CASSIRER, Ernst. Kants Leben und Lehre. Berlin: Bruno Cassirer, 1918.
A ESTRUTURA E OS PROBLEMAS FUNDAMENTAIS DA CRÍTICA DA RAZÃO PURA
I.
1. A Crítica da razão pura manifesta uma mudança de estilo mais profunda que qualquer outra na história da filosofia, pois o livre movimento da fantasia e do espírito dos escritos anteriores cede lugar ao rigor da análise conceitual abstrata e a uma pesada seriedade acadêmica, que, apesar de lampejos de intuição e de força expressiva, parece aprisionar o pensamento, escolha deliberada de Kant, que preferiu o método escolástico para não conquistar o leitor senão pela força da pura visão teórica.
2. Kant não renunciou facilmente à clareza popular, tendo meditado longamente sobre como dar aos pensamentos filosóficos uma forma acessível sem prejuízo de seu rigor e buscado nos primeiros esboços também a clareza intuitiva mediante exemplos, mas acabou abandonando esse intento por compreender que os recursos de clareza servem às partes e prejudicam o todo, ocultando a articulação e a estrutura do sistema, que é o que mais importa.
3. A razão mais profunda da mudança de estilo está em que Kant sustenta agora um tipo de pensamento inteiramente novo, que utiliza a terminologia e as divisões escolásticas de sua época para fins completamente diversos, o que gerou múltiplos mal-entendidos, sobretudo porque, sob a aparência de um sistema pronto, os conceitos não são substratos imóveis fixados de início, mas se desenvolvem e se determinam no próprio movimento do pensamento, de modo que tomar sua primeira definição como definitiva conduz necessariamente a interpretações errôneas.
4. Nas aulas de Kant, a exposição era uma efusão sempre repensada do espírito, em que ele avançava como se começasse a refletir sobre o objeto, acrescentando aos poucos novos conceitos e aperfeiçoando explicações até chegar à determinação completa, introduzindo assim os ouvintes no pensar metódico, ao passo que quem tomava a primeira explicação como definitiva colhia apenas meias verdades.
5. A sorte dos ouvintes de Kant repetiu-se em muitos comentadores, pois quem toma os conceitos iniciais da Crítica, como juízo analítico e sintético, experiência, a priori e transcendental, como moedas de valor fixo perde o fio da obra, cujas investigações são continuamente retomadas e transformadas num processo vivo de pensamento, razão pela qual, ao contrário do método sintético de Kant, que vai das partes ao todo, convém partir da ideia do todo para fixar o sentido das partes e mostrar a estrutura geral que o próprio Kant considerava o critério decisivo da unidade e da beleza de sua doutrina.
II.
1. A metafísica, embora pretenda ser a instância suprema sobre o ser e a verdade, não alcançou nenhuma norma de certeza e parece impossível como ciência, mas permanece necessária como disposição natural, pois nem o dogmatismo nem o ceticismo resolvem suas questões, colocando a razão num ponto em que é tão impossível satisfazer suas exigências quanto abandoná-las.
2. Matemáticos, homens de espírito e filósofos da natureza que zombam da metafísica não podem escapar às perguntas sobre a própria origem e a do todo, que os lançam inevitavelmente em seu campo, e é nessa escuridão que a crítica da razão pura acende a tocha, não para iluminar regiões além do mundo sensível, mas o espaço obscuro do próprio entendimento.
3. Não é o objeto da metafísica que deve ser reexaminado, mas a própria pergunta metafísica, que cumpre compreender mais profundamente a partir de suas origens no entendimento.
4. A metafísica antiga, tanto empirista quanto racionalista, era ontologia que partia de convicções sobre o ser e de uma realidade das coisas a ser copiada pela mente, ao passo que a nova exigência substitui o soberbo nome de ontologia pelo de simples analítica do entendimento puro, que começa por perguntar o que significa a questão do ser, de modo que a objetividade deixa de ser um dado inicial para tornar-se uma pergunta originária da razão cujo sentido é preciso esclarecer.
