(Gaspar Paz)
Apresentação: Datiloscrito de Bornheim revisita a filosofia de Sartre
1. Apresenta-se a transcrição de um datiloscrito de Gerd Bornheim intitulado Sartre revisto, ensaio que compõe o acervo documental do autor, objeto de pesquisa de pós-doutorado em curso no departamento de filosofia da USP, cujo ponto de partida foi o tratamento da coleção de materiais disponibilizados pela família Bornheim, reveladores dos vieses de posicionamento e do processo criativo do autor.
2. As interpretações de Bornheim repercutem em diferentes contextos e mostram-se enfáticas nas linguagens artísticas e nas colocações sobre estética e filosofia da arte, destacando-se nesse ponto suas reflexões sobre o teatro, que apresentam visão privilegiada das relações entre as expressões culturais e a filosofia.
3. Ao interessar-se pelas linguagens artísticas, Bornheim envolvia-se com tendências filosóficas que se consolidavam nos anos sessenta, como a fenomenologia, a dialética e o existencialismo sartriano, percebendo que as rupturas verificadas nas artes se davam também no terreno filosófico e vice-versa, publicando nesse período obras como Introdução ao filosofar, Metafísica e finitude, Heidegger e Dialética, teoria e práxis.
4. A vinculação de Bornheim com expressões culturais é constante em todo o conjunto de sua obra, conferindo-lhe reconhecimento como um dos principais expoentes brasileiros em estética e filosofia da arte, como atestam trabalhos como Teatro, a cena dividida, Brecht, a estética do teatro, Páginas de filosofia da arte e Conceito de descobrimento, perspectivas já presentes em seus estudos sobre Sartre, como O idiota e o espírito objetivo e Sartre, metafísica e existencialismo.
5. O datiloscrito Sartre revisto constitui um balanço positivo sobre a crescente repercussão de Sartre no Brasil vinte anos após seu falecimento, no qual Bornheim ressalta os posicionamentos de Sartre acerca de dimensões éticas e políticas em temas como a normatividade e a ideia de transparência, comentando sua passagem pelo Brasil e seu intuito de dialogar sobre a situação política do país, mostrando-o como pensador de implicações máximas na vida filosófica.
6. Sartre divisava suas próprias atividades em dois períodos: antes da Guerra de 1945, quando escreveu A náusea voltado ao individualismo, e após a Guerra, quando passou a indagar os problemas sociais e escreveu a Crítica da razão dialética, sendo o primeiro período voltado à fenomenologia e o segundo dedicado a um diálogo entre existencialismo e marxismo, transição observada por muitos autores brasileiros nas questões de estilos literários instigadas por Sartre.
7. A movimentação incitada pela figura de Sartre não se restringe à filosofia, tendo dominado o teatro parisiense do pós-guerra até o surgimento do teatro do absurdo e de Brecht, exercendo papel de transição entre o teatro de Ibsen, Strindberg e Pirandello e o de Brecht e Beckett, com intensa produção literária e atuação surpreendente também no cinema, abertura que instaurou nas expressões culturais a admiração que moveu as manifestações políticas de 1968 no meio universitário parisiense.
8. Bornheim entendia que o homem total buscado por Sartre trazia consigo esforço extraordinário de articulação cujas limitações o próprio Sartre conhecia, buscando o filósofo francês a transparência política que via já encetada na ética kantiana, mas enxergada com mais nitidez na perspectiva do marxismo, acrescentando ao imperativo kantiano que a ação individual não pode oferecer conteúdo material, esvaindo-se em formalidade guardiã da democracia, radicalização consequente da ética do filósofo alemão.
9. Sartre vislumbrava o nascimento de um novo homem e de um novo mundo nas oscilações entre tais problemáticas, pensamentos e ações.
10. São essas atitudes que permeiam a atuação de Bornheim no ensino e na pesquisa em importantes universidades brasileiras e estrangeiras, interpretando seu tempo e buscando o sentido na criatividade, intrépido pelos caminhos que despontam no dinamismo cultural.
