BORNHEIM, Gerd. O Sentido Da Mascara. São Paulo: Editora Perspectiva, 2007.
1. Os estudiosos são unânimes em admitir que a tragédia alcançou seu máximo esplendor na Grécia clássica, cuja influência permaneceu soberana sobre toda a dramaturgia ocidental subordinada ao gênero trágico, a tal ponto que mesmo hoje os temas da tragédia continuam sendo frequentemente os velhos mitos do drama ático, ainda que haja evolução do fenômeno trágico e mudança de seu sentido profundo.
2. Sempre que se pergunta o que é a tragédia é fatal voltar à Grécia e ler Ésquilo, Sófocles e Eurípides, pois estudando os antigos é que se pode tentar compreender a essência da tragédia e aquilatar, pela comparação, o sentido de sua evolução através do teatro ocidental.
3. A despeito da perfeição da tragédia antiga, não é fácil penetrar o mistério de seu sentido último, recorrendo-se costumeiramente à Poética de Aristóteles, que, embora delimite o objeto trágico e descreva sua estrutura e partes constituintes, silencia exatamente quanto à elucidação da essência do fenômeno trágico.
4. Para encontrar teorias sobre a essência da tragédia é preciso consultar filósofos e estetas modernos e contemporâneos, cuja bibliografia vasta e confusa entrega o estudioso ao marasmo de interpretações diversas, gerando a impressão de que se trata de tema arcaico e distante da vida atual.
5. Essa impressão é corroborada pelo modo vulgar como se usam palavras como trágico e tragédia, banalizadas e esvaziadas de conteúdo próprio, aplicadas a qualquer evento de intensidade negativa, de modo que o trágico tende a perder sentido enquanto a tragédia propriamente dita permanece relegada ao rol das coisas amorfas.
6. A principal dificuldade na compreensão da tragédia não reside nesse processo de dissolução nem na divergência entre teorias, mas na resistência que o próprio fenômeno trágico opõe a qualquer definição, tratando-se de situação humana limite que habita regiões impossíveis de serem codificadas, sendo respeitada essa indigência ao menos possível tentar aproximação do problema.
7. Aventura-se, de modo fragmentário e despretensioso, compreender certas dimensões do trágico, sem intenção de desenvolver teoria sobre a tragédia, mas de salientar aspectos que permitam entender a vigência do fenômeno trágico na literatura dramática contemporânea.
8. O problema não pode ser reduzido ao âmbito exclusivamente estético, pois o trágico é possível na obra de arte porque é inerente à própria realidade humana, sendo necessário compreender qual elemento no homem possibilita a vivência trágica, elemento que se poderia chamar de finitude ou, na expressão consagrada por Sartre, separação ontológica.
9. Justificam-se, pois, perguntas sobre a essência do trágico e o sentido que ele assume hoje, sem que as observações subsequentes pretendam esgotá-las.
10. Quando se busca responder quais são os pressupostos fundamentais da tragédia, pensa-se logo no homem trágico, Édipo, Orestes, Efigênia, e Aristóteles já se ocupa da natureza do herói trágico, mas concentrar todo o esforço elucidador na figura do herói não é suficiente, pois há outro pressuposto, o sentido da ordem dentro da qual se inscreve o herói trágico, sem o qual a tragédia não se concretizaria.
11. Se o homem é um dos pressupostos fundamentais do trágico, outro não menos importante é constituído pela ordem ou pelo sentido que forma o horizonte existencial do homem, natureza da ordem que varia entre os deuses, a justiça, o bem ou outros valores morais, o amor e sobretudo o sentido último da realidade, tornando-se compreensível o conflito trágico apenas a partir desses dois pressupostos.
12. A polaridade dos pressupostos é exigência indispensável que torna viável a ação trágica, razão pela qual Aristóteles recusa-se corretamente a compreender a tragédia a partir simplesmente do homem, afirmando que ela é imitação de ação e de vida, e não de homens, pois estes são felizes ou infelizes segundo suas ações, não segundo seu caráter.
13. O conflito se compreende como suspenso na tensão dos dois polos, residindo nesse estar suspenso todo o trágico, de modo que o resultado imanente ao conflito deve ser considerado irrelevante, não precisando a ação trágica redundar necessariamente na morte do herói, sendo o happy end perfeitamente compatível com a tragédia, e o mais importante sendo a reconciliação dos dois polos, ainda que essa reconciliação possa acontecer através da morte.
