Enquanto a disputa entre Betti e
Gadamer girava em torno da questão da interpretação objetiva, a que se desenvolveu nos termos de Hermenêutica e a Crítica da Ideologia, de Apel e outros, em 1971, diz respeito à possibilidade de uma hermenêutica de profundidade ou crítica
Nessa disputa, conduzida principalmente entre
Gadamer e Habermas, algumas das principais intuições da filosofia hermenêutica foram aceitas por ambas as partes, concentrando-se as diferenças, de um lado, nas implicações da natureza da estrutura prévia da compreensão, sobretudo quanto ao estatuto da linguagem como seu fundamento último, e, de outro, na justificabilidade da postura crítica frente ao sentido tradicionado que Habermas desenvolveu
Ao retraçar os passos do argumento dentro da disputa hermenêutica, mencionam-se primeiro os aspectos da filosofia hermenêutica que Habermas considera aceitáveis, antes de expor sua crítica ao teor conservador das visões de
Gadamer
Habermas introduziu o pensamento hermenêutico na metodologia das ciências sociais a fim de expor as deficiências das abordagens interpretativas correntes, seguindo a crítica de
Gadamer aos pressupostos historicistas subjacentes às Geisteswissenschaften, e evidenciando deficiências semelhantes na sociologia fenomenológica e na análise linguística do tipo
Wittgenstein-Winch
O traço comum a essas três abordagens, todas centradas no sentido subjetivamente intencionado, é a aceitação ingênua do sentido de um ato tal como definido pelo próprio ator, e as implicações implicitamente objetivistas decorrentes de não considerar ator e intérprete como parceiros dentro de uma situação dialógico-dialética
A figura de linguagem hermenêutica da fusão de horizontes serve ao mesmo tempo para legitimar um componente crítico na compreensão do sentido subjetivamente intencionado, em razão da necessidade de revisar continuamente os preconceitos iniciais trazidos a uma matéria caracterizada por sua capacidade de oferecer definições diferentes e de aceitar ou rejeitar a interpretação
As reflexões hermenêuticas de
Gadamer trazem à luz as limitações necessárias das abordagens behavioristas do mundo social, já que parte do objeto da ciência social só pode ser investigada pelos pesquisadores ao aceitarem ativamente o papel de parceiro reflexivo em uma interação comunicativa
Isso remete a outra questão que surge da estrutura significativa do objeto: as categorias usadas na construção de teorias e as usadas pelo ator têm de co®-responder para salvaguardar a adequação dos resultados
Ao explicar o comportamento, o cientista já precisa saber, e sabe, como categorizar certa manifestação de sentido, sendo apenas a proximidade com seu objeto, resultante de compartilhar um mesmo mundo da vida, o que pode em grande parte ocultar o problema de como nos entendemos uns aos outros
Habermas afirma que, em razão da limitação radical do horizonte linguístico a alguns poucos sentidos elementares e bem operacionalizados, como satisfação de necessidade, recompensa e punição, a pré-compreensão utilizada não precisa ser tematizada
Uma dificuldade adicional, decorrente da necessidade de acessar os dados da ciência social por meio da comunicação conduzida em linguagem cotidiana, como no uso de questionários e observação participante, diz respeito ao problema de como medir o sentido
Cicourel já mostrou que a transformação da experiência comunicativa em dados para investigação científica contém um elemento arbitrário, não havendo como assegurar que um sistema de medição existente corresponda aos conceitos empregados
Expresso nos termos da fenomenologia, à qual Cicourel recorre, mundo da vida e mundo da ciência ligam-se de modo tentativo, assumindo este último o caráter de um demi-monde derivativo, senão distorcedor
A comunicação entre sujeito e objeto, essencial à possibilidade da ciência social, não deixa de ter implicações para as ciências naturais, sendo aqui a comunicação entre cientistas o que a reflexão hermenêutica evidencia como fator importante no progresso da ciência
Embora não afete diretamente os resultados de seu trabalho, o mínimo de entendimento entre cientistas, necessário para o estabelecimento de qualquer comunidade científica, assegura uma opinião comum sobre objetos de pesquisa relevantes e sobre critérios para a elaboração e aceitação de achados dentro de uma comunidade científica
