Artigo original publicado em Le Romantisme allemand. Albert Béguin (org.). Les Cahiers du Sud, 1949
O romantismo envolve integralmente a experiência filosófica no domínio do imaginário, fazendo do sonho um de seus fundamentos privilegiados e estabelecendo com a filosofia uma relação estruturalmente ambígua e singular.
Essa relação desvia a filosofia de seu esforço racional ao aproximá-la de experiências extremas, perturbadoras e dificilmente comunicáveis.
O vínculo com objetos enquanto não inteligíveis desloca a filosofia do projeto de elaboração de novos meios de conhecimento para a busca de novos modos de união com o absoluto.
A exigência, formulada por Schelling, de que o filósofo possua tanta força estética quanto o poeta exprime essa transposição do exercício filosófico para o campo da criação imaginária.
A filosofia romântica só pode, nessas condições, constituir-se como filosofia da arte e, de modo mais amplo, como interpretação do real sob a forma de uma aventura imaginária e teatral.
O isolamento do ato criador elevado ao absoluto, designado como Princípio, permite explorar as ilusões de perspectiva próprias da obra de arte e da experiência sensível.
A partir dessas ilusões, constrói-se um sistema da natureza e do espírito que ultrapassa toda verdade positiva, configurando uma pseudo-ciência, uma mitologia moderna e uma metafísica do imaginário.
Esse procedimento implica uma inversão deliberada da tradição filosófica inaugurada por Platão, Descartes e Kant, entendida como uma subversão de seu esforço crítico.
A orientação de Schelling se define inicialmente a partir de Kant, sob o impulso do Sturm und Drang e da influência decisiva de Herder.
Entre as obras críticas, privilegia-se a Crítica do Juízo, na medida em que ela parece restituir à razão bens que as demais críticas haviam recusado.
A distinção fundamental entre Razão e Entendimento, estabelecida por Kant, delimita dois regimes de atividade intelectual.
O exercício puro da Razão, embora desprovido de valor constitutivo de verdade, conserva uma função reguladora indispensável.
As ideias transcendentais da Razão exercem um papel regulador que prolonga as categorias do Entendimento por meio de uma ilusão necessária.
Essa ilusão orienta o Entendimento para um foco ideal no qual convergem suas regras, mesmo que esse foco não seja constitutivo de conhecimento.
O verdadeiro ponto originário da inteligência permanece imanente à consciência, na unidade sintética da apercepção transcendental.
Contudo, um desdobramento inevitável faz com que esse foco pareça exterior à consciência, embora coincida com sua intimidade mais profunda.
A Crítica do Juízo prepara o caminho para Schelling ao introduzir um equilíbrio entre natureza e liberdade por meio do juízo reflexionante.
Os fenômenos são suficientemente determinados pelo Entendimento, fundamento da ciência.
Ao mesmo tempo, a razão prática intervém na organização do sensível, introduzindo a beleza como aparência paradoxal.
A beleza, definida por contradições internas, funciona como sinal da convergência entre os dois mundos que atravessam a experiência humana.
O juízo estético responde a uma consciência da totalidade na qual sensibilidade e entendimento operam sem perder sua originalidade própria.
A beleza marca o momento em que a atividade espiritual parece elevar seu próprio fundamento.
Ela sugere uma arquitetura do mundo e desperta o sentido de uma ordem necessária.
Esse movimento implica a ideia de uma extensão do Entendimento que permitiria dominar a totalidade das determinações e inverter o sentido habitual de sua operação.
A intuição arquitetônica substitui o conceito e ocupa uma posição superior ao entendimento discursivo, convergindo com concepções estéticas modernas.
A subjetividade do juízo estético, mantida por Kant, impõe-lhe a exigência de recriar incessantemente suas próprias condições de existência.
Diferentemente do juízo científico, o juízo estético não repousa sobre um objeto estabilizado, mas sobre sua própria tensão interna.
Ele desaparece com o afrouxamento dessa tensão.
Por ser apenas regulador e não constitutivo, impede o surgimento, em Kant, de uma metafísica da vida ou da arte, substituída pela crítica.
O projeto de Schelling consiste em transgredir esse limite crítico e constituir uma metafísica da arte e da vida.
