Dialética do Mal e Necessidade Ontológica: O Embate Epistolar de Espinosa
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Início da correspondência entre Espinosa e Willem van Blijenbergh em dezembro de 1664, motivada pela leitura dos Princípios da filosofia cartesiana e pela busca incessante da verdade por um interlocutor que se apresenta como amante da sabedoria.
Debate centrado na origem e natureza do mal, tema que angustia Blijenbergh devido à aparente contradição entre a presciência divina e a liberdade humana em um sistema onde criar e conservar são atos idênticos.
Questionamento sobre o concurso direto de Deus na determinação da alma, sugerindo que, se Deus é causa conservadora de todos os movimentos, seria também a causa imediata das volições más, como o pecado de Adão ou a soberba dos demônios.
Refutação inicial de Blijenbergh à tese cartesiana do mal como não-ente, argumentando que a vontade divina, sendo causa absoluta, deve necessariamente concorrer para a vontade má enquanto má.
Resposta de Espinosa sobre a impropriedade terminológica do pecado e a negação da positividade do mal no intelecto divino.
Argumentação de que mal e pecado não possuem conteúdo positivo ou determinado, sendo palavras usadas de maneira demasiado humana para descrever a relação dos indivíduos com a substância infinita.
Identificação absoluta entre essência e perfeição, estabelecendo que toda essência-existência singular é perfeita em si mesma e que a noção de imperfeição nasce apenas da comparação subjetiva entre seres distintos.
Análise da volição de Adão como expressão necessária de sua essência atual singular, a qual realiza um ato correspondente ao seu próprio ser sem contrariar uma lei divina entendida como mandamento arbitrário.
Crítica à visão antropomórfica de Deus como legislador movido por paixões, reafirmando que um acontecimento contrário à vontade divina seria tão impossível quanto a concepção de um círculo quadrado.
Introdução da segunda regra para filosofar por Blijenbergh e o conflito entre o conhecimento natural e a palavra revelada.
Estabelecimento de uma barreira metodológica onde o Verbo divino possui autoridade superior sobre os conceitos claros e distintos do intelecto, transformando a racionalidade em instrumento apologético da fé.
Distinção entre lumen naturale e lumen gratiae, seguindo a tradição agostiniana e calvinista para purificar o intelecto e orientar a razão em direção às verdades celestes imunes à demonstração.
Acusação de impiedade e indiferença divina no sistema espinosano, denunciando que a negação da positividade do pecado rouba a esperança de salvação e retira o valor ético da conduta humana.
Percepção de Blijenbergh sobre o perigo de reduzir o homem a uma besta selvagem ou a uma pedra, eliminando a distinção moral entre virtude e vício através de um frio intelectualismo.
Confronto com Lambert van Velthuysen e a denúncia do ateísmo dissimulado sob a forma do fado inelutável.
Crítica ao Tratado Teológico-Político por estabelecer uma necessidade indômita que anula o arbítrio divino e as preces humanas, transformando a ordem do mundo em um destino inevitável.
Identificação da imanência como consequência fatal de um universo que emana necessariamente da natureza de Deus em vez de ser criado por um ato de vontade livre e transcendente.
Argumentação de que a filosofia de Espinosa destrói a autoridade das Escrituras e a possibilidade de milagres ao submeter tudo à necessidade rigorosa da natureza, tal como as propriedades de um triângulo.
Defesa de Espinosa contra a pecha de fatalismo, distinguindo entre agir pela necessidade da própria natureza e ser constrangido por causas externas, o que preservaria a verdadeira liberdade divina.
Diálogo com Henry Oldenburg sobre o impacto social da necessidade fatal e o uso da metáfora paulina do barro e do oleiro.
Advertência de Oldenburg para que Espinosa não publique obras que comprometam a prática da virtude religiosa em um século considerado degenerado e corrupto.
Reafirmação da necessidade inevitável como fundamento precípuo do sistema espinosano, asseverando que Deus não é coagido pelo destino, mas age livremente por ser a única causa de Si mesmo.
Debate sobre a inescusabilidade humana perante Deus, onde Oldenburg questiona como alguém pode ser punido por atos que lhe eram impossíveis evitar devido à pressão de uma mão inflexível.
Interpretação da beatitude não como prêmio externo, mas como o próprio amor por Deus que nasce do conhecimento da essência divina, tornando a virtude desejável por si mesma e não pelo medo do castigo.