois no passado de todo escritor, sobretudo poeta, há antecedentes reacionários, já que a memória é condição da poesia e o passado sua substância, e a Reação afirma o valor supremo do passado.
77. O propósito das Noites de dizer audaciosamente o que se crê verdadeiro, mesmo uma verdade que choque todo o gênero humano, anuncia o Baudelaire da franqueza absoluta de Fogos e Meu coração desnudado e dá a fórmula da arte da provocação em que ele se distinguiu quase tanto quanto Maistre, como todos os que, por lucidez ou amargura, rejeitam as feerias do Progresso, e os conservadores manejam a invectiva e escrevem melhor que os devotos do futuro porque, furiosos por serem desmentidos pelos acontecimentos, se lançam ao verbo como vingança e consolo, enquanto os outros, cúmplices do futuro e seguros da história, escrevem sem arte nem paixão, sendo o estilo prerrogativa e luxo do fracasso, como em Saint-Simon e Maistre, unidos pelo apego estreito à causa aristocrática, por preconceitos defendidos com raiva, pelo orgulho de casta ostentoso e por uma incapacidade de agir que os fez empreendedores como escritores, cuja prosa explode de paixão como uma tempestade, sem que se possa pôr o duque e o conde no mesmo plano, pois o primeiro recriou uma época a partir da vida e o segundo só animou ideias, e com conceitos não se atinge a plenitude do gênio, já que não há verdadeira criação em filosofia, que permanece num plano derivado aquém do movimento do ser, só a arte imitando Deus ou substituindo-o, e o pensador esgota a definição do homem incompleto.
78. Se Saint-Simon lembra, segundo Sainte-Beuve, uma mistura de Shakespeare e Tácito, Maistre evoca uma mistura menos feliz de Belarmino e Voltaire, teólogo e literato, profissional da controvérsia que no século XVI atacava o protestantismo e cuja campanha Maistre retomou com mais fogo e verve, como último representante da Contrarreforma.
79. Diante de sua fúria contra as novas seitas, pergunta-se se não haveria humor nesse desdobramento de raiva e se ele não teria consciência das enormidades que dizia, enormidades que elevam suas obras e ainda as fazem ler, como ao afirmar que desde o Fiat Lux nenhum ouvido humano ouviu nada igual a uma frase de Bacon, que os padres tudo conservaram, reanimaram e ensinaram ou que o papa é o demiurgo da civilização, extravagâncias saborosas que deixam em dúvida se quer divertir ou se crê nelas, sendo mais simples admitir sua sinceridade, já que sua vida não mostra traço de charlatanismo e sua lucidez nunca chegou à impostura ou à farsa, única falha de seu senso da desmedida.
80. Havia nesse demolidor em nome da tradição, fanático por disciplina e método, o desejo de convicções inabaláveis e de ser inteiriço, como o doente que dizia cair numa ideia como num precipício, com a diferença de que Maistre queria cair nela, ardia por precipitar-se e, como os pensadores agressivos, por arrastar-nos, proselitismo abissal próprio do fanatismo inato ou adquirido, e o seu, adquirido pelo esforço, tornou-se realidade orgânica, pois, agarrado ao absoluto por ódio a um século que tudo questionara, foi longe demais no sentido oposto e, por medo da dúvida, erigiu a cegueira em sistema, sonhando nunca carecer de ilusões e obnubilar-se, sonho que teve a felicidade de realizar.
81. Lúcido em certos momentos, Maistre enganou-se em muitas previsões, pois a França, a quem atribuía a regeneração religiosa da humanidade, voltou-se para a laicidade, os cismas não acabaram, as igrejas separadas não voltaram ao catolicismo e Roma, longe de recuperar seus privilégios, está mais modesta e tímida que nunca, e, se pressentiu algumas convulsões da Europa, não adivinhou as atuais, mas a caducidade de suas profecias não deve fazer esquecer os méritos e a atualidade do teórico da ordem e da autoridade, que, mais conhecido, teria sido inspirador de todas as ortodoxias políticas e gênio e providência dos despotismos do século XX, pensamento vivo apenas na medida em que repele ou desconcerta, pois quanto mais se o frequenta mais se pensa nas delícias do ceticismo ou na urgência de uma defesa da heresia.