5. A carta a Herz de 1772 já apontava como chave da metafísica a questão do fundamento da relação entre representação e objeto, que as teorias anteriores resolviam pela mera receptividade ou por um Deus ex machina, mas, uma vez compreendido que se trata de uma questão lógica e não metafísica, vê-se que a objetividade é atribuída a uma conexão de conteúdos considerada necessária e universalmente válida, de modo que não são as coisas que fundam nossos conhecimentos certos, mas a segurança desses conhecimentos que se exprime na afirmação de um ser, de um mundo e de uma natureza.
6. O objeto correspondente ao conhecimento só pode ser pensado como algo em geral = x, pois fora da experiência nada há que se lhe possa contrapor, e a necessidade que se pensa na relação entre conhecimento e objeto consiste em que os conhecimentos concordem entre si numa unidade, de modo que se conhece o objeto quando se produz no múltiplo da intuição uma unidade sintética segundo uma regra, como no triângulo pensado como união de três retas.
7. A necessidade do juízo não provém da unidade de um objeto situado além do conhecimento, mas constitui ela mesma o único sentido apreensível do conceito de objeto, de modo que existe para nós uma ordem de objetos, e não apenas de impressões, porque há juízos incondicionalmente certos, cuja validade independe do conteúdo empírico singular e das condições temporais em que são proferidos.
8. O ponto de partida da doutrina kantiana e seu contraste com toda formulação anterior dos problemas metafísicos encontram expressão na célebre imagem que compara a revolução do modo de pensar à empresa de Copérnico.
9. Como todas as tentativas de estabelecer algo a priori sobre os objetos supondo que o conhecimento se regule por eles fracassaram, cabe experimentar a hipótese de que os objetos se regulem pelo conhecimento, à semelhança de Copérnico, que, não conseguindo explicar os movimentos celestes fazendo os astros girarem em torno do espectador, fez girar o observador.
10. A rotação do observador consiste em percorrer a totalidade das funções cognitivas da razão, apreendendo cada uma em seu modo de validade necessário e delimitado, compreendendo o espaço a partir das leis da construção geométrica, o número a partir do procedimento que o gera desde a unidade e a natureza a partir da função cognitiva empírica, e reconhecendo ainda exigências objetivas de validade, como as do juízo ético e estético, que não se exprimem na forma da existência, de modo que a variedade dos objetos remete à variedade das direções fundamentais da própria razão, que deve começar pela reflexão sobre si mesma antes de refletir sobre os objetos.
11. Da virada copernicana decorre a explicação dos conceitos kantianos de subjetividade e de transcendental, definíveis apenas um pelo outro, pois transcendental é o conhecimento que se ocupa não dos objetos, mas do modo de conhecê-los enquanto possível a priori, e subjetividade significa partir não do objeto, mas de uma legalidade específica do conhecimento à qual se reconduz uma forma determinada de objetividade teórica, ética ou estética, sentido em que o subjetivo exprime o fundar-se num procedimento necessário e numa lei universal da razão, e não o individual, o arbitrário ou a organização psicofísica.
12. Nas reflexões e anotações de Kant, a nova relação dos conceitos aparece com nitidez ainda maior, pois a metafísica, inicialmente dita capaz de descobertas quanto ao sujeito e não ao objeto, é definida com mais rigor como tratando não de objetos, mas de conhecimentos, e a subjetividade que lhe cabe não é a da natureza humana de Locke e Hume, mas a que se exprime nas ciências, de modo que toda ciência racional tem sua metafísica, entendida como ciência dos princípios de todo conhecimento a priori, em contraste com os teoremas que constituem o lado objetivo das ciências.
13. A filosofia transcendental só alcança cada forma de objetividade pela mediação de uma forma determinada de conhecimento, operando sempre sobre um material já formado e renunciando à pergunta pelo que a realidade seja em si, de modo que a metafísica deve ser metafísica das ciências, dos costumes, do direito, da religião e da história, remetida ao todo dado da cultura espiritual para elucidar sua estrutura e suas normas, sendo o entendimento a ser iluminado não a faculdade psíquica humana, mas a totalidade da cultura, e o novo objeto da filosofia o cosmo das forças produtivas do espírito e de sua articulação.
