SONHO DAS MASSAS E ESTABILIZAÇÕES SIMBÓLICAS

BOUGNOUX, Daniel. Sciences de l’information et de la communication. Textes essentiels. Paris: Larousse, 1993.

Pelo exposto acima, podemos perceber o quanto a psicanálise, especialmente na sua versão lacaniana, pode alimentar a comunicação, mas também ser transformada por ela. A interseção entre a psicanálise e os SICs é evidente: ao proporem convencer em vez de vencer, as novas técnicas de comunicação tendem a substituir a produção de objetos pela sedução de sujeitos e moldam “coisas” tão impalpáveis quanto as opiniões, os desejos ou os sonhos das massas. Os meios de comunicação de massa investem amplamente em nosso imaginário e realizam esse sonho persistente: a transformação (relativa) do espaço e do tempo comuns. O registro cada vez mais fiel da imagem, do som e, em breve, das sensações táteis (com a luva de dados) tende a multiplicar ao nosso redor os fantasmas: o telefone, o fax. As mensagens eletrônicas e as telas nos confortam no sentimento narcisista de estar em todos os lugares, confundem nossos territórios, apagam as divisões e as identidades recebidas. Do aparelho de difusão em todas as direções, que faz desaparecer o comum da comunicação, surge um homem ele próprio difuso, sonhador ou volátil: o telespectador.

O ápice da comunicação, que devemos distinguir cuidadosamente da informação, foi descrito por Freud como um processo primário. Mas os curtos-circuitos do sonho ou do imaginário são hoje amplamente favorecidos e generalizados pelos meios de comunicação, que obedecem menos ao princípio da realidade do que à busca sempre renovada do prazer; que buscam menos a vigilância crítica do que o bom relacionamento ou o relaxamento. A imensa satisfação onírica que eles nos proporcionam (ao mesmo tempo que uma abertura não negligenciável para o mundo) obriga nossa mediologia a cruzar o campo aberto pela Interpretação dos Sonhos. Mas é de se prever, inversamente, que a análise não sairá ilesa, ou tal como o próprio Freud a sonhou, de uma confrontação com as problemáticas que acabamos de enumerar.

Aqui, como em outros lugares, tratar-se-á de abrir o sujeito supostamente autônomo e pensar a intersubjetividade sem se dar as facilidades de um objeto ou de um solo fundador. Por outro lado, será necessário descrever melhor os diferentes tipos de estabilização simbólica, pois não acreditamos que ela seja algo permanente. O tão elogiado “acesso ao simbólico”, que constitui a mola propulsora da cura, também é o principal objeto dos trabalhos que acabamos de mencionar. Como se constrói uma rede, de onde vem o sentido, que comunidade se reconhece nela ou se relaciona com ela? Esses ajustes não se farão sem esforço nem “feridas narcísicas”.


Por último, mas não menos importante, nossos SICs poderiam ter como última ambição superar o divórcio que se amplia desde o século XIX entre três formas de cultura: a literária, a científico-técnica e a cultura de massa, cujos representantes se ignoram ou se desprezam mutuamente. O estudo das máquinas de comunicação envolve todas elas simultaneamente e poderia servir para articulá-las.

Vemos que o programa das ciências da informação e da comunicação é vasto e que depende da imaginação dos professores e pesquisadores para lhes dar o lugar que merecem.