2 Critérios e Ceticismo

CAVELL, Stanley. The Claim of Reason: Wittgenstein, Skepticism, Morality, and Tragedy. Oxford; Nova Iorque: Oxford University Press, 1979.

1. Se a noção wittgensteiniana de critério deve ser compreendida sobre o pano de fundo do uso ordinário ou oficial da palavra, a leitura de Malcolm e Albritton, segundo a qual os critérios estabelecem com certeza a existência de algo, tem o mérito de vinculá-los à resposta ao ceticismo, mas deriva de duas ideias infiéis a Wittgenstein, a de que sua relação com o ceticismo seria a de refutá-lo e a de que o ceticismo afirmaria que nunca se pode conhecer com certeza a existência do mundo exterior ou das outras mentes.

2. A primeira dessas ideias talvez seja fiel a Kant, marcando um ponto decisivo de separação entre ele e Wittgenstein, enquanto a segunda pertence à imagem que o ceticismo faz de si mesmo, de modo que uma crítica formidável do ceticismo, como de qualquer filosofia séria, precisa descobrir e alterar essa autocompreensão, não bastando afirmar que ele não pode ser verdadeiro ou que existem critérios logicamente adequados para mostrá-lo falso, o que apenas redescreve algo que o próprio ceticismo sabe e diz de modo mais completo.

3. A concepção de critério de Malcolm e Albritton representa um avanço, pois só diante da dúvida cética ela parece fazer sentido, embora ao fim se revele que não faz pleno sentido ou que retira da própria dúvida cética o sentido que possui, o que exige examinar seus detalhes.

4. Segundo a caracterização defendida por Malcolm, algo é sintoma de y quando a experiência ensina que está associado a y, ao passo que ser critério de y é questão de definição, de modo que a satisfação do critério estabelece a existência de y além de qualquer dúvida, repetindo o tipo de caso em que se aprendeu a dizer y, e não faria sentido supor que alguém não sente dor se o critério de sua dor estiver satisfeito.

5. Malcolm renuncia com razão à ideia de que os critérios forneceriam condições logicamente necessárias e suficientes, mas a afirmação de que tornam algo certo de um modo diferente dos sintomas não satisfaz ninguém, nem a ele próprio, e Albritton, diante da mesma dificuldade, concede que os critérios não fornecem certeza, mas quase certeza, pois o comportamento sob certas circunstâncias acarretaria não que alguém tem dor de dente, mas que se está justificado em dizê-lo ou que quase certamente a tem.

6. A sugestão parece ser que os sintomas tornam quase certa a presença de X enquanto os critérios a tornam necessariamente quase certa, e essa restrição da certeza é forçada pela pergunta sobre se não seria possível que, dados todos os sintomas ou critérios, o homem não estivesse de fato sentindo dor, pergunta à qual a resposta parece irresistivelmente afirmativa, seja a base uma mancha vermelha na face, seja um conjunto de gestos, gemidos e sudorese.

7. A diferença entre essas bases não se registra adequadamente pela oposição entre quase certeza e quase certeza necessária, pois em ambos os casos pode-se estar errado, mas sobre coisas distintas, já que no caso do sintoma o erro consistiu em tomá-lo por confiável, ao passo que no caso dos critérios, para acomodar e até para enunciar o fato de que a pessoa não sentia dor, é preciso dizer algo como que ela fingia, ensaiava um papel ou estava hipnotizada, e esse ter de dizer indica o sentido de uma necessidade não vinculada ao conceito de certeza.

8. Explicar a falha de sintomas e critérios dizendo de ambos que fornecem no máximo quase certeza esbarra numa dificuldade, pois no caso dos sintomas a ausência de concomitância significa simplesmente que os critérios da dor não se apresentam, enquanto no caso dos critérios presentes a expressão não sempre acompanhados muda de peso, já que aquilo que poderia faltar seria a própria dor, que antes não era o acompanhamento dos sintomas, e a certeza que Malcolm atribui aos critérios, dependente de não se considerarem todas as possibilidades, já não é propriamente certeza.