14. Na estrutura da matemática, o que importa é o procedimento em virtude do qual toda posição particular no espaço e toda operação de contar e medir permanecem ligadas a condições universais, pois a demonstração geométrica parte de uma intuição singular mas vale para uma totalidade infinita de figuras, e esse direito de passar do singular ao universal a geometria o deve a uma revolução do modo de pensar análoga à da filosofia transcendental, que a elevou de arte prática de medição a conhecimento teórico.
15. A revolução que fundou a geometria, mais importante que a descoberta da rota do Cabo, ocorreu quando o primeiro a demonstrar o triângulo isósceles compreendeu que não devia seguir passo a passo o que via na figura nem prender-se a seu simples conceito, mas produzi-la por construção a partir do que ele mesmo pensava, atribuindo-lhe apenas o que decorria necessariamente do que nela havia posto.
16. A totalidade dos casos geométricos não existe antes da construção, mas nasce no próprio ato de construir, de modo que o conceito construtivo precede os casos singulares e vale como autêntico a priori, termo que não designa sucessão temporal num sujeito psicológico, mas uma relação na própria coisa conhecida, pela qual o singular só é pensável mediante a determinação do universal, confirmando o princípio de que só conhecemos a priori das coisas aquilo que nós mesmos nelas pomos.
17. Aos conceitos de subjetivo e transcendental junta-se o de síntese a priori, que se esclarece em contraste com a formação empírica de conceitos, na qual, sobretudo nas ciências descritivas e classificatórias, alinham-se casos particulares em busca de um traço comum que só pode ser verificado depois de percorridos, resultando num simples agregado de elementos independentes.
18. A lógica formal, embora em seus juízos universais a totalidade preceda os casos particulares, limita-se a desenvolver as formas da demonstração sem indagar o fundamento de validade das premissas, decompondo analiticamente conceitos que antes compôs, sem produzir nova informação nem perguntar de que fonte provêm os conceitos que tem dos objetos.
19. Diferentemente do agregado empírico e da decomposição lógica, a síntese a priori parte de um nexo construtivo do qual se origina uma infinidade de elementos particulares condicionados por sua forma universal, como as seções cônicas ou o sistema dos números naturais, relação que a Dissertação já chamava de intuição pura, de modo que todo juízo sintético teórico só é possível referindo o conceito a uma intuição, e espaço e tempo são o modelo dessa relação entre infinito e finito, já que pontos, instantes e figuras não os compõem, mas só se põem por limitação de um espaço e de um tempo únicos entendidos como atos construtivos da intuição.
20. A explicação da síntese a priori na matemática parece impedir sua extensão aos objetos empíricos, pois estes parecem caracterizar-se justamente por existir em sua particularidade antes de qualquer posição do pensamento, determinando o representar sem por ele serem determinados, de modo que todo enunciado universal sobre eles pareceria possível apenas pela soma das impressões recebidas.
21. O idealismo transcendental não pretende anular a natureza própria do conhecimento empírico, mas também aqui deve partir da análise do conhecimento, e a concepção tradicional, que explicaria separadamente uma matemática pura e uma empiria pura, torna inexplicável o entrelaçamento característico da ciência matemática da natureza, em que medição e observação, teoria e experimento se condicionam reciprocamente.
22. Quando Galileu fez rolar esferas num plano inclinado, Torricelli fez o ar sustentar um peso conhecido e Stahl transformou metais em cal e de novo em metal, os investigadores compreenderam que a razão só vê o que ela mesma produz segundo seu plano, devendo apresentar-se à natureza com princípios numa mão e o experimento na outra, não como aluno, mas como juiz que obriga as testemunhas a responder, revolução de método que pôs a física no caminho seguro da ciência.
23. O plano da razão é o que torna possível o experimento, pois para que de impressões isoladas surjam fatos físicos é preciso converter a multiplicidade qualitativa das percepções numa multiplicidade quantitativa referida a um sistema de grandezas mensuráveis, como mostra o conceito de aceleração que precedeu as medições de Galileu, de modo que a teoria científica da natureza não é um híbrido eclético, mas um método unitário cuja compreensão supera a unilateralidade tanto do racionalismo quanto do empirismo.
