CASSIRER, Ernst. Kants Leben und Lehre. Berlin: Bruno Cassirer, 1918.
Apresentação de Gianna Gigliotti à edição italiana
1. Toda grande obra filosófica deve ser medida segundo suas próprias dimensões, nascidas do encontro entre a personalidade do autor e os grandes problemas que enfrentou, e Vida e doutrina de Kant oferece justamente esse ir ao encontro de um pensador que torna ainda maior o que nele é grande.
2. Fiel à advertência herbartiana de que a história da filosofia é estéril se não serve para fazer nova filosofia, Vida e doutrina de Kant oferece uma visão de conjunto ainda insuperada do kantismo, em que o rigor na leitura dos textos se une à força teórica da interrogação, tornando vã a disputa entre filosofia e história da filosofia.
3. Vida e doutrina de Kant surgiu em 1918 como volume complementar da edição das obras kantianas organizada por Cassirer e outros, na qual Hermann Cohen deveria ter contribuído com um escrito sobre a importância de Kant para a cultura alemã, tarefa que a morte o impediu de cumprir e que Cassirer de certo modo assumiu com Liberdade e Forma, de 1916.
4. Entre Vida e doutrina de Kant e Liberdade e Forma há um vínculo estreito, pois a segunda obra é essencial para compreender por que o centro da filosofia kantiana se desloca, contra a recepção tradicional, da Crítica da razão pura para a Crítica da faculdade de julgar, e por que a razão kantiana perde os traços de mente humana para assumir os de condições de sentido e significado.
5. A fusão da primeira Crítica com os Prolegômenos numa exposição única, embora deixe de lado as diferenças entre os textos, serve à tarefa essencial de mostrar a genialidade de Kant na descoberta de que o a priori pode ser encontrado a posteriori, de modo que a investigação das condições de possibilidade passa a referir-se não ao conhecimento como produto a garantir, mas à experiência como horizonte intranscendível de significado e dado, e a equivalência coheniana entre método transcendental e filosofia torna-se o fio condutor para distinguir os diversos âmbitos dessa experiência multiforme partindo do todo dado da cultura espiritual.
6. O valor eminentemente metódico atribuído à filosofia kantiana permite unir o problema, resolvido em Substância e função, da formação conceitual como determinação de uma norma originária capaz de abarcar a totalidade dos casos singulares, à interpretação das instâncias sistemáticas e metafísicas de Kant como momentos do acordo regulativo entre o fenômeno individual e a forma geral, uma vez que toda formação de conceitos por abstração ou associação pressupõe circularmente o conceito que pretende explicar e todo ser, efetivo ou lógico, é apenas expressão de relações determinadas.
7. Tais pressupostos conduzem a uma leitura que reconduz à máxima unidade as diversas formas da razão, dissolvendo o dualismo entre sensibilidade e entendimento numa diferença de ingredientes no interior de uma síntese sempre já dada, fazendo da correlação entre a priori, empírico e experiência uma composição e não uma gênese, e reduzindo a separação entre juízos analíticos e sintéticos a mera definição nominal, já que o juízo que interessa a Kant é sempre sintético e fixa a validade de relações legais entre fenômenos, não propriedades de coisas permanentes.
8. Os escritos pré-críticos são percorridos como progressiva tomada de consciência de que nenhum ceticismo abala o conceito de experiência porque a validade de seus conceitos se funda na análise de seu conteúdo objetivo, num itinerário apresentado como mais linear do que foi, pois sua compreensão busca a forma interior ou lei estilística do pensamento kantiano, noção que remonta à enteléquia aristotélica e à linguística humboldtiana e que mostra os problemas kantianos brotando uns dos outros como de um núcleo germinal vivo, sempre correlatos a uma imagem global do mundo em que o homem faz experiência da vida.
9. Essa leitura estilística produz um resultado historiográfico preciosíssimo, ao identificar como fio condutor da revolução crítica não a conciliação entre empirismo e racionalismo, mas a substituição do problema do dado pelo problema do objeto, segundo a qual a cada modalidade de juízo corresponde uma forma particular de objeto, de modo que o dualismo entre mundo sensível dado e mundo de significado cede lugar à distinção entre funções cognitivas que fundam objetividade, apreendendo com clareza definitiva a natureza metodológico-transcendental da distinção entre sensibilidade e entendimento, e fazendo da Analítica o ápice da primeira Crítica, onde convergem Cohen, Natorp e Substância e função e emergem os dois polos da experiência como conjunto objetivo conectado e das conexões que a fundam como objeto de investigação justificativa.
10. É nessa investigação justificativa que reside a contribuição mais específica à imagem neokantiana de Kant, e somente situando Vida e doutrina de Kant no conjunto da filosofia cassireriana se atenuam as impressões de medo do objeto e de ênfase excessiva na ciência apontadas por Mario Dal Pra.
