Heidegger, como
Dilthey, chega a uma metacrítica das críticas transcendentais de
Kant, mas a concebe como tarefa ontológica e não lógica, desenvolvendo os existenciais que constituem, junto às categorias dos entes não-Dasein, as duas possibilidades básicas de caráteres do ser
A diferença ontológica entre Sein e Seiendes distingue o plano ontológico do ôntico, de modo que nem a descrição ôntica dos entes no mundo nem a interpretação ontológica de seu ser alcançam o fenômeno do mundo
A tarefa da ontologia fundamental busca o sentido do ser a partir da análise do Dasein, para a qual as categorias tradicionais de espaço, tempo e causalidade, ou a noção de Leben em
Dilthey, não bastam, sendo necessários os existenciais obtidos da estrutura de existência do Dasein
O sentido do ser só pode ser alcançado por um esforço interpretativo, o que faz da hermenêutica um conceito fundamental da ontologia e a base de uma investigação transcendental
O ponto arquimédico da filosofia transcendental, antes localizado no cogito ergo sum de
Descartes, desloca-se para o ser-no-mundo, de modo que a compreensão do sentido do ser condiciona a possibilidade de qualquer conhecimento, tornando a teoria hermenêutica derivada da hermenêutica fundamental do Dasein
As estruturas existenciais do ser-no-mundo, além da compreensão, incluem a disposição e o discurso, encontrando sua expressão total no cuidado como ser do Dasein, cujo sentido ontológico é a temporalidade
A totalidade do ser do Dasein como cuidado é formulada como ser-adiante-de-si-já-sendo-em-um-mundo como ser-junto-a entes intramundanos, cuja unidade primordial reside na temporalidade, na unidade dos êxtases do futuro, do ter-sido e do presente
A terceira fase da interpretação hermenêutica se dá pelo círculo ontológico ou existencial, base da formulação metodológica do círculo hermenêutico
A compreensão, como existencial do Dasein, não é um “quê” mas ser enquanto existir, constituindo-se como poder-ser próprio do Dasein cuja estrutura existencial é a projeção
Diferentemente da compreensão como produto da interpretação objetiva em Betti, apropriação de um sentido intencionado por um Outro,
Heidegger concebe a interpretação metódica como compreensão inautêntica, já que na interpretação a compreensão não se torna algo diferente, mas se torna ela mesma, elaborando as possibilidades projetadas na compreensão
Não se trata de adquirir conhecimento novo, mas de interpretar o mundo já compreendido, sendo a compreensão o existencial fundamental que constitui a abertura do ser-no-mundo e contém em si a possibilidade da interpretação
A interpretação de algo como algo se funda na estrutura prévia da compreensão, sendo a totalidade de envolvimento pré-compreendida aquilo que
Heidegger denomina Vorhabe, o ter-prévio de algo já possuído de antemão
A explicitação do que permanece implícito se dá sempre sob a orientação de um ponto de vista, um ver-prévio ou Vorsicht
A uma terceira condição corresponde a conceção-prévia ou Vorgriff, pela qual tudo o que se compreende é interpretado derivando os conceitos usados a partir dele ou forçando-o em categorias preexistentes que não correspondem ao seu ser
Vorhabe, Vorsicht e Vorgriff fornecem os pressupostos para a constituição de um objeto, não havendo objeto-em-si nem factum brutum, pois o reconhecimento de um fato já é impregnado de teoria e guiado por antecipações
É a partir dessa concepção que
Heidegger chega ao sentido não como propriedade dos entes mas como outro existencial, o sentido sendo aquilo sobre o que se projeta algo tornando-o inteligível como algo, estruturado a partir do ter-prévio, do ver-prévio e da conceção-prévia
A circularidade da interpretação, que se move dentro da estrutura prévia da compreensão e só pode explicitar o que já está compreendido, caracteriza o círculo hermenêutico ou existencial-ontológico, distinto do círculo hermenêutico derivado que a teoria da interpretação sempre associou à relação entre partes e todo
A situação do intérprete tem sido um embaraço para os teóricos que buscaram aproximar-se do ideal de objetividade realizado nas ciências naturais
Conceber a pré-compreensão de um objeto de interpretação como uma mácula, e a circularidade resultante como um círculo vicioso ou lógico, do qual seria preciso escapar, implica um mal-entendido fundamental sobre o próprio ato de compreender
Esse círculo exprime a estrutura prévia existencial do Dasein, ente que se ocupa de seu próprio ser em seu ser-no-mundo, não devendo ser evitado mas assumido corretamente, pois contém a possibilidade de um insight original
A compreensão não é resultado de um procedimento correto, mas, conforme seu sentido existencial, é o próprio poder-ser do Dasein
A objetividade no conhecimento resulta de uma subespécie de compreensão que se desviou para a tarefa legítima de apreender o simplesmente dado em sua ininteligibilidade essencial, sugerindo que a objetividade da ciência estrita é inversamente proporcional à base existencial de sua abordagem
A exposição da estrutura existencial da compreensão e da interpretação, nunca mera apreensão pressuposicionalmente livre de algo dado mas interpretação de algo como algo, abrange toda cognição, já que o conhecimento é um modo de ser do Dasein como ser-no-mundo
A coexistência de sujeito e objeto no mundo impede sua separação estrita sob pena de objetivismo e negação do fundamento da cognição como modo do Dasein
O como apofântico da asserção, em suas três significações de constatação, predicação e comunicação, que formam o juízo, é forma derivada de interpretação, afirmando apenas a existência do como primordial de uma interpretação que compreende circunspectivamente, denominado como existencial-hermenêutico
Completam-se assim as três fases hermenêuticas na exposição de tempo-sentido-ser