24. Também para a natureza há uma totalidade que precede e torna possível a observação do particular, desde que a natureza seja entendida não como soma de coisas, mas como existência das coisas determinada por leis universais, de modo que a questão se desloca dos objetos empíricos para a função da experiência, cujos pressupostos de determinação quantitativa, de constância e de sucessão regular são condições de todo experimento, fazendo das leis particulares especificações dos princípios universais do entendimento, que, por isso, é a fonte da unidade formal e da legalidade da natureza.
25. Estabelece-se assim a segunda direção da síntese a priori, a dos conceitos puros do entendimento ou categorias, que não descrevem nem classificam o dado, mas fundam a unidade sistemática do modo de conhecimento da experiência, pois para que da percepção nasça a experiência é preciso subsumir a intuição a um conceito puro que confira validade universal aos juízos empíricos, condição da qual não se eximem nem os juízos matemáticos, que pressupõem o conceito de grandeza, nem as determinações dinâmicas, que pressupõem uma dependência funcional.
26. Embora os exemplos mostrem a cooperação das duas formas de síntese a priori, falta ainda um princípio para desenvolver plenamente sua sistemática e garantir sua completude, exigência já presente na carta a Herz, que pretendia reduzir os conceitos da razão pura a categorias divididas segundo leis fundamentais do entendimento, e não justapostas acidentalmente como em Aristóteles.
27. A possibilidade da experiência é o que confere realidade objetiva a todos os conhecimentos a priori, pois a experiência repousa na unidade sintética dos fenômenos segundo conceitos, sem a qual seria uma rapsódia de percepções, e fora dessa relação não há proposições sintéticas a priori, de modo que as condições da possibilidade da experiência em geral são ao mesmo tempo condições da possibilidade dos objetos da experiência.
28. Nessas proposições revela-se toda a estrutura interna da Crítica, que parte da experiência entendida não como soma de coisas nem como rapsódia de percepções, mas como necessidade de conexão segundo leis objetivas, substituindo o conceito sensualista de experiência pelo da empiria matemática de Galileu, e operando a revolução pela qual a necessidade não se transmite dos objetos ao conhecimento, mas o próprio pensamento do objeto se inscreve numa necessidade originária do conhecimento, de modo que as condições da experiência como função são também condições de tudo o que dela resulta.
III.
1. A classificação sistemática dos conceitos puros do entendimento parece obedecer menos à necessidade objetiva da coisa que ao gosto pessoal de Kant pela construção arquitetônica, pelo paralelismo e pelo esquematismo, donde a crítica frequente de que a tábua das categorias, dividida em quantidade, qualidade, relação e modalidade, cada uma com uma tríade cujo terceiro termo concilia os dois primeiros, teria sido copiada artificialmente da tábua lógica dos juízos.
2. A polêmica contra a relação entre categoria e juízo perde de vista que o juízo é o correlato natural do objeto, pois exprime a conexão a que se reduz o conceito de objeto, e que a abstração da lógica formal é apenas relativa, já que toda análise pressupõe uma síntese prévia, de modo que a mesma função que dá unidade às representações num juízo confere unidade sintética ao múltiplo da intuição, servindo a lógica geral de fio condutor não para fundar os conceitos transcendentais nos formais, mas estes naqueles.
3. Aristóteles reuniu dez conceitos elementares puros como categorias, a que acrescentou cinco pós-predicamentos, numa rapsódia útil apenas como indicação, ao passo que Kant, após separar os conceitos puros da sensibilidade dos do entendimento, buscou uma operação do entendimento que contivesse todas as outras e a encontrou no julgar, cujas funções, referidas aos objetos em geral, forneceram os conceitos puros do entendimento em seu número exato.
4. A dedução das categorias corresponde à tendência fundamental do pensamento kantiano, que, onde Aristóteles fixara elementos do conhecimento partindo de propriedades do ser, busca o princípio desses elementos remontando ao juízo como unidade da operação lógica pela qual o conteúdo representativo adquire constância, necessidade e validade objetiva.
5. O significado de cada categoria só se revela plenamente em sua função na construção da experiência, que emerge quando os conceitos puros se convertem em princípios do entendimento puro ao se compenetrarem com a forma da intuição pura, pois o entendimento não encontra pronta a ligação do múltiplo no espaço e no tempo, mas a produz, e a determinação de objetos físicos exige atribuir-lhes um lugar no espaço e no tempo mediante regras e relações dinâmicas, tarefa do sistema dos princípios sintéticos, que procede do simples ao composto.
