HANS BLUMENBERG (1920-1996)
Jean Greisch. Universalis.
Hans Blumenberg nasceu em 13 de julho de 1920 em Lübeck e, vítima das leis raciais de Nuremberg, foi obrigado a interromper seus estudos universitários.
Inicialmente inscrito como estudante de teologia na universidade jesuíta de Frankfurt, retornou como simples operário à sua cidade natal.
Foi preso em 1944 — conseguiu fugir do campo de concentração e ficou escondido pela família de sua futura esposa até o fim da guerra.
Seu doutorado em filosofia, obtido em 1947, foi seguido em 1950 pela habilitação na Universidade de Kiel; tornou-se professor extraordinário em Hamburgo (1958), depois em Giessen (1960), Bochum (1965) e Münster (1970-1985).
É um dos membros fundadores do grupo de pesquisa Poetik und Hermeneutik.
Em 1974 recebeu o prêmio Kuno Fischer da Universidade de Heidelberg; em 1980, o prêmio Sigmund
Freud da Academia Alemã da Língua e da Poesia em Darmstadt.
Morreu em 28 de março de 1996 em Altenberge.
Consignada em mais de vinte obras volumosas, sua obra se caracteriza por uma escrita densa e de grande qualidade literária — trabalhador noturno, Blumenberg proibia que o fotografassem e se expressava principalmente por escrito.
Em seu grande livro Höhlenausgänge (Saídas da caverna, 1989), esse filósofo-troglodita se despede dos “pensadores” que sucumbem cada vez mais às miragens da publicidade midiática — e não apenas retoma a história das diferentes leituras do mito platônico da caverna, mas expõe sua própria visão da antropogênese, da condição humana e da existência filosófica.
A opção “narrativista” não prejudica em nada o rigor de um pensamento que não cessa de militar em favor de uma “cultura da contingência” — que, resistindo às armadilhas de um totalitarismo obcecado por explicações últimas, recusa ao mesmo tempo obliterar as grandes questões da filosofia sob pretexto de que são sem resposta.
Blumenberg estreou na cena filosófica com Paradigmen zu einer Metaphorologie (Paradigmas para uma metaforologia, 1960), defendendo a tese de que as metáforas desempenham papel essencial em nossa relação com a realidade.
Certas metáforas — que Blumenberg chama de “metáforas absolutas” — formam o substrato dos conceitos: a luz, a leitura, o naufrágio, a inquietação e a caverna, que é para ele a metáfora emblemática da filosofia.
A metaforologia implica uma ideia original de conceptualidade filosófica, expressa pela noção de Unbegrifflichkeit — parafrasável como “limites a priori da conceptualidade”.
Blumenberg se situa nas antípodas da ideia de Begriffsgeschichte, defendida por Henning Ritter e Hans Georg Gadamer e expressa no Historisches Wörterbuch der Philosophie.
Em Die Legitimität der Neuzeit (1966; trad. fr. La Légitimité des temps modernes, 1999), Blumenberg rejeita categoricamente toda interpretação da modernidade que não veja em seus grandes temas senão o subproduto secularizado da teologia cristã — como ocorre em Voegelin, Löwith e sobretudo Carl Schmitt.
A autoafirmação da modernidade é, ao contrário, uma reação inevitável e salutar ao “absolutismo teológico” que encontra sua expressão exacerbada na ideia nominalista de uma potência divina absoluta.
A modernidade científica reabilita a curiosidade teórica, desprezada pelos filósofos helenísticos e depreciada pelos Padres da Igreja.
As figuras contrastadas de Nicolau de Cusa e de Giordano Bruno ilustram as diferentes maneiras de transpor o limiar de uma época nova e os desafios da “revolução copernicana” — que é ela própria uma metáfora absoluta.
Persuadido de que vivemos em várias realidades ao mesmo tempo, Blumenberg trava um combate incessante para “manter presente a ubiquidade do humano” — contribuindo, como indica o título de Die Lesbarkeit der Welt (1979), para tornar o mundo um pouco mais legível.
Esse combate anda par a par com a defesa da unicidade de cada vida — a tensão entre a brevidade do tempo de vida que nos é atribuído e a extensão vertiginosa do tempo do mundo é insuperável (Lebenszeit und Weltzeit, 1986).
A tarefa crítica do filósofo é analisar as estratégias de compensação políticas, ideológicas e filosóficas que ocultam a especificidade do tempo de vida.
“Tomar distância de um estado no qual o homem não tem em mãos as condições de sua própria existência e, mais ainda, não acreditava tê-las” é o objetivo fundamental da cultura.
O combate contra o “absolutismo do real” começa já nas pinturas rupestres das cavernas pré-históricas e não cessou desde então — ninguém jamais se contentou com os fatos brutos; a vida sempre se nutriu de um excesso de significatividade, consignado nas metáforas e nos mitos.
Uma antropologia da distanciação permite superar a alternativa entre uma desmitologização redutora e uma remitologização arcaica.
Como Husserl, Blumenberg quer “salvar os fenômenos” — mas imergindo-os na história.
Em sua obra póstuma Zu den Sachen und Zurück (Às coisas mesmas e de volta, 2002), exige que a fenomenologia faça jus a tudo que não se reduz à imediatidade da evidência eidética: o conceito, o símbolo, a metáfora e todas as formas de suplementação.
Sua “fenomenologia histórica” — que é também uma “fenomenologia da história” — postula que “nada do que é humano deve jamais ser totalmente perdido”.
A questão não é mais a de
Kant — “Que posso saber?” —, mas: “O que era que queríamos saber?”
Blumenberg pretende curar as fobias dos fenomenólogos, em particular seu temor do “antropologismo”.
“A fenomenologia é a arte de tornar as evidências compreensíveis” — definição que se coaduna com a da filosofia lida no início de Höhlenausgänge: “a filosofia é a quintessência de afirmações indemonstráveis e irrefutáveis, selecionadas do ponto de vista de sua performatividade.”
“A filosofia”, dirá Blumenberg em outro lugar, “é o que quase poderíamos ter encontrado por nós mesmos.”