Datiloscrito
11. O tema proposto consiste em aquilatar a importância do pensamento de Sartre no Brasil vinte anos após a morte do filósofo, proposta que evidencia a inexorabilidade dos aconteceres temporais, sendo o que Sartre mais detestava justamente tornar-se estátua de si mesmo, razão pela qual recusou o Prêmio Nobel, pois nenhum homem tem o direito de ostentar a pretensão de servir de modelo para outro.
12. A recusa à presença de normas objetivas a nortear o comportamento está no âmago e na razão de ser da ética de Sartre, pois a estátua, mesmo de gesso, inventa um homem pantomímico que acaba por falsificar a própria condição humana, sendo precisamente contra isso que se erguia toda a verve do maior moralista do século passado, denúncia da má-fé que reside no processo de autofalsificação pelo qual o homem se submete ao outro como se este devesse funcionar como modelo.
13. Sartre viu a grandeza e os limites da ética kantiana, corrigindo o imperativo categórico ao afirmar que a ação individual não pode oferecer conteúdo material, esvaindo-se em formalidade guardiã da democracia, tese kantiana que só se justificaria complementada pela asserção de que ninguém pode servir de modelo para ninguém, tônica exata da ética sartriana e radicalização consequente da ética do filósofo alemão.
14. Nessa convicção maior se afinca a inteireza da pedagogia sartriana, pois Sartre defendia suas ideias com loquacidade extrema em palestras, conversas e entrevistas, expandindo-se ainda mais pela palavra escrita, sem paralelo na história do pensamento pelo acervo de edições acumulado em vida, sucesso que persiste nas recentes edições de O ser e o nada, medindo-se a grandeza do filósofo antes naquilo que os avanços do tempo deixam filtrar.
15. A essência do pensamento sartriano concentra-se na inutilidade da mentira, donde a justeza de sua tese contra a má-fé, pois Sartre afirma que chegará o dia em que os homens se tornarão transparentes uns para os outros, tese que, tomada em sua materialidade bruta, pode parecer exagerada, mas cujo alcance importa bem pensar.
16. O tema da frequentação da subjetividade, já presente na Antiguidade clássica de modo torto, impôs-se nos tempos modernos na filosofia e sobretudo na literatura romanesca, base do marxismo e da psicanálise, de modo que em nossos dias a sociedade e os outros tornaram-se tão transparentes que cabe questionar o futuro da mentira, superando-se a ausência de autoconhecimento pela lucidez do saber, que é agora o desmonte da mentira.
17. Sartre esteve no Brasil não tanto para fazer a apologia de seu próprio ideário filosófico, mas porque o sentido da filosofia concentrava-se para ele no ato de denúncia, vindo denunciar a própria situação política do país num ato de solidariedade raro para um homem de seu gabarito, em nome daquela transparência que pode mover montanhas e modificar a sociedade.
18. Diante da pergunta jornalística sobre a presença de Sartre entre nós, observa-se constância nessa perquirição da imprensa, revelando a permanência de edições de suas obras em nosso meio o óbvio: Sartre continua sendo por estes lados um autor vivo, embora seja impossível averiguar a intensidade e os modos de sua influência.
19. Outro nível de presença de Sartre está no pastiche literário, impossível de não se fazer presente em nossas letras periféricas, como exemplifica o conto O internato de Paulo Hecker Filho, que testemunha leitura de um Sartre mal digerido, revelando as medidas do impacto inicial de Sartre em nossa literatura e a ausência frequente de consciência metodológica.
20. Ainda outro nível está na produção ensaística brasileira em torno de Sartre, havendo um livro pioneiro de Luiz Carlos Maciel e, mais recentemente, o bem informado ensaio de Paulo Perdigão, além de bibliografia que continua a florescer nos meios acadêmicos, significando que as ideias do mestre francês permanecem circulando entre nós.
21. A título de obrigação intelectual, o autor comenta sua própria produção sobre Sartre, esclarecendo que nunca foi sartriano, pois seu livro, após exposição introdutória ao pensamento de Sartre, segue-se de crítica de índole nitidamente heideggeriana, ainda válida décadas depois, sem que isso signifique recusar Sartre, pensador necessário que soube incorporar ao seu pensamento as mais profundas contradições do mundo contemporâneo.