6. O primeiro princípio determina o objeto, enquanto intuído no espaço e no tempo, como grandeza extensiva, não porque a quantidade seja propriedade ontológica das coisas, mas porque a síntese que gera o conceito de grandeza é a mesma que torna a multiplicidade das percepções um ordenamento de objetos, o que resolve de um só golpe o problema da aplicação dos conceitos matemáticos à natureza, pois a mesma síntese figurativa que constrói o triângulo na imaginação opera na apreensão do fenômeno, e a grandeza deve ser entendida como princípio e não como propriedade.
7. O segundo princípio, das antecipações da percepção, parece paradoxal por pretender antecipar o conteúdo dado apenas na sensação, mas toda qualidade física, como velocidade, temperatura ou potencial, possui uma grandeza intensiva ou grau, presente indivisa num ponto e comparável a outras, e pressupõe-se que a passagem de um grau a outro seja contínua, princípio que não deriva da observação, sempre finita, mas é condição para referir a mudança a um mesmo objeto, submetendo a natureza às condições da análise do infinito como matemática das grandezas intensivas.
8. Em todos os fenômenos o real objeto da sensação tem uma grandeza intensiva, um grau, pois os intervalos vazios do espaço e do tempo seriam indistinguíveis em sua homogeneidade, e só preenchidos por um conteúdo com diferenças de mais e menos tornam-se distinguíveis, enquanto a sensação isolada preenche apenas um instante indivisível.
9. Como a apreensão da sensação não é uma síntese sucessiva das partes ao todo, ela não tem grandeza extensiva, e, entre a realidade no fenômeno e sua negação igual a zero, há uma cadeia contínua de sensações intermediárias possíveis, de modo que o real no fenômeno tem sempre uma grandeza, mas intensiva.
10. Embora as sensações sejam dadas apenas a posteriori, sua propriedade de ter um grau que varia continuamente pode ser conhecida a priori, sendo a continuidade a única qualidade cognoscível a priori nas grandezas e o grau a única coisa cognoscível a priori nas qualidades, de modo que também o conceito de grau não designa uma propriedade das coisas, mas uma condição constitutiva da posição e distinção de objetos empíricos.
11. O verdadeiro conceito de natureza exige não objetos isolados, mas a conexão universal dos fenômenos, expressa nas analogias da experiência, que fixam as relações recíprocas dos fenômenos no espaço e no tempo, não pela referência a um espaço e um tempo absolutos, cujos momentos não são cognoscíveis imediatamente, mas pela forma de ação admitida entre as coisas, como mostra a construção do cosmo segundo a lei da gravitação, que separa no espaço e no tempo o que a percepção une e une o que ela separa.
12. As três determinações do tempo, permanência, sucessão e simultaneidade, não são dadas imediatamente pelas impressões, mas exigem cada uma uma síntese do entendimento que precede e torna possível a experiência, permitindo juízos universalmente válidos sobre relações temporais, e a primeira analogia mostra que a mudança só é constatável em relação a algo permanente nos fenômenos, de modo que a categoria de substância e acidente é condição da unidade do tempo e, embora caiba à observação determinar qual grandeza permanece constante, que alguma permaneça é pressuposto do próprio conceito de natureza.
13. Contra a crítica sensualista de Hume, que reduzia a causalidade à sucessão habitual das representações, o rovesciamento transcendental mostra que não é a regularidade das sensações que produz o conceito de causa, mas a exigência de uma regra aplicada às percepções que permite destacar conexões necessárias e dar um objeto à representação, pois pôr dois fenômenos como causa e efeito significa afirmar que a passagem de um ao outro obedece a uma lei fixa e não ao arbítrio, como no sonho, determinando univocamente a ordem temporal.
14. Se nada precedesse um acontecimento segundo uma regra, toda sucessão seria apenas subjetiva na apreensão e não determinaria qual percepção precede e qual segue no objeto, restando um mero jogo de representações, de modo que só se atribui sucessão ao objeto quando uma regra obriga a observar uma ordem e não outra, sendo essa obrigação o que torna possível a ideia de sucessão no objeto.