9. A exposição de Malcolm justapõe a tese de que, satisfeito o critério da dor, sua existência fica estabelecida além de qualquer dúvida e a concessão de que algo poderia mostrar que um homem em violento comportamento de dor não sente dor, e a tentativa de dissolver essa contradição alegando que, nesse caso, o critério não estava satisfeito é vazia, pois preserva a certeza da conexão entre critério e aquilo de que é critério ao preço de nunca se saber com certeza se o critério está satisfeito, abrindo entre a presença aparente e a satisfação do critério uma fenda por onde escoa toda necessidade lógica e tornando a conexão analítica e, por isso, empiricamente vazia.

10. Wittgenstein não recorre a nenhuma noção como a de satisfação de um critério, o que obriga a reabrir tanto a questão de como acomodar o fato de que se pode sempre errar numa afirmação empírica baseada em critérios quanto a questão de quais são os objetos dos critérios.

11. Sob a pressão da ideia de que as proposições que descrevem os critérios da dor não implicam logicamente que alguém sente dor, Malcolm afirma que a expressão da dor só é critério em certas circunstâncias, excluindo aquelas em que alguém ensaia uma peça, está sob sugestão hipnótica ou participa de uma farsa, ao passo que Wittgenstein, ao usar repetidamente essa expressão, tem em vista as famílias de casos de derivar, ler, pretender pintar um retrato ou tentar copiar uma elipse, nunca circunstâncias como fingir ou ensaiar.

12. Formulado à maneira de Wittgenstein, gemer é critério de dor apenas em certas circunstâncias, sendo as circunstâncias em que não o é aquelas em que o gemido não exprime dor, como quando alguém pigarreia, chama seus hamsters ou reage a uma piada ruim com um comportamento de dor zombeteiro e não fingido, circunstâncias que só se aprendem ao aprender a falar, isto é, ao aprender o que as coisas são e o que as pessoas fazem.

13. Chamar um comportamento de comportamento de dor já inclui as circunstâncias em que ele o é, de modo que a ressalva de Malcolm não explica por que critérios de dor por vezes não seriam de dor real, pois não há falha a explicar, os critérios da dor sendo satisfeitos pela presença do que se toma como comportamento de dor, sem critérios para a existência da própria dor que vão essencialmente além deles, o que transforma a pergunta sobre como se pode saber se outro realmente sofre na pergunta, agora não retórica, sobre o que leva a pensar que talvez nunca se saiba, isto é, na investigação da fonte da decepção com o conhecimento humano enquanto tal.

14. A decepção com os limites do conhecimento tem sido motivo tão profundo para a filosofia quanto o espanto diante de seus êxitos, e em Wittgenstein, como no ceticismo, ela parece dominar todo o assunto, embora sua obra pareça ao mesmo tempo afirmar que nada há de errado com a capacidade humana de conhecer, oscilação entre humildade e arrogância que não é pose, mas esforço contínuo de equilíbrio entre desespero e esperança, de modo que a publicidade da linguagem não é seu ponto de partida indubitável, mas sua meta, como a sanidade para quem dela carece.

15. Se o gemido não era, naquelas circunstâncias, critério de dor, a dor não está em questão, mas se o era, a dor permanece em questão e só certas eventualidades contam como a pessoa não estar com dor, a saber, fingimento, ensaio ou farsa, nas quais o que se finge ou simula é precisamente dor, de modo que o conceito é conservado e os critérios de sua aplicação foram satisfeitos, o que mostra que os critérios não dizem respeito à existência de uma coisa, mas a algo como sua identidade, determinando não a certeza dos enunciados, mas a aplicação dos conceitos neles empregados.

