Gérard Chazal
CHAZAL, Gérard. Le miroir automate. Introduction à un philosophie de l’informatique. Seyssel: Champ Vallon, 1995
Filosofar é abandonar, ainda que apenas por um tempo, o reino das coisas em favor do reino das palavras, o fazer em favor do dizer, o ato em favor da ideia. A empreitada não é isenta de riscos e perigos: não estaremos abandonando o domínio da pura positividade e da efetividade em troca de um mundo ilusório de pensamentos que se distanciam pouco a pouco do real? Mas, muitas vezes, o desenrolar das coisas é tal que a transição de uma morada para a outra torna-se uma urgência. Este trabalho insere-se num projeto para compreender o florescimento da informática, tanto como técnica ou conjunto de técnicas a serviço de uma multiplicidade de domínios da atividade humana, quanto como disciplina que aspira, por meio de numerosos esforços teóricos, ao status de ciência. Técnica ou ciência, a informática penetra rapidamente em todos os setores do espaço humano e, por isso, torna-se necessariamente objeto de reflexão filosófica. Não se trata, aliás, aqui, de justificar o que empreendemos — o discurso filosófico não se justifica, mas se impõe como uma tentativa de responder a questões que surgem na urgência da ação ou da atividade e como uma recusa em contorná-las. A reflexão filosófica sobre a informática e suas formas mais desenvolvidas na inteligência artificial não tem utilidade, mas sim urgência; não é operativa, mas vital; não é um olhar sobre o mundo, muito menos uma tentativa de dominá-lo, mas um olhar sobre esse olhar. Será que ela pode, de alguma forma, alterar o curso das coisas? Certamente não diretamente: não se trata de guiar, de orientar a pesquisa em informática, nem de pretender dirigir, canalizar as atividades técnicas, legislar sobre essas atividades a partir de normas transcendentais que o filósofo possuiria e imporia. Não acreditamos na imagem do sábio platônico a quem o saber impõe, na Cidade ideal, o dever de governar o curso das coisas. Mas também não haveria curso das coisas sem a consciência de que ele é, do que ele é, e essa consciência é a reflexão filosófica. É ela, em última análise, que pode revelar um sentido ou conferi-lo e, por isso, pode participar do empreendimento técnico, tecnológico e científico que é a informática.