15. O problema de Hume resolve-se em direção oposta à esperada, pois sua análise pressupunha uma sucessão objetiva e regular das impressões, sem a qual nenhuma associação habitual poderia formar-se, concedendo assim o conteúdo do conceito de causalidade que contestava, e, enquanto o dogmatismo fazia da causalidade um poder das coisas e o ceticismo a substituía pela coerção do mecanismo das representações, o método crítico a funda numa síntese necessária do entendimento que transforma impressões isoladas em experiência.
16. A terceira analogia, da simultaneidade segundo a lei da ação recíproca, afirma que todas as substâncias percebidas como simultâneas no espaço estão em ação recíproca universal, pois a apreensão é apenas sucessiva e a simultaneidade objetiva só se garante por uma relação dinâmica em que cada membro é causa e efeito do outro, permitindo a passagem em ambas as direções, como no sistema de equações derivado da gravitação newtoniana, em que cada massa é função de todas as outras e assim se constrói o todo objetivo do espaço físico.
17. Com a terceira analogia completa-se a determinação do objeto natureza, pois os postulados do pensamento empírico nada acrescentam ao conteúdo do fenômeno, exprimindo apenas sua relação com a faculdade de conhecer, de modo que possível é o que concorda com as condições formais da experiência, real o que se conecta com suas condições materiais e necessário aquilo cuja conexão com o real é determinada segundo condições universais, sendo insuficiente a mera não contradição lógica para a possibilidade, que exige a satisfação de todas as condições essenciais do objeto empírico, inclusive a identidade entre a síntese construtiva da imaginação e a da apreensão.
18. A realidade de uma coisa singular não é dada pelo conceito puro nem pela intuição pura, mas exige a sensação, ou ao menos a conexão com percepções efetivas segundo as analogias da experiência, de modo que algo pode ser real sem ser percebido, como a matéria magnética inferida da limalha de ferro ou os possíveis habitantes da lua, e esse mesmo critério de conexão legal das percepções é o único que distingue a vigília do sonho.
19. O postulado da necessidade não designa necessidade lógica, mas o valor cognitivo de um fato que não é apenas observado, mas derivado de uma lei universal, como as leis de Kepler elevadas à necessidade empírica pela gravitação newtoniana, necessidade apenas hipotética e relativamente a priori, e, enquanto o postulado da realidade vai do particular ao universal na forma da indução física, o da necessidade vai do universal ao particular na forma da dedução, ambos correlatos na constituição da experiência, de modo que os postulados modais definem não a conexão dos objetos, mas a dos métodos empíricos.
IV.
1. A subjetividade de que partia a consideração transcendental foi tomada num sentido exatamente definido e terminologicamente delimitado.
2. Essa subjetividade não significava partir da organização do indivíduo conhecedor nem dos processos psíquicos, mas apenas que a determinação da forma pura de conhecimento deve preceder toda determinação do objeto, de modo que o sujeito em questão é a própria razão em suas funções fundamentais, e só nesse sentido o sistema kantiano é um idealismo, cuja idealidade é a dos princípios supremos da razão.
3. Há, contudo, outro sentido de subjetividade e outras formas de idealismo das quais a nova concepção precisava distinguir-se, tarefa que ocupou longamente Kant em relação ao idealismo cético de Descartes e ao dogmático de Berkeley, e as confusões dos contemporâneos explicam-se porque a Crítica continha tanto uma nova doutrina da consciência quanto uma nova doutrina do objeto, e na dedução subjetiva Kant recorria à linguagem da psicologia de seu tempo, como a de Tetens, dando a impressão de oferecer apenas um fundamento transcendental à psicologia empírica.
4. A primeira Crítica dirige-se tanto contra o idealismo psicológico quanto contra o realismo dogmático, pois, ao contrário de Berkeley, para quem a certeza do eu é o dado originário, o eu não é ponto de partida, mas ponto de chegada, nascendo das mesmas sínteses que convertem a impressão em objeto, de modo que eu e mundo se distinguem num único processo de objetivação, e a unidade do tempo, cujo instante exclui todos os outros, só pode ser pensada se a síntese da apreensão for ao mesmo tempo síntese da reprodução e se o reproduzido for reconhecido como idêntico.
