2 A tanatose

BRASSIER, Ray. Nihil Unbound: Enlightenment and Extinction. Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2007.

2. A tanatose do esclarecimento

2.1 Mito e esclarecimento — Adorno e Horkheimer

1. O entrelaçamento entre mimetismo, mímesis e sacrifício explica por que o esclarecimento repete a lógica sacrificial do mito ao tentar suprimi-lo e por que a desmitologização só se realiza quando a razão, ao rememorar sua própria história natural, elabora o trauma que a impele a sacrificar e reconhece a natureza que nela atua.

2. A distinção entre mimetismo adaptativo e mímesis como semelhança sem subsunção conceitual torna-se instável quando a razão instrumental imita a morte para evitá-la, pois a assimilação não adaptativa ao espaço torna reversíveis o mimetismo e a mímesis e expõe a própria reflexão à aniquilação tecnológica.

2.2 O sacrifício do sacrifício

1. A razão instrumental prolonga as exigências adaptativas do uso de ferramentas e impõe equivalência ao que é heterogêneo por meio da subsunção conceitual, enquanto o sacrifício mágico estabelece, pela mímesis, uma correspondência sem conceito entre a impotência humana e a potência incomensurável da natureza.

2. A substituição sacrificial antecipa a lógica discursiva ao permitir que uma vítima particular represente o gênero, embora a singularidade sagrada da vítima escolhida a torne insubstituível no próprio ato da troca.

3. O sacrifício mimético estabelece uma reciprocidade entre a impotência dos seres animados e a potência do inanimado, preservando uma distinção cognitiva que o desencantamento científico ameaça apagar ao reduzir tanto os seres vivos quanto os objetos inertes à condição de matéria indiferenciada.

4. O sacrifício mimético opera em três estratos, desde a perda da camada externa que protege o organismo contra estímulos até a troca ritual que amplia a autonomia humana e a renúncia que estabiliza o eu ao subordinar a satisfação presente a fins futuros, processo que se inverte quando a repressão dos desejos converte a autopreservação em fim e destrói aquilo que deveria preservar.

5. O domínio de si que funda o eu ameaça aniquilar o sujeito vivo que deveria preservar, pois a civilização interioriza o sacrifício ao fazer da renúncia uma condição da autopreservação.

6. O esclarecimento sacrifica o próprio sacrifício ao interiorizá-lo, pois o sujeito domina a natureza ao imitar a rigidez do inanimado e reproduz a compulsão mítica ao tratar a ordem vigente como necessária.

7. A imagem mítica e a fórmula científica confirmam a permanência da ordem vigente quando subordinam o novo a esquemas prévios, seja pela repetição ritual de um acontecimento originário, seja pela subsunção matemática do presente.

8. A reflexão filosófica pode recuperar a dimensão temporal daquilo que escapa à identidade conceitual, pois a rememoração da historicidade da razão permite suspender a pretensão de que a ordem vigente esgote a existência e reabrir a possibilidade da esperança.

9. Ao reconhecer em si a natureza que procura dominar, o pensamento pode medir a distância que o separa dela e renunciar à pretensão de domínio pela qual perpetua sua própria sujeição.

10. A autonomia reflexiva da razão depende de reconhecer sua dívida com a natureza e de distinguir, na percepção, a contribuição do sujeito daquilo que o objeto oferece, pois a projeção que prescinde dessa reflexão empobrece o conhecimento e aproxima o pensamento objetivante da projeção patológica do antissemitismo.

2.3 A rememoração reflexiva

1. A oposição entre a mediação reflexiva e a subsunção científica culmina no ideal de uma segunda natureza investida de significado humano, cuja suposta reciprocidade entre mente e mundo exprime o desejo correlacionista de reconciliar conhecimento e valor e de reverter o desencantamento promovido pela ciência.

