Dialética metafísica

BORNHEIM, Gerd. Dialética. Teoria e prática. Porto Alegre: Editora Globo, 1983.

A DIALÉTICA METAFÍSICA, O PENSAMENTO E A PRÁXIS

45. A crise da Metafísica torna aguda a questão da legitimação da Filosofia diante das instâncias da práxis, e o marxismo, como primeira filosofia que se fez mundo, impõe-se como fator decisivo no processo de reconhecimento do pensamento como finito, e Marx, ao falar em rebelião contra o domínio dos pensamentos, refere-se à cultura metafísica.

46. Os metafísicos, ao interpretarem o mundo, na verdade pensam um meta-mundo, e sua interpretação é uma vontade de transformação ou divinização do mundo, e a frase de Marx pode ser lida como uma crítica à transformação metafísica inócua, e a nova transformação, pós-metafísica, se faz pela revolução e pela práxis antimetafísica.

47. Em ambos os casos, o pensar é alijado: na Metafísica, o pensamento é desenraizado, e em Marx, o pensar é substituído pela práxis, e a pretensão de eficácia do pensamento, ou a necessidade metafísica de transformar o mundo, cindiu teoria e práxis, e Marx, ao preconizar a realização da Filosofia, desmascara a pseudopráxis camuflada na tradição.

48. Marx sabe-se continuador de um passado filosófico, e quer “resolver” a tradição, mas a práxis metafísica é uma pseudopráxis, e Marx, ao criticar a Metafísica, não se vê como crítico da práxis, mas o conflito entre teoria e práxis é um problema do tempo histórico, e o drama está em que, se se coloca em primeiro lugar a oposição entre teoria e práxis, cai-se num beco sem saída.

49. A oposição entre teoria e práxis é insuficiente, pois o que há é um conflito entre duas modalidades de práxis, e a teoria, na Metafísica, vive da nostalgia da práxis, e o pensamento determinado pela Metafísica é menos pensamento, e a tarefa é conquistar o pensamento e a práxis em sua natureza própria, reexaminando a falsa oposição.

50. A crise da Metafísica é uma crise da práxis, e o pensamento metafísico também deve passar por uma transformação, e com a crise do Humanismo metafísico, a práxis pode chegar a ser realmente práxis, e o pensamento pode chegar a ser realmente pensamento, e a crise da Metafísica apresenta um sentido positivo de abertura para a finitude.

51. O pensamento da finitude é pensamento da diferença, e a Metafísica, como vontade de abolir a separação, tende ao monismo e à confusão entre teoria e práxis, mas o que se deve pensar é a diferença entre ambas, e pelo pensamento da diferença, pensa-se o ser da teoria e o ser da práxis, permitindo a relação possível entre elas, que é dialética, mas sem redutibilidade.

52. A relação entre teoria e práxis se dá na diferença, e a autonomia de cada uma se estabelece na relação, no plano da finitude radical, e não se trata de instaurar uma síntese metafísica, mas de afirmar que a relação só é possível na diferença, e a diferença só pode sê-la na relação, como no exemplo das mãos e do pensamento, que são propriamente humanos na relação, sem redutibilidade.

53. Heidegger, ao finitizar o pensamento, não valoriza a práxis, e a reserva mais séria a seu pensamento é a indeterminação da práxis, e a acusação de lirismo ou misticismo não se resolve com um retorno ao categorial clássico, mas possivelmente com a vinculação da teoria com a práxis, pois sua teoria tende a anular a função da práxis.

54. A escola marxista, ao valorizar a práxis em detrimento da Filosofia, transformou o marxismo num sistema dogmático, e a questão em Marx permanece aberta, e Korsch, ao defender a teoria, foi rejeitado pela ortodoxia, e Althusser, ao defender a teoria, revela hesitações, reduzindo a Filosofia a uma lógica dialética, e a questão da filosofia nova e sua relação com a práxis permanece em aberto.

55. Althusser, em textos recentes, reformula suas posições, definindo a Filosofia como “luta de classes na teoria”, e Lukács, em sua última obra, lamenta o esquecimento da herança dialética de Hegel e a deformação do marxismo no período stalinista, indicando que apenas recentemente parece ter chegado o tempo para retomar a grande tradição filosófica de Marx.

56. A análise da práxis, especialmente em Heidegger, mostra que há uma vinculação estreita entre dialética, teoria e práxis, e a problematização da práxis é fundamental para entender a necessidade dessa vinculação, e o fato de a práxis não ter relevo em Heidegger justifica a análise para problematizar o tema.