O conteúdo do juízo reflexionante é extrapolado e dotado de valor constitutivo em relação ao real.
O romantismo rompe o círculo da crítica kantiana e inverte a totalidade de sua construção.
A experiência romântica do absoluto assume uma forma essencialmente dramática.
O convívio de Schelling com o círculo dos Schlegel em Iena e sua relação com o teatro revelam essa dimensão.
O Sistema do Idealismo Transcendental desenvolve a ideia de que o espírito se aliena para conquistar um objeto que excede o conhecimento.
O absoluto é vivido como inquietude do eu e como ambiguidade constitutiva do Princípio.
Em diálogo com Fichte, o sujeito aparece como radicalmente insatisfeito consigo mesmo e orientado para além de si.
A busca do ser fora ou acima do eu gera angústia e exprime o mal-estar romântico.
A referência a Plotino reforça a ideia de um retorno possível ao centro interior, no qual se revelariam simultaneamente Deus, o eu e o todo.
A intuição superior, apoiada na realidade estética, constitui o ponto de encontro entre espontaneidade humana e graça.
Ela articula esforço e dom, inquietude e auxílio, como via de acesso ao absoluto.
No ensaio sobre a liberdade humana, o princípio dramático se transforma em cosmogonia.
O fundamento do mal é situado no interior do próprio absoluto.
A ativação do eu é apresentada como condição da intensidade da vida.
As contradições e o mal são assumidos como realidades primitivas, não meras aparências fenomenais.
A filosofia de Schelling não possui a continuidade dos sistemas dedutivos clássicos.
Ela se apresenta como uma série de reformulações sucessivas de um mesmo esforço de pensamento.
Trata-se de uma metafísica exploratória, comparável à investigação dramática de uma situação.
A natureza é interpretada como um poema cifrado, cuja decifração revelaria a odisseia do espírito.
O absoluto, superior à distinção entre ser e conhecer, degrada-se ao explicitar os termos da contradição.
O eu representa o polo do conhecimento, enquanto o não-eu constitui o polo do ser.
A recusa de privilegiar um desses polos define o idealismo objetivo de Schelling.
O teatro funciona como símbolo da harmonização estética dos contrários.
A tarefa da filosofia não é demonstrar a primazia do sujeito ou do objeto.
Ela consiste em examinar seus vínculos a partir da intuição intelectual do absoluto.
A interpretação hegeliana de Schelling destaca a unidade dos opostos como núcleo do saber absoluto.
A vida eterna consiste em produzir e reconciliar incessantemente a oposição.
Conhecer é apreender a unidade na oposição e a oposição na unidade.
Na explicação da natureza, o método de Schelling procede do superior ao inferior.
As ciências naturais são interpretadas como etapas de uma mitologia objetiva.
Essa abordagem se opõe à ciência mecanicista de inspiração cartesiana.
Contudo, o recurso a explicações simbólicas e intuitivas dispensa a análise positiva e limita o alcance científico do sistema.
A comparação com o Segundo Fausto de Goethe evidencia paralelos entre poesia e filosofia pós-kantiana.
Os problemas da vida e da criação poética são encenados simbolicamente.
A solução poética substitui a solução filosófica e mina a pretensão romântica da filosofia da natureza.
A filosofia romântica define, em última instância, posições essenciais do pensamento puro.
Seus sistemas são reguladores, não constitutivos, e respondem a uma experimentação superior do espírito.
Essa herança se prolonga até o século XIX e além.
Após 1809, as preocupações religiosas tornam-se predominantes no pensamento de Schelling.
A influência da mística alemã e de Jakob Böhme se intensifica.
A história passa a ser concebida como teogonia.
A filosofia da natureza culmina em teosofia e em especulações sobre o destino cultural germânico.
Essas construções especulativas, embora excessivas, exprimem uma tentativa de resistir à separação entre imaginário e real.
A filosofia romântica funciona como compensação instintiva contra a tirania do intelecto.
Ela preserva a dimensão viva da experiência, mas carece de eficácia científica.
A metafísica do imaginário, fundada na estética, inverte e complementa as filosofias da consciência e da ideia.
O imaginário confere valor à realidade ao reconhecer a impossibilidade de reduzi-la a uma ordem única.