14. Herói e sentido da ordem resolvem-se em termos de conflito e reconciliação, enfraquecendo-se o teor trágico da ação na medida em que um dos pressupostos perde sentido e força, embora a atenção do espectador se volte espontaneamente para a figura do herói, esquecendo-se facilmente do outro pressuposto, o sentido do real, que permanece como que encoberto, sendo porém o fundamento último e radical do trágico precisamente a ordem positiva do real.
15. Aristóteles não coloca explicitamente a questão do sentido do real, mas fornece indícios passíveis de interpretação, como sua recusa a reduzir o herói ao caráter, e sua noção de amartia, erro ou falta, cujo caráter moral ou intelectual foi muito discutido, vendo a maioria dos autores nela uma dimensão intelectual, erro de juízo que não constitui deficiência moral do herói.
16. Se o autor da Poética não autoriza mais que conjeturas, existem na própria Grécia subsídios que podem avançar a explicitação da essência do trágico, sendo frequentes desde Nietzsche as comparações entre a tragédia grega e o pensamento pré-socrático.
17. Do ponto de vista do sentido, Zubiri observa que a tragédia representa a forma patética da Sofia enquanto a obra dos filósofos foi a forma poética da Sabedoria, tendo Nietzsche interpretado os fragmentos de Heráclito como expressão de um pensador trágico por excelência, filosofia dominada pela ideia da justiça, cuja grande inimiga é a hybris ou desmedida, configurando-se nesses fragmentos os dois polos do conflito trágico, justiça e harmonia de um lado, injustiça e desmedida de outro.
18. O pensador pré-socrático que maior ensejo oferece à compreensão do trágico é talvez Anaximandro, cujo famoso fragmento afirma que todas as coisas se dissipam onde tiveram sua gênese, conforme a culpabilidade, movendo-se entre os dois extremos da unidade e da multiplicidade, apresentada esta de forma dramática como culpa e injustiça, isentas através da reintegração na unidade.
19. Visto desta maneira, o fragmento prende-se à unidade e à multiplicidade como categorias últimas, não podendo porém ser consideradas conceitos últimos, sendo o nervo do problema compreender o sentido da gênese e da destruição, ou o modo como a unidade resolve em si o múltiplo, evitando-se platonizar o pensamento pré-socrático ao atribuir-lhe dualismos estranhos a ele.
20. O problema pode ser colocado de outra maneira, perguntando qual é o princípio do real, não podendo esse princípio ser a unidade, pois a palavra princípio, arke, significa começar, estar no início de tudo, o que está no início dominando e atravessando o todo.
21. Não se pode compreender o princípio à maneira cristã, como algo independente ou anterior ao desenvolvimento daquilo a que dá origem, pois a arke determina o desenvolvimento e nele permanece presente, colocando-se o grande problema do entrelaçamento de unidade e multiplicidade, de justiça e injustiça, de medida e desmedida, através de seu processo cósmico.
22. Para os pré-socráticos, unidade e multiplicidade são formas de ser, e o ser é a physis, a natureza, que permite compreender ambas por estarem interiores a ela, sendo o modo de ser da multiplicidade, quando se afirma independente e não reconhece sua unidade no ser, o que faz trocar o ser pela aparência de ser, princípio dos pseudos, do erro gerador de culpa e injustiça.
23. Transportando essas ideias para o plano da tragédia, deve-se dar razão à tese de Karl Reinhardt, segundo a qual a existência humana está entregue ao conflito derivado do entrelaçamento do ser e da aparência, estando o herói trágico retesado entre esses dois extremos, com sua vida balançando entre a verdade e a mentira.
24. Considerado dessa maneira, o objeto fundamental da tragédia não seria o destino único do herói inocente sacrificado, como pretende Schiller, mas antes a aparência que envolve toda existência humana, consistindo o desenvolvimento da ação trágica na progressiva descoberta da verdade, no sentido de aletheia, manifestação e desconderamento.
25. O próprio de quem vive entregue ao mundo da aparência é fazer do homem a medida do real, recusando uma medida que o transcenda, radicando nessa recusa da transcendência o pseudos, a injustiça, a culpa, tornando-se o indivíduo presa de uma medida aparente e incidindo em hybris, oposta à existência que encontra sua medida na lei divina e por isso é justa.
26. Neste sentido, o conflito trágico deriva de um não-estar completamente na justiça, vivendo o homem entre justiça e injustiça, entre ser e aparência, consistindo a evolução do trágico na descoberta da aparência e na conquista consequente do ser, sendo o homem um ser híbrido que pode perder de vista sua medida real e transcendente.