11. Embora o melhor modo de captar o conceito central da filosofia kantiana não seja seguir a sequência das três Críticas, a exposição as percorre projetando sobre elas o foco ideal da forma interior desse pensamento, o que explica a pouca atenção à metafísica como ciência e ao númeno, cujo sentido é buscado nas Críticas posteriores, numa interpretação da liberdade das formas kantianas que não as prende sem resíduo à objetividade que historicamente constituem, ponto crucial e talvez irresolvido do pensamento próprio de Cassirer, mas que lhe permite unir magistralmente o surgir dos problemas ao desenvolvimento natural das soluções.
12. Contra a leitura coheniana da ética kantiana centrada nas condições do conhecimento moral, a liberdade é elevada a ponto firme teórico de toda a filosofia kantiana e da cultura alemã, invertendo-se a sequência pela qual o primado da razão prática seria conferido pela razão teórica, e a síntese de liberdade e forma teorizada por Kant e realizada por Goethe, em quem o universal está no particular e a norma só se conhece na mudança, permite ver o ápice da filosofia crítica na Crítica da faculdade de julgar, considerada pela primeira vez uma obra plenamente unitária e decisiva para a cultura alemã.
13. Na construção da ética crítica, a importância de Rousseau, ligada ao otimismo obrigatório da vontade e da razão e à recusa da resignação, cede lugar ao aprofundamento da distinção entre transcendental e a priori, pela qual, assim como antes se separou a gênese da validade do conhecimento, agora se separa a conduta moral do juízo moral, tomando a Fundamentação e a Crítica da razão prática como textos de igual valor e concentrando-se na possibilidade mesma da ética, que consiste em instituir um nexo legal de acordo interno entre as determinações da vontade, de modo que à possibilidade da experiência, realizada pelas categorias, se junta a possibilidade da história, realizada pela liberdade, e em ambos os casos o momento singular só se define em relação ao contexto geral.
14. A partir da síntese entre liberdade e forma, segundo a qual o limite do conhecimento não é limite da certeza, a Crítica da faculdade de julgar é lida de modo que a distinção entre princípio constitutivo e regulativo, corretamente apresentada, admite a interpretação de que o constitutivo só se realiza plenamente ao articular-se e individualizar-se nas diferentes regras de aplicação, pois o caráter crítico do apriorismo kantiano consiste em nunca reconduzir o a priori a uma faculdade metafísica única, mantendo a separação de suas aplicações específicas no pressuposto da experiência pensável como todo conectado por princípios.
15. Essa interpretação desenvolve de modo mais completo a instância sistemática da leitura marburguesa do transcendental, pois integrar a crítica da razão com a crítica da cultura não é afastar-se de Kant, mas interpretar a nova forma de juízo que ocupa o centro da terceira Crítica, onde a relação entre universal e particular é resolvida por uma mudança na posição sistemática dos conceitos críticos, fundada na superação kantiana de toda suposição de algo dado antes da experiência, que faz da coisa em si não um resíduo material, mas o significado constitutivo e não criador da forma, e da harmonia teleológica a valoração que prepara o conhecimento, num procedimento de articulação por graus e estratos da mediação entre particular e universal que antecipa os acentos fenomenológicos da póstuma Metafísica das formas simbólicas.
16. O conceito em que culmina a filosofia cassireriana, o de símbolo ou forma simbólica, é sempre de algum modo formal e implica uma suspensão da experiência.
17. Já em 1910 o subjetivo aparecia não como ponto de partida a partir do qual se construiria o mundo dos objetos, mas como resultado de uma análise que pressupõe a experiência e suas relações regulares, e, ao assumir a experiência em toda a sua fisionomia estratificada no confronto com a obra kantiana inteira, revela-se que a análise transcendental lida com diversas sínteses, nenhuma das quais ocupa a totalidade da experiência, de modo que os princípios regulativos da terceira Crítica não ligam conteúdos já constituídos, mas articulam internamente a reflexão sobre os princípios transcendentais como condições dos a priori, já que só se compreende uma multiplicidade particular na medida em que é vista brotar de um princípio que especifica a si mesmo.
18. Ao mostrar que a preocupação de Kant não é fixar rigidamente o imutável na razão, mas tornar compreensível o devir da experiência, configura-se uma imagem da filosofia kantiana como arquitetura que responde a um projeto unitário e preciso, aberta a aprofundamentos, e ao mesmo tempo o caminho próprio rumo a uma filosofia da cultura como único espelho em que podemos conhecer a nós mesmos.
19. Apesar de quase um século de avanços filológicos e filosóficos na pesquisa kantiana, vale para Vida e doutrina de Kant o que Kant dizia da lógica de Aristóteles: em relação a ela não foi preciso dar nenhum passo atrás.