Antropologia Filosófica. Ernst Cassirer. Trad. Vicente Felix de Queiroz. Editora Mestre Jou, 1972
DAS REAÇÕES ANIMAIS ÀS RESPOSTAS HUMANAS
1. A definição do homem como animal simbólico precisa ganhar maior precisão, pois, embora o pensamento e a conduta simbólicos sejam traços característicos da vida humana e fundamento de todo o progresso cultural, resta saber se o simbolismo é dote exclusivo do homem ou se remonta a uma fonte mais profunda, já que, sem essa resposta, a origem da linguagem, da arte e da religião permaneceria inexplicada e a cultura pareceria um fato isolado e ininteligível.
2. Os esforços científicos para ligar o simbolismo a fatos mais elementares raramente foram conduzidos com espírito aberto, porque o problema foi desde o início obscurecido por disputas metafísicas entre idealismo e materialismo, espiritualismo e naturalismo, para os quais ele se converteu em questão crucial.
3. Em vez da disputa metafísica, cabe descrever com mais rigor a atitude simbólica humana para distingui-la de outros modos de comportamento simbólico do reino animal, uma vez que os experimentos de Pavlov com estímulos representativos e os de Wolfe com macacos antropoides, que aprendiam a responder a sinais substitutivos do alimento como ao próprio alimento, comprovam que os animais são capazes de reações indiretas.
4. Os processos simbólicos nos chimpanzés, embora raros e difíceis de observar, tendem a ser reconhecidos como antecedentes dos processos simbólicos humanos, num momento de pesquisa em que descobertas importantes parecem iminentes.
5. Como a interpretação dos fatos experimentais depende de conceitos fundamentais previamente esclarecidos, a questão da chamada linguagem animal exige um ponto de partida lógico, isto é, uma determinação conceitual da linguagem que distinga suas camadas, a mais básica sendo a linguagem emotiva, abundante em analogias no mundo animal, e a mais elevada a linguagem dotada de estrutura sintática e lógica, que contém signos com referência objetiva ou sentido, ausentes nos gestos e sons dos chimpanzés.
6. Todo o jogo fonético e gestual dos chimpanzés é inteiramente subjetivo, capaz de exprimir emoções mas jamais de designar ou descrever objetos, e essa carência não pode ser atribuída a limitações secundárias dos órgãos vocais, já que eles possuem muitos elementos fonéticos comuns à linguagem humana.
7. A diferença entre linguagem proposicional e linguagem emotiva constitui a verdadeira fronteira entre o mundo humano e o animal, pois nenhum animal deu o passo do subjetivo ao objetivo, e os processos sígnicos dos antropoides, ainda que admitidos pela evolução emergente, permanecem pré-linguísticos e num beco sem saída, o que obriga a distinguir sinais, que são operadores pertencentes ao mundo físico do ser, de símbolos, que são designadores pertencentes ao mundo humano do sentido, distinção indispensável também para enfrentar a ambígua questão da inteligência animal, que alguns reduzem a mero automatismo.
8. O animal não pensa que uma coisa é igual a outra nem as confunde, pois simplesmente não pensa sobre elas, e a ideia de que reage a impressões sensíveis definidas e conscientes, associando-as por semelhança, não passa de um mito.
9. Observações mais exatas mostraram que os animais superiores resolvem problemas difíceis não por mero acaso, mas guiados por uma visão da situação, fazendo rodeios, usando e até inventando instrumentos, de modo que lhes cabe uma inteligência e uma imaginação práticas, enquanto apenas o homem desenvolveu uma inteligência e uma imaginação simbólicas.
10. A passagem da atitude meramente prática à atitude simbólica, resultado de um processo lento e contínuo no desenvolvimento individual e difícil de observar pelos métodos usuais, encontra uma ilustração privilegiada no experimento realizado pela própria natureza nos casos de Laura Bridgman e Helen Keller, crianças cegas e surdas-mudas que aprenderam a falar por métodos especiais.
