Existencialismo de Sartre

(Bornheim1989)

Definição

1. O existencialismo constitui uma das doutrinas mais características do século, empenhando-se em pensar o indivíduo concreto a partir de sua existência cotidiana desprovida de qualquer relevo especial, sendo Sartre o único filósofo que aceita o termo para designar sua própria doutrina, retomando de Heidegger a fórmula segundo a qual a existência precede a essência, o que significa a inexistência de uma natureza humana anterior ao próprio ato de existir.

O Método

2. A questão do método revela-se ampla, pois o pensamento sartriano se desdobra em três fases fundamentais.

3. Em A náusea, de 1937, uma descrição fenomenológica livremente entendida associa-se ao emprego da dúvida cartesiana, com a diferença de que Sartre busca destituir de suas bases tudo o que possa emprestar sentido à existência humana, sendo a náusea o nome assumido por essa dúvida em seu despojamento inaugural.

As teses fundamentais do existencialismo

4. A experiência da náusea revela três coisas fundamentais: a necessidade de converter a revelação do absurdo em sentido que justifique a existência humana, fazendo do existencialismo um humanismo; que o eu é consciência, núcleo instantâneo da própria existência; e que essa consciência não pode existir sem o outro que não ela mesma, existindo apenas por aquilo do qual tem consciência.

5. Sartre dedica poucas páginas ao ser, que se define pelo princípio de identidade, sendo pleno, total, perfeito e ilimitado, sem a menor consciência de si mesmo, enquanto a consciência, ao contrário, não é idêntica consigo mesma, deixando-se definir apenas pelo princípio de contradição.

6. A má-fé consiste na tendência inerente à condição humana de fazer com que a consciência esqueça o nada que é seu fundamento, para identificar-se de algum modo com o ser, sendo o nada essa distância inaugurada pela consciência que corrói o ser em seu próprio cerne.

A intersubjetividade

7. O grande desbravador da questão da intersubjetividade foi Hegel, cuja dialética do senhor e do escravo mostrou que a consciência depende, em seu próprio cerne, do reconhecimento de outra consciência, enquanto Heidegger afirmou que o homem é originariamente ser-com; em Sartre, porém, as coisas se complicam a partir do olhar.

A liberdade

8. O tema da liberdade constitui o núcleo central do pensamento sartriano, sustentando a tese insólita de que a liberdade é absoluta ou não existe, recusando Sartre todo determinismo, seja divino, seja materialista, encontrando o fundamento da liberdade no nada, no indeterminismo absoluto.

9. A liberdade constitui o único fundamento dos valores, sendo o homem apenas seu projeto, existindo somente na medida em que se realiza, conjunto de seus próprios atos, e todo homem que se refugia na desculpa das paixões ou inventa um determinismo é homem de má-fé.

Existencialismo e marxismo

10. Na primeira fase Sartre fala em ontologia, buscando dar conta da condição humana como tal, mas a partir dos anos sessenta prefere a palavra antropologia, publicando a Crítica da razão dialética, guiado pela descoberta da história compreendida através do marxismo.

11. Sartre faz o elogio do marxismo como filosofia jovem correspondente às exigências do tempo, mas procede também a uma crítica severa dos caminhos percorridos pelas ideias de Marx em sua evolução histórica.