16. O apelo de Wittgenstein aos critérios, embora retire sua importância do problema do ceticismo, não é nem pretende ser uma refutação dele, pois em vez de negar a tese de que não se conhece com certeza a existência do mundo exterior ou das outras mentes, toma-a como inegável e desloca seu peso, passando ela a significar que a relação com o mundo como um todo e com os outros em geral não é uma relação de conhecimento entendido como certeza, restando explicar por que o cético toma essa descoberta como um fato extraordinário e como uma tese, o que exigirá examinar sua passagem de que às vezes não sabemos para a conclusão de que nunca sabemos.

17. O que importa sobretudo é que a descoberta aparente do cético repudia a validade dos critérios, isto é, a afinação mútua, e que precisamente essa seja sua consequência revela tanto o que é o ceticismo quanto o que é um critério wittgensteiniano.

18. O ceticismo abrange não apenas os filósofos que acabam negando que se possa conhecer, mas toda concepção que faz da existência do mundo um problema de conhecimento, sendo decisiva a passagem em que se conclui que não se sabe com base apenas nos sentidos ou no comportamento e se pergunta então como se sabe, ponto em que as filosofias se dividem em fenomenalismo, realismo crítico e outras, perspectiva na qual ceticismo e dogmatismo se fazem à imagem um do outro e que contribui para o ar de humildade e arrogância do estilo de Wittgenstein, inseparável de seu ensinamento.

19. Com relação às outras mentes, a resposta preferida ao ceticismo, o argumento por analogia segundo o qual, correlacionando o próprio comportamento à própria senciência e notando a semelhança dos corpos e comportamentos alheios, se infere que os outros sentem algo exatamente semelhante, é ela mesma uma expressão de ceticismo, pois só parece fazer sentido com base em ideias de comportamento e de senciência inventadas e sustentadas pelo próprio ceticismo.

20. A pretensão cética será perseguida até mostrar por que o ensinamento de Wittgenstein é inteiramente controlado por uma resposta ao ceticismo e por que os critérios precisam estar expostos à negação cética, pois se partilhar critérios é a condição do pensamento e da comunicação, o ceticismo é uma possibilidade natural dessa condição que revela a ameaça permanente de que eles sejam apenas humanos, perdendo-se o impulso de Wittgenstein tanto quando não se está suficientemente aberto ao cético em si mesmo, como Malcolm, quanto quando se lhe atribui a negação da verdade do ceticismo, como Albritton.

21. A caracterização de Strawson, segundo a qual o cético finge aceitar um esquema conceitual enquanto rejeita silenciosamente uma das condições de seu emprego, poderá ser examinada mais tarde quanto à justificação dos termos fingir, ao mesmo tempo e silenciosamente, que não são meramente literários, pois o verdadeiro drama da posição está em que o cético possui o único esquema conceitual vivido e, na resolução e intensidade de sua meditação, descobre que deve abandonar, com gemidos de terror delirante, a base de seu emprego, o que leva a perguntar o que significa possuir um conceito e que papel têm nisso aceitar e rejeitar.

22. Pode parecer que se concedeu não apenas a verdade do ceticismo, de que a relação com o mundo não é de conhecimento, mas também sua tese, de que não se pode conhecer a existência dos objetos, estabelecendo-se no máximo que dor conserva um significado constante quando aplicado aos outros, mas admitindo-se que nunca se pode ter certeza de que alguém sente dor numa dada ocasião.

23. O que se afirmou foi apenas que não há critério para alguém estar com dor agora além dos critérios para que seu comportamento, incluindo os padrões de sentimento que ele exprime, seja comportamento de dor, o que implica renunciar a frases como isso é o que chamamos estar com dor como prova ou evidência de que alguém sofre e, portanto, a todo apelo a casos paradigmáticos como argumento anticético, já que a força filosófica dos apelos à linguagem ordinária não depende de tais argumentos, ao contrário do que supuseram defensores e críticos dessa filosofia.