BORNHEIM, Gerd. O Sentido Da Mascara. São Paulo: Editora Perspectiva, 2007.
1. Dentro de uma perspectiva política, a atitude de Egmont provoca indignação, mas essa perspectiva é falsa para ele, pois seu caminho deve ser o próprio Egmont, em cujas veias corre o sangue da tradição, escutando seu próprio sangue e buscando sua própria densidade, através da qual conseguirá redimir a si próprio e a seu povo, identificando-se a passividade do herói com sua ilusão.
VIGÊNCIA DE BRECHT
2. Mais do que em suas peças, a dimensão fundamental de Bertold Brecht reside talvez na complexa problemática que soube trazer à luz com suas ideias sobre o teatro, ideias que atingem a função da arte em sua raiz, mergulhando na própria estrutura da civilização contemporânea.
3. Pode-se discordar da impenitência dos ideais político-sociais de Brecht, das respostas que pretende insuflar ao espectador, e mesmo da genialidade com que soube concretizar uma progressiva laicização do expressionismo em sua concepção do teatro, mas não pode ser ignorado o aspecto mais essencial de sua obra, a tremenda acusação, explicitada em seus escritos sobre o teatro, dirigida à própria ideia da arte teatral.
4. A verdade de Brecht, conquistada através de lúcida evolução, está na compreensão de que a volúpia do jogo e o esteticismo em qualquer dimensão correspondem a uma concepção decadentista, alienadora da densa realidade humana, entendido o esteticismo em sentido amplo como comprazer-se nos meios e ignorar os fins, ou subordinar os fins aos meios.
5. Nesse sentido, abstrato é o dandy, e abstrata é toda obra de arte pacificadora que resolve ou exclui, encontrando o dandy seu habitat nos paraísos artificiais, enquanto a obra de arte já nasce endereçada para ser exposta no museu, invenção eminentemente moderna cuja origem coincide com o próprio surto da crise da cultura contemporânea.
6. Friedrich Duerrenmatt chamou atenção para o fato de que o teatro de nossos dias tende a ser cada vez mais uma espécie de museu da dramaturgia ocidental, tragado pelo ideal de uma fidelidade histórica insuspeita, como se cada espectador devesse tornar-se enciclopedicamente especialista na matéria.
7. A consciência histórica já não pode ser camuflada, pois Hegel fez compreender que um ocidental que estuda a Grécia antiga ou a Idade Média cristã estuda, sobretudo, a si próprio, sendo todos gregos e todos medievais, embora Valéry também tenha razão ao afirmar que o imenso caudal da história nada ensina, pois contém tudo e de tudo dá exemplo, tendo as vantagens da história para a vida se tornado suspeitas, cedendo lugar a um prudente ceticismo.
8. Diante de situação tão ambígua, Duerrenmatt prefere a alternativa de que, se a história tudo justifica, ela nada justifica, sobrando apenas o riso, pois seria ridículo levar a sério a Áugias e seu estábulo, escrevendo ele para aqueles que, ao lerem o sério Heidegger, caem no sono dos justos e no esquecimento de si mesmos, isto é, da história.
9. Ainda que se possa reservar quanto ao que Brecht entende por reforma do homem, na medida em que supõe o assassinato de Pascal, a acusação que faz ao teatro vigente é válida em muitos de seus aspectos, dialeticamente sadia até o nervo e absolutamente necessária, impondo-se a presença de Brecht como o marco mais sério e essencial do teatro contemporâneo, na medida em que denota esforço encaminhado para a superação de estruturas caducas, teatrais ou não.
10. Evidentemente, as teorias de Brecht não constituem critério absoluto no qual se possa acomodar, pois nada compromete tanto o espírito de criação como o dogmatismo, não se devendo esquecer que uma doutrina como a de Aristóteles não foi pressuposto ou mola impulsionadora da dramaturgia grega, mas decorrência e comentário do teatro antigo, valendo isso para toda teoria.
11. Mas as teorias de Brecht oferecem-se como presença inexpugnável para o diálogo sobre a vida e a razão de ser do teatro, presença que deverá continuar atuante não apenas como polo antitético e polêmico, mas como possibilidade concreta daquilo que legitimamente pretende o autêntico teatro, o alargamento da consciência humana, o aceno à compreensão do tempo, e a denúncia da indiferença daquilo que Thomas Mann, no Doktor Faustus, chama muito adequadamente de travesti da inocência.