11. Helen Keller deu o grande passo de sua educação no instante em que, ao sentir a água fria correr sobre a mão enquanto a palavra era soletrada nela, compreendeu que cada coisa tem um nome, passando então a pedir avidamente o nome de todos os objetos, a abandonar os sinais e pantomimas anteriores e a mostrar um rosto cada dia mais expressivo.
12. O verdadeiro descobrimento de Helen Keller não foi a associação fixa entre coisas e impressões táteis, mas a compreensão súbita de que tudo tem um nome e de que a função simbólica é um princípio de aplicabilidade universal, revolução intelectual que transformou as palavras de sinais mecânicos em instrumento inteiramente novo de pensamento e lhe abriu um horizonte amplo e livre.
13. Também Laura Bridgman, embora inferior a Helen em capacidade e com história menos dramática, alcançou repentinamente, após aprender o alfabeto manual, a compreensão do simbolismo da linguagem humana, passando a exigir que todo objeto tocado tivesse um nome.
14. O princípio do simbolismo, por sua universalidade e validade geral, é o abre-te sésamo que dá acesso ao mundo da cultura, cujo valor deriva não do material sensível que a compõe, mas de sua forma arquitetônica, de modo que, contra o sensualismo, mesmo com os materiais mais pobres, como os signos táteis, o homem pode construir um mundo simbólico incomparavelmente mais rico que o do animal mais desenvolvido.
15. Além da aplicabilidade universal, o símbolo humano caracteriza-se pela variabilidade e mobilidade, já que o mesmo sentido pode ser expresso em diferentes línguas e termos, ao contrário do sinal, ligado à coisa de modo único e fixo, mobilidade que só tardiamente se torna consciente, como mostram o pensamento mítico e a perplexidade infantil, e que se manifesta quando os ruídos emotivos de Laura Bridgman, antes ligados a pessoas concretas, se tornaram nomes que podiam mudar conforme as circunstâncias, como ao exigir um novo nome para a professora que se casara.
16. Os antigos ruídos de Laura deixaram de ser expressões inseparáveis de situações concretas e se tornaram nomes abstratos, pois o novo nome inventado não designava outro indivíduo, mas o mesmo indivíduo numa nova relação.
17. O pensamento relacional depende do pensamento simbólico, pois, embora a percepção de relações e estruturas esteja presente já nos atos perceptivos elementares de homens e animais, como mostrou a psicologia da Gestalt, somente o homem desenvolveu a capacidade de isolar relações e considerá-las em si mesmas, como na geometria, ao passo que as abstrações dos animais superiores, como responder ao objeto maior ou isolar uma cor, permanecem raras, rudimentares e em botão, por carecerem de um sistema de símbolos.
18. A natureza da linguagem foi primeiro compreendida por Herder, que, rejeitando sua origem sobrenatural, a concebeu não como coisa, mas como processo e função geral da psique humana, fundada na reflexão, isto é, na capacidade de destacar da massa fluente dos fenômenos sensíveis certos elementos fixos, isolá-los e concentrar neles a atenção.
19. O homem mostra reflexão quando, do oceano de sensações e do sonho ondulante de imagens, consegue isolar uma onda, deter-se nela, observá-la com clareza e abstrair características que reconhece como distintas, e é nesse traço inicial de consciência, linguagem da alma, que nasce a linguagem humana.
20. A teoria de Herder, mais poética e especulativa que lógica, contém contudo elementos de grande valor, confirmados pela ausência desse traço reflexivo nas abstrações animais e pela psicopatologia da linguagem, que mostra como os afásicos, embora capazes nas tarefas práticas, perdem o pensamento por conceitos e se prendem às situações concretas, evidenciando que sem o simbolismo a vida humana seria como a dos prisioneiros da caverna de Platão, confinada às necessidades biológicas e privada do mundo ideal da religião, da arte, da filosofia e da ciência.