Habermas dá a esse fato uma formulação linguística ao referir-se à linguagem cotidiana usada para falar da linguagem formal dos sistemas matemáticos e científicos como metalinguagem, ou melhor, como a última metalinguagem
O vínculo inescapável entre a vida cotidiana e a ciência também se manifesta na tradução dos achados científicos para a linguagem dos assuntos práticos
Dada a ênfase de Habermas no papel desempenhado pelo progresso da ciência e da tecnologia na continuidade das sociedades altamente desenvolvidas, fornecendo tanto as precondições materiais quanto político-ideológicas para a manutenção de sistemas de dominação tecnocrático-manipulativos, não é de surpreender que ele considere essa esfera de interpretação dotada de grande atualidade
A primeira publicação, em 1967, de Zur Logik der Sozialwissenschaften, de Habermas, deu início à disputa hermenêutica ao fornecer as primeiras contra-declarações à concepção de
Gadamer
Habermas nota, de início, uma relutância de
Gadamer em envolver-se em quaisquer considerações metodológicas, vertente de pensamento epitomizada pela oposição abstrata que estabelece entre experiência hermenêutica e experiência metódica, o que, em certo sentido, apoia involuntariamente a degradação positivista da hermenêutica
A tradição, como processo em curso, nunca pode ser completamente objetificada, ao mesmo tempo em que fornece a base para toda atividade metódica
Habermas contrapõe a ideia de Razão àquilo que considera a naturalização da tradição e, concomitantemente, a reafirmação da autoridade
Em sua opinião,
Gadamer aceita com demasiada facilidade a autoridade e a tradição, revelando seu idealismo relativo, que toma a linguagem como absoluto transcendental, uma falta de objetividade
Um arcabouço mais adequado para a interpretação do sentido deveria, segundo Habermas, referir-se aos sistemas de trabalho e dominação que, em conjunção com a linguagem, constituem o contexto objetivo a partir do qual as ações sociais devem ser compreendidas
A hermenêutica se funde em uma ciência social sob a forma de uma crítica da ideologia quando o sentido tradicionado é interpretado em referência a determinados níveis de trabalho social, isto é, desenvolvimento econômico, e a formas existentes de dominação
Habermas formula: tal arcabouço de referência não mais deixaria a tradição indeterminada como entidade abrangente, mas permitiria apreendê-la como tal e em sua relação com outros momentos da totalidade da existência social, de modo a poder indicar as condições empíricas externas à tradição sob as quais as regras transcendentais de compreensão e ação se transformam
Com base em uma teoria da evolução social, sobretudo quanto ao surgimento das sociedades de classe, deveria ser possível dar conta sistematicamente das distorções fundamentais que operam na autocompreensão humana
O diálogo a que
Gadamer se referiu para representar a dialética entre passado e presente na articulação da autocompreensão do indivíduo e de seu mundo não precisa ser aberto
Ao conferir aos processos hermenêuticos um fundamento ontológico,
Gadamer é levado a minimizar fatores econômicos e políticos que podem limitar drasticamente o horizonte de alguns ou de todos os participantes
A tradição, como contexto que inclui os sistemas de trabalho e dominação, tanto habilita quanto restringe os parâmetros dentro dos quais se definem as necessidades e se interage para satisfazê-las
O fato de os processos sócio-históricos ocorrerem por cima e mesmo pelas costas daqueles que os carregam, sistematicamente incapazes de dar conta precisa de suas ações individuais e das motivações subjacentes, aponta para uma abordagem dos fenômenos sociais que transcende o escopo de investigações meramente interpretativas de sentido
O pressuposto compartilhado por
Dilthey e
Gadamer no campo da interpretação hermenêutica refere-se à acessibilidade do sentido
A psicanálise, por outro lado, evidenciou o mecanismo pelo qual se reprimem motivos socialmente inaceitáveis e se os canaliza para formas aceitáveis de expressão