27. Resumindo a análise, a natureza híbrida do homem se debate entre os dois polos que constituem os pressupostos últimos do trágico, o homem e o mundo dos valores, residindo o trágico no modo como a verdade ou a mentira do homem é desvelada, tratando-se de realidades históricas cuja transformação altera o próprio sentido do trágico, que deixa de existir quando os dois polos perdem sentido.
A situação da tragédia dentro das fronteiras do cristianismo
28. A situação da tragédia dentro das fronteiras do cristianismo suscitou discussões variadas e sem unanimidade, tendendo a interpretação geral a negar a possibilidade de uma tragédia cristã, como faz o católico Theodor Haecker, e também Nietzsche, embora por razões opostas, considerando este Sócrates o primeiro responsável pela morte da tragédia grega, decadência que julga tênue diante do impacto do niilismo cristão.
29. Antes de abordar o problema em outra perspectiva, o subjetivismo, impõe-se breve observação histórica: a tragédia como gênero literário só floresceu em dois períodos, a Grécia do século cinco e a Europa moderna, ambos marcados pela crise das respectivas crenças religiosas e por processo de secularização da vida humana, situando-se o florescimento da tragédia no choque entre duas concepções de vida.
30. Nesse sentido histórico pode-se dar razão a Hegel e aceitar sua tese de que a ação trágica se situa entre a realidade objetiva substancial e o subjetivo individual, sendo correta, embora parcial, a afirmação de que o divino constitui o tema próprio da tragédia primitiva, pois é na crise do divino compreendido como substância objetiva que se instala a tragédia.
31. Estamos agora em condições de enfrentar o problema da tragédia em nossos dias através da perspectiva do subjetivismo, sendo a tragédia em sentido forte e pleno a grega, derivando a debilidade da tragédia moderna precisamente do excesso de importância emprestado à subjetividade, sobretudo em seu aspecto moral.
32. É evidente que cristianismo e subjetivismo não se confundem, mas nos tempos modernos o cristianismo passa a pactuar mais intensamente com o subjetivismo, fixando-se o homem cristão com exclusividade crescente na vida interior, sendo essa preeminência progressiva da vida interior que desvigora o trágico e a extensão objetiva da ação trágica.
33. Hegel pressentiu o problema em sua Estética, embora não o tenha propriamente enfrentado, sendo preso de modo absorvente pelo ideal da tragédia grega, tratando o drama de Sófocles como protótipo, de modo que ao estudar a diferença entre a poesia dramática antiga e a moderna não consegue desvencilhar-se da perspectiva do dever-ser.
34. Em segundo lugar, considerando a natureza do sistema filosófico de Hegel, ele é radicalmente antitrágico, no sentido de tornar o trágico impossível, sendo conhecida a interpretação de Glockner de que se trata de um pantragismo que busca resolver-se em panlogismo, já que o Espírito é ou vem a ser realidade absoluta que resolve em si o todo do real.
35. Repita-se que a tragédia supõe dois polos, o homem e sua medida transcendente, dependendo o conflito entre eles da realidade de ambos, mas no caso de Hegel o indivíduo perde consistência, pois a verdade é o todo, das Ganze, passando a tragédia a ser mero jogo de sombras em que o herói descobre concomitantemente que não tem ser, ou que só o tem aparentemente, desmentindo-se assim a afirmação hegeliana de que o objeto exclusivo da tragédia é o divino, como o objeto exclusivo da Ciência da Lógica é Deus.
36. Com tal concepção da realidade a tragédia não é mais possível, pois o panteísmo, ou uma realidade adstrita ao divino, expulsa a viabilidade do trágico ou o reduz a algo aparente sem fundamento real, terminando a filosofia de Hegel, mais do que explicar, sendo o próprio processo da tragédia, pois não se trata de reduzir a realidade do herói à realidade que o transcende, mas de ver no transcendente a medida do herói.
37. Com Kierkegaard o tema da crise da tragédia vem à tona com força que já não dá margem a dúvidas, permitindo-lhe seu pensamento, dotado de aguda sensibilidade para os valores individuais, fazer observações de impressionante atualidade.
38. A interpretação de Hegel sintetiza as meditações da época sobre a tragédia, escrevendo Kierkegaard, por sua vez, o ensaio O Reflexo do Trágico antigo sobre o Trágico moderno provocado por Hegel, contrapondo à Antígona grega e hegeliana a minha Antígona, reconhecendo que a diferença entre as duas personagens reside no ponto não analisado por Hegel, o subjetivismo moderno.