5. Sem a consciência de que o pensado agora é o mesmo pensado antes, toda reprodução seria inútil e o múltiplo jamais formaria um todo, como no contar, em que esquecer a adição sucessiva das unidades impediria conhecer o número, de modo que essa consciência una, ainda que fraca e obscura, é condição indispensável dos conceitos e do conhecimento dos objetos.
6. Somente na síntese da recognição no conceito nasce o eu estável contraposto ao fluxo das impressões, e, contra o sensualismo que o reduzia a um feixe de percepções, o eu revela-se pressuposto para que algo seja percepção, constituindo a apercepção pura o correlato de todas as representações, de modo que autoconsciência e consciência do objeto não são metades independentes da experiência, mas expressões da mesma legalidade fundamental designada pela apercepção transcendental.
7. Quando a unidade transcendental da apercepção deixa de ser pensada como condição e é hipostasiada como coisa existente, surge uma dialética inevitável da própria razão, que a Dialética transcendental, como lógica da aparência, deve desvendar, mostrando que os paralogismos da psicologia racional nascem de converter a função unitária da consciência numa substância simples, indivisível e imperecível, inferindo indevidamente da unidade lógica do eu penso, que acompanha todas as representações, a existência de um substrato metafísico.
8. O primeiro silogismo da psicologia transcendental confunde o sujeito lógico constante do pensamento com o conhecimento do sujeito real da inerência, do qual nada se pode saber, de modo que a proposição de que a alma é substância só é admissível se se reconhece que designa uma substância na ideia e não na realidade, sem autorizar conclusões como a permanência da alma após a morte.
9. A tarefa crítica da Dialética consiste em transformar as determinações metafísicas da substância da alma em determinações gnoseológicas da ideia de alma, de modo que o eu é constante enquanto relação imutável entre conteúdos de consciência, e simples enquanto ato sintético indivisível, sem que daí se possa passar à existência de uma coisa indivisível, sendo a proposição eu sou simples, como o cogito cartesiano, apenas expressão imediata da apercepção e de sua unidade meramente lógica.
10. Na crítica do conceito de mundo, a experiência revela-se não um produto acabado, mas um processo progressivo do qual se determinam as condições e não o fim, já que cada membro de uma série causal remete a outro anterior e cada série a uma trama infinita de nexos, ao passo que o realismo ingênuo e a metafísica dogmática pressupõem o mundo como totalidade previamente dada, pressuposição que, não sendo percepção, deve ser compreendida como uma forma específica de juízo de objetividade.
11. A necessidade de ultrapassar no pensamento o empiricamente dado decorre de que cada função da síntese pura, como a causalidade, vale sem limite, e a razão, faculdade da unidade das regras do entendimento sob princípios, exige a totalidade absoluta das condições e o incondicionado, exigência legítima como diretriz da investigação, mas que se torna transcendente quando representada como coisa existente, gerando antinomias em que se demonstra com igual rigor que o mundo tem e não tem início e limite e que se compõe e não se compõe de partes simples.
12. O fundamento de todas as antinomias está numa contradição interna ao próprio conceito de mundo, que consiste em tratá-lo como substantivo e totalidade acabada, quando o todo da experiência é dado como um devir e uma meta, de modo que sua consistência repousa apenas na regra do progresso, que não define o que é o objeto, mas como deve ser realizado o regresso empírico para alcançar seu conceito completo.
13. Não se pode afirmar que a série das condições seja em si finita ou infinita, pois isso atribuiria realidade objetiva a uma simples ideia da totalidade absoluta, devendo a ideia racional apenas prescrever à síntese regressiva uma regra que a conduza do condicionado ao incondicionado, jamais alcançado na experiência.
14. A ideia da totalidade é regulativa e não constitutiva, prescrevendo o que deve ocorrer no regresso sem antecipar o que é dado no objeto, diferença que afeta apenas a reflexão transcendental e não o uso empírico, pois a existência de um objeto empírico significa apenas a possibilidade de determiná-lo pelos meios do método empírico, e a representação de todos os objetos dos sentidos é o pensamento de uma experiência possível em sua completude absoluta, indispensável como diretriz, mas contraditório quando hipostasiado.