2. A função redentora da memória encontra no monoteísmo judaico um modelo de reconciliação livre de recaídas míticas, mas a conversão filosófica da proibição das imagens em interdição de todo conhecimento positivo do absoluto acaba por projetar retrospectivamente a experiência qualitativa que a reflexão promete resgatar.

3. A crítica da abstração científica oscila entre a perda de uma experiência significativa da natureza, que exigiria admitir uma compreensão pré-conceitual, e a perda da experiência do significado como natureza, que levaria ao naturalismo redutivo, de modo que a experiência supostamente perdida recebe seu conteúdo da própria reflexão que pretende rememorá-la.

4. A crítica do desencantamento torna-se conservadora ao condenar o presente em nome de um passado reconstruído pela reflexão e antecipar uma reconciliação que exclui a possibilidade de ruptura, enquanto a pluralidade aberta das ciências da natureza deixa lugar para o irreconciliável que a reversibilidade mimética põe em evidência.

2.4 A despossessão pelo espaço

1. O mimetismo biológico excede a adaptação, como mostra o inseto-folha do gênero Phyllium, cuja reprodução tão precisa dos sinais de decomposição das folhas de que se alimenta pode levar indivíduos da mesma espécie a devorarem uns aos outros.

2. O mimetismo tanatrópico exprime uma atração pelo espaço que dissolve a fronteira entre organismo e meio, permitindo aproximar a imitação morfológica dos insetos da despersonalização esquizofrênica descrita por Eugène Minkowski.

3. Na despersonalização por assimilação ao espaço, o indivíduo sente que perde os limites do corpo e passa a experimentar-se como o próprio espaço que o absorve, em um processo análogo ao que o mimetismo realiza na forma de certos animais.

4. A despossessão espacial da razão instrumental dissolve a dimensão temporal que sustenta a rememoração reflexiva e revela uma negatividade não dialética que opera entre os próprios objetos, invertendo a relação cognitiva pela qual o sujeito transcendental se julgava a instância constitutiva do conhecimento.

5. O impulso cognitivo aproxima-se do mimetismo ao suprimir distinções e oferecer à sensibilidade uma imagem apaziguadora do mundo, embora a representação científica em termos de moléculas, átomos e elétrons decomponha a unidade vital do ser.

6. A tanatose do esclarecimento ultrapassa a dissociação que Caillois ainda circunscreve à representação subjetiva, pois objetiva o próprio sujeito, rompe a suposta reciprocidade entre mente e mundo e despossui o sujeito do pensamento.

2.5 A mímesis da morte

1. A civilização sublima o impulso mimético na magia e o reprime pelo trabalho organizado porque a semelhança sem conceito ameaça tanto o domínio do eu quanto a ordem conceitual, mas a compulsão de subsumir e reprimir, nascida do medo da regressão, acaba por imitar o terror orgânico que procura dominar.

2. A sociedade perpetua de forma organizada a ameaça natural que procura controlar, pois a técnica transforma em sequências automáticas os processos mentais e leva ao extremo a adaptação ao inanimado que a magia realizava pela imitação corporal.

3. A reversibilidade entre imitador e imitado, visível tanto na camuflagem defensiva do organismo quanto na apropriação viral dos mecanismos celulares, remete à compulsão de repetição que Freud situa na emergência da vida a partir do inorgânico e culmina na automatização do pensamento, em que o inorgânico imita a razão e a inteligência sintética reinscreve o tempo no espaço.

4. A reinscrição da história no espaço ameaça dissolver a memória que a reflexão dialética procura preservar, pois a consumação do mimetismo tanatrópico na inteligência sintética desfaz a expectativa hegeliana de reconciliação entre espírito e matéria e revela uma inteligência capaz de se desprender de sua forma humana.

5. A descoberta darwiniana permite compreender a reinscrição da história no espaço ao situar a história cultural em escalas evolutivas, geológicas e cosmológicas que transcorrem independentemente da humanidade e põem em questão a reciprocidade entre ser humano e natureza pressuposta pelo naturalismo especulativo de Adorno e Horkheimer.