CASSIN, Barbara (ed.). Dictionary of Untranslatables. A Philosophical Lexicon. Princeton: Princeton University Press, 2014
O absurdo e a razão
O absurdo é primeiramente caracterizado como aquilo que é contrário à razão enquanto faculdade do espírito
Essa caracterização geral é insuficiente, pois o absurdo não designa apenas uma oposição abstrata à razão
Definir o absurdo exige, assim, a determinação prévia dos critérios do racional
O absurdo não se identifica nem com o falso nem com a simples ausência de bom senso
O absurdo designa uma ruptura mais radical
Trata-se de uma desconexão com os fatos enquanto tais
Essa desconexão rompe o vínculo entre pensamento, linguagem e realidade factual
O absurdo e o sentido
Para além da contradição lógica, o absurdo remete ao problema das regras da linguagem e dos critérios de significação
O acesso ao sentido depende de condições específicas, entre as quais a sintaxe desempenha papel central
Essa possibilidade obriga a distinguir diferentes formas de ausência de sentido
Unsinnig designa o enunciado que, embora formalmente correto, é desprovido de sentido
Sinnlos designa a simples falta de significado, sem sequer a aparência de sentido
Essa distinção é mobilizada na crítica filosófica da linguagem metafísica
A função do absurdo nesse contexto é metodológica
O absurdo não aparece aqui como erro contingente, mas como operador de esclarecimento conceitual
O absurdo e a existência
O absurdo não se limita às dimensões lógica e linguística
O absurdo é então definido como sensação ou afeto
Essa vivência é caracterizada como experiência da estranheza e do mistério do mundo
O conceito de absurdo inscreve-se no vocabulário do existencialismo francês
O absurdo é compreendido como afeto ontológico
Ele se articula com a angústia, o mal-estar e a facticidade
A existência é experimentada como dada, sem garantia de sentido
O absurdo não designa, assim, uma falha cognitiva