39. Kierkegaard encontra o fulcro que lhe permite analisar a subjetivação do trágico na transformação do sentido da culpa e de suas consequências, compreendendo o sofrimento como objetivo e a dor como subjetiva, afirmando que na tragédia antiga o sofrimento é mais profundo e a dor menor, enquanto na moderna a dor é maior e o sofrimento menor.
40. Kierkegaard tem razão: o subjetivismo repele a tragédia, e à medida que progride a subjetivação o elemento substancial objetivo é privado de seu vigor, tornando-se problema, nos tempos modernos, o que para a Grécia clássica era dado espontâneo e não problematizado, soando falsa e anacrônica, por isso, a crença de Giraudoux em uma harmonia universal.
41. O problema fundamental da tragédia em nossos dias não apresenta novidade, qual é a medida do homem, mas a pergunta se radicaliza ao indagar qual o sentido que pode ter uma medida que transcenda a subjetividade humana, defendendo os intérpretes do trágico campos opostos quanto a ser o fenômeno trágico absurdo ou fundamentalmente positivo.
42. Por essa razão, o subjetivismo moderno torna a possibilidade do trágico extremamente problemática, podendo-se repetir a ideia de Kierkegaard de que o indivíduo reduzido a si mesmo resulta ridículo, objeto de riso, e acrescentar que também absurdo, sendo distintos os diapasões do absurdo e do trágico, de modo que o relevo do absurdo na literatura contemporânea tende a expulsar o trágico de seus quadros.
43. Não é por acaso que as tentativas de reconciliar o trágico com o absurdo medrem em sociedade dominada pelo niilismo, cabendo perguntar por que dizer trágico o herói absurdo, que é antes um anti-herói, pois mais do que inspirar a sensação de grandeza humana ele transmite o sem-sentido da existência.
44. A experiência trágica fundamental do século vinte é que a tragédia se transfere da esfera humana, ou da hybris do herói, para o sentido último da realidade, confundindo-se com uma objetividade ontológica esvaziada de sentido, uma ontologia do nada, instalando-se a desmedida no que Hegel chama de substância objetiva.
45. Esse transporte do trágico para o cósmico ou objetivo paralisa o trágico em uma dimensão própria e especificamente humana, podendo o conflito trágico deixar de existir ou tornar-se imperceptível para o homem, sendo a personagem apenas fragmento dentro da tragicidade cósmica que se perde em sua insignificância, resultando em absurdo todo seu esforço para saber qual é sua culpa.
46. No caso de Kafka, o escândalo do mundo e o absurdo da existência são levados ao absoluto, incidindo qualquer tentativa de construir um herói trágico no arbitrário ou no gratuito, sendo Kafka um caso limite que permite compreender as dificuldades com que se defronta o fenômeno trágico em boa parte da dramaturgia contemporânea.
47. Essa limitação ou relatividade afeta a própria ação dramática, assistindo-se agora a ação que se desdobra de modo inverso ao da tragédia grega, encarnando o herói a justiça, destituído de hybris ou dotado apenas de hybris relativa decorrente das exigências da intriga, enquanto o mundo ou a situação objetiva é injusta, invertendo-se assim a relação trágica.
48. A severidade dessa análise não permite concluir que a experiência trágica tenha sido banida do mundo humano, devendo-se dar razão a Duerrenmatt: se a tragédia em seu estado puro não é mais possível, a experiência trágica, inerente ao humano, ainda se pode verificar, atestando-o o simples fato de que se continua colocando o problema do trágico.
49. Não perdeu atualidade o tema da diferença essencial entre o trágico antigo e o trágico moderno, diferença que permite compreender o quanto se está longe da tragédia em seu sentido próprio, sem que essa diferença possa ser tão absoluta que impossibilite a compreensão e mesmo a experiência do trágico, sendo a situação trágica, deve-se reconhecer, frequentemente mera nostalgia, saudosismo do melhor dos mundos possíveis e do mito, embora toda cogitação do trágico, nostálgica ou não, inspire-se no próprio fenômeno trágico.
50. Pode-se concluir dizendo que essa nostalgia ou a possibilidade de uma experiência fragmentada do trágico se resolve nos seguintes termos: na tragédia grega, a vivência da separação ontológica resulta no reconhecimento de uma medida reconciliadora que transcende a separação, ao passo que em nossos dias a problemática se esgota na experiência da própria separação ontológica, debatendo-se para encontrar uma medida que possa colimá-la mesmo através do desespero, restando ao cavaleiro da fé, além da autoafirmação que quer vencer o absurdo, a possibilidade de uma ação que se poderia chamar de épica, mais preocupada que ocupada com a medida instauradora do humano.