BRAGUE, Rémi. Aristote et la question du monde. Paris: PUF, 1988.
Introdução
Capítulo I — Um ponto cego do helenismo
Capítulo II — As ambiguidades do Protréptico
Capítulo III — Do eu ao homem
Capítulo IV — Posição do homem
Capítulo V — O animal mundano
Capítulo VI — O lugar
Capítulo VII — A alma e o todo
Capítulo VIII — O mundo entre mim e Deus
Capítulo IX — O ser em ato
Conclusão
1. o objetivo desta obra é descrever o pensamento de Aristóteles a partir de certos traços que parecem caracterizar o centro de seu pensamento filosófico, situando-se esse centro no interior de uma constelação formada por quatro dos domínios ou disciplinas cujos nomes são também títulos de obras do corpus aristotélico: a metafísica, a ética, a psicologia e a física, permanecendo fora do quadro deste estudo, e convocadas apenas marginalmente, a lógica, a biologia, a política, a retórica e a poética.
2. são, contudo, três conceitos que não fazem parte do vocabulário de Aristóteles que fornecerão a estrutura básica a partir da qual se procederá à descrição buscada: os três domínios da ontologia, da antropologia e da cosmologia, não se tratando de tratar o conjunto por eles formado — cada qual exigindo volume próprio — nem tampouco de tratá-los sumariamente por justaposição, pretendendo-se antes mostrar como cada um exerce sobre os outros dois influência que os orienta em certa direção, e como a inflexão assim recebida faz o pensamento de Aristóteles desenhar figura determinada.
3. a mola interna de cada um desses três domínios parece ser um deslizamento no interior de um único e mesmo conceito, o conceito de mundo, não se entendendo por isso o que o próprio Aristóteles compreendia sob os termos kosmos e ouranos, a saber, a totalidade ordenada da realidade formando o universo, mas antes o conceito fenomenológico de “mundo”, que designa aquilo em que estamos — de tal modo que constitui um dos elementos de uma estrutura cuja compreensão implica ao mesmo tempo a do “nós” e a do “somos” — sendo o lugar central do conceito de mundo neste trabalho o que explica seu título.
4. o conceito de mundo, embora não seja questão tematizada por Aristóteles, é uma questão endereçada a seu pensamento, precisa e paradoxalmente na medida em que dele está ausente, sendo mesmo, para dizê-lo com Heidegger, com quem aqui incessantemente se dialoga, o grande ausente do pensamento grego clássico, razão pela qual só foi possível abordar Aristóteles depois de mostrar, num primeiro capítulo, quais aspectos desse pensamento permitem situar e interpretar essa ausência, revelando-se esta marcar tanto o helenismo anterior a Aristóteles quanto o posterior a ele.
5. é, contudo, sobretudo em Aristóteles que essa ausência produz efeitos dignos de estudo, sendo por isso a ele que convém, antes de tudo, colocar a questão do mundo, deixando de ser exercício arbitrário ou perverso ler Aristóteles ao fio do conceito de mundo, do qual se supõe que nele não se encontra: se se pode descrever toda uma dimensão do aristotelismo como resultante da ausência de um conceito, esse conceito assume valor hermenêutico que nenhum outro conceito pós-aristotélico aplicável ao estudo da obra do Estagirita poderia reivindicar.
6. além disso, o conceito de mundo não está simplesmente ausente em Aristóteles: falta — no sentido de que o pensamento aristotélico é animado por uma tensão em direção àquilo que o uso de tal conceito lhe permitiria pensar, devendo constituir a segunda tarefa deste trabalho localizar os rastros dessa tensão e, ao fazê-lo, ver como Aristóteles ultrapassa os limites do helenismo.
7. o presente texto constitui a versão revista e abreviada de uma tese de doutorado em letras apresentada à Universidade Paris-Sorbonne (Paris IV), preparada sob a orientação de Pierre Aubenque, defendida em 7 de março de 1986 perante banca que incluía também Jean-François Marquet (presidente), Jean Bollack, Jacques Brunschwig, Jean-François Mattéi e Jean Pépin, não podendo ter sido escrita sem a longa hospitalidade oferecida pelo CNRS e sem o ambiente de amizade e trabalho constituído pelo Centro de Pesquisa sobre o Pensamento Antigo (Centro Léon-Robin, UA 107).
8. o grego é transcrito quando as palavras têm valor de conceito (por exemplo, physis, logos etc.), permanecendo em caracteres gregos quando constitui citação referenciada, caso em que a frase original vem sempre acompanhada de tradução própria, como em toda vez que não se indica nome de tradutor.
9. para abreviar, suprimiram-se muitas discussões de estilo filológico destinadas a justificar escolha textual ou tradução, indicando-se, nesse caso, se se seguem os manuscritos (mss), tal manuscrito (indicando-se a sigla recebida), ou a emenda proposta por um editor ou tradutor (pela simples menção de seu nome), devendo entender-se, quando um comentador é mencionado sem referência precisa, que se remete a seu comentário no ponto estudado.
10. remete-se aos autores contemporâneos apenas pela menção de seu nome e do ano de publicação da obra (com a, b etc., quando há vários textos do mesmo ano), tal como figura na bibliografia ao final deste volume.