Metafísica

BORNHEIM, Gerd. Dialética. Teoria e prática. Porto Alegre: Editora Globo, 1983.

NOTA SOBRE A METAFÍSICA

1. A análise da dimensão metafísica da dialética em Platão e Hegel exige algumas observações preliminares sobre o caráter geral do pensamento metafísico, cuja história, determinada pelo platonismo-aristotelismo, apresenta profunda unidade, mas já em seu ponto de partida surge o paradoxo de que o ser, objeto prioritário, é continuamente evitado pelo entendimento humano.

2. Heidegger aprofundou o tema do “esquecimento do ser”, entendido como processo de entificação do ser, onde o ser assume as feições de um ente determinado, e todo pensamento metafísico se move entre o logos e a physis, privilegiando o logos em detrimento da physis, de modo que o diferente do ser deve ser absorvido pelo ser, como no idealismo hegeliano.

3. O processo de entificação do ser acarreta duas consequências principais: o ser não é pensado em sua diferença em relação ao ente, e o pensamento do ente se torna prejudicado, pois a Metafísica só pensa um ente que desempenha a função de ser, e a realidade finita só tem realidade na medida em que participa do transfinito, esquecendo a finitude do finito.

4. Com a crise da Metafísica, a Filosofia passa a ocupar-se das dimensões do real esquecidas, como a vida, a história, a existência humana, o corpo e a palavra, mas a Metafísica não tem um sentido fundamentalmente negativo, pois a evasão da finitude leva, historicamente, ao reconhecimento da finitude, sendo necessário pensá-la, como propõe Heidegger, para voltar à pergunta pelo ser, desde que se acrescente que a problemática do ser resguarda o reconhecimento da finitude.

5. A Metafísica não foi superada, apenas entrou em crise, e sua vigência atual não se explica apenas por argumentos teóricos, mas porque o próprio sentido da Cultura Ocidental é metafísico, e o espírito totalitarista do século XX é uma expressão da agonia desse sentido metafísico, presente em todos os planos da atividade humana.

6. A Metafísica, ao revelar seu rosto niilista, mostra que o niilismo tem raízes em sua própria gênese, pois a entificação do ser implica a “nadificação” do ente finito, e o estudo da dialética se impõe hoje por configurar o lugar privilegiado que encarna toda essa problemática.