15. Na crítica da teologia racional, a ideia de Deus deve ser mostrada como princípio da experiência possível e não como entidade absoluta, invertendo a concepção metafísica, mantida ainda no escrito pré-crítico sobre a prova da existência de Deus, de um ente necessário fundamento de todo ser e possibilidade, e derrubando a prova ontológica, que infere a existência do conceito do ser perfeitíssimo, pois a existência não é um predicado conceitual, mas um problema do conhecimento resolvido pela cooperação de sensação, intuição e conceito, de modo que cem táleres reais nada contêm a mais em conceito que cem táleres possíveis.
16. Por mais predicados que se pensem numa coisa, dizer que ela é nada lhe acrescenta, pois do contrário não existiria o objeto pensado, mas outro maior, e mesmo no conceito da realidade suprema permanece aberta a questão de sua existência, que exige que seu conhecimento seja possível também a posteriori, no contexto da experiência total.
17. Como só a conexão com o conteúdo da experiência justifica enunciados de realidade, recorre-se às provas cosmológica e físico-teológica, que inferem uma causa incondicionada da série dos condicionados ou uma inteligência suprema da ordem finalística do mundo, mas ambas, além de seus defeitos lógicos, pressupõem a prova ontológica para identificar essa causa com Deus, revelando um círculo e o defeito fundamental de toda metafísica anterior, que não compreende a relação entre experiência e pensamento, turvando a pureza do pensar e falhando em apreender o conceito puro de experiência.
18. O resultado negativo da crítica das provas transforma-se em visão positiva ao traduzir em linguagem transcendental o conceito de Deus como ens realissimum, que reúne todas as perfeições e exclui toda negação, pois, se toda determinação finita é negação, em Deus se pensa o ideal da determinação completa e de um conjunto de toda realidade.
19. O ideal compreende em si todos os predicados, e a determinação completa de cada coisa funda-se na limitação desse todo da realidade, de modo que a razão precisa apenas da ideia, e não da existência, de um ente correspondente, que funciona como protótipo de todas as coisas, suas cópias imperfeitas, sendo a multiplicidade das coisas modos de limitar o conceito da realidade suprema, como as figuras limitam o espaço infinito, donde os nomes de ser originário, ser supremo e ser dos seres.
20. Assim como o espaço que subjaz às figuras não é coisa absoluta, mas forma da intuição, a coisa de todas as coisas pensada em Deus é uma forma de significado regulativo, análogo transcendental do ens realissimum, que exprime o postulado cognitivo de situar cada objeto num sistema total de objetos da experiência possível, totalidade jamais dada mas sempre proposta como tarefa, cuja ilusão dialética surge quando a unidade distributiva do uso empírico do entendimento é convertida na unidade coletiva de um todo e esse ideal é sucessivamente realizado, hipostasiado e personificado, numa sub-repção transcendental que atribui realidade objetiva a uma ideia que serve apenas de regra.
21. Ao término da Dialética e de toda a crítica da razão teórica, o objeto empírico revela-se objeto fenomênico, isto é, objeto de experiência possível mediado pelas formas da intuição e do pensamento puros, e a pergunta pelo objeto independentemente dessas condições não é contraditória, mas resulta no puro nada sinteticamente vazio, pois só se conhece a relação entre entendimento e intuição, e as categorias sem as condições da sensibilidade têm significado transcendental, mas nenhum uso transcendental, de modo que o númeno permanece conceito problemático, útil apenas como conceito-limite para circunscrever a sensibilidade.
22. A Crítica da razão pura não pode ir além da doutrina do númeno em sentido negativo, embora já se anuncie nela a nova direção problemática voltada não ao ser, mas ao dever como verdadeiro incondicionado, relação insuficientemente esclarecida que lançou sobre a doutrina da coisa em si uma obscuridade nefasta para sua compreensão e seu desenvolvimento histórico, cabendo apenas à ética e à estética críticas, sem alterar a teoria do fenômeno, revelar o sentido positivo do númeno e o dado fundamental que justifica a separação entre sensível e inteligível, fenômeno e coisa em si.