Essa redefinição, ocorrendo sob condições de força, aqui representadas pelas exigências do Superego, fornece o modelo para a crítica da autoilusão de grupos dentro de uma sociedade de classes
O sentido reprimido pode ser recuperado com o auxílio de uma interpretação geral que fornece o quadro para representar a história de desenvolvimento de uma pessoa ou de um sistema social em sua totalidade, permitindo assim apontar os eventos e as instâncias por trás da comunicação distorcida e preencher lacunas na autocompreensão do indivíduo ou grupo em questão
Em sua réplica,
Gadamer, em 1971a e 1971b, dirige seus contra-argumentos ao nível que se tornou o eixo do debate: o estatuto metateórico da reflexão hermenêutica, isto é, sua pretensão de universalidade
Devendo o problema hermenêutico envolver toda atividade significativa, seria impossível argumentar a partir de uma posição externa a ele, ou mesmo contra ele, não havendo ponto arquimédico, já que a tentativa de desalojar um corpo de pensamento requer, ela mesma, um solo de apoio, e com ele uma série de pressupostos e preconcepções que não podem todos ser esclarecidos de uma só vez
Gadamer argumenta em favor da universalidade de uma hermenêutica filosófica com base na concepção heideggeriana do verstehen como existencial, e não como procedimento metodicamente treinado das ciências hermenêuticas
Gadamer formula: compreensão e comunicação são modos de coexistência social que, em última formalização, constituem uma comunidade de diálogo, da qual nada está isento, nenhuma experiência de qualquer tipo, não existindo nem a especialização da ciência moderna, nem o trabalho material, nem as instituições políticas de dominação e administração fora do medium universal da razão prática, e também da não razão, prática
Na formulação linguística que
Gadamer dá ao situar-se hermenêutico de todo pensamento reflexivo — o ser que pode ser compreendido é linguagem — exprime-se a intuição de
Heidegger por referência à linguagem como espelho: tudo o que é se reflete no espelho da linguagem
A suposição de fontes de influência situadas fora da linguagem só pode parecer absurda a
Gadamer, assim como a separação de forças materiais como o trabalho e a dominação, para as quais
Gadamer usa o termo scheleriano Realfaktoren, do âmbito da tradição cultural, e a restrição da dimensão hermenêutica a esta última
Gadamer passa então a rejeitar a antítese abstrata entre Razão e autoridade, reflexão e tradição, antes de finalmente abordar o estatuto de uma crítica da ideologia frente à universalidade do problema hermenêutico
Recorre aqui a outra metáfora, a da vida social como jogo, para construir um caso persuasivo contra a transposição do modelo da psicanálise para a realidade social
Sendo parte de seu objeto, o sociólogo participa desse jogo desempenhando seus vários papéis com base em uma compreensão comunalmente compartilhada
Ao tentar analisar processos sociais criticamente, ele tem de sair desse jogo e tratar seu objeto como um psicanalista trataria um paciente, isto é, como alguém que precisa ser desmascarado, cujos motivos declarados não são seus motivos reais
O ponto que
Gadamer faz aqui é que, no contexto social, um sociólogo agindo desse modo seria considerado um estraga-prazeres, a ser evitado pelos demais participantes
Além disso, essa análise mesma ocorre com base em um consenso social, e não a partir de um ponto de vista objetivo, sendo a compreensão compartilhada — a que
Gadamer chama de consciência social — que abrange todas as situações humanas o que define os limites dentro dos quais uma ciência social emancipatória pode arrogar-se o direito à crítica
A questão passa então a centrar-se no problema de como fornecer padrões aos quais a crítica da ideologia possa se referir para legitimar seu procedimento
A estratégia de Habermas consiste, primeiro, em tentar discernir os limites da consciência hermenêutica e, segundo, em delinear programaticamente um arcabouço teórico em termos do qual uma crítica da ideologia possa se tornar um empreendimento viável e justificável
Habermas introduziu a hermenêutica na metodologia das ciências sociais a fim de combater o objetivismo das abordagens cientificistas do mundo social, indicando a existência e o sucesso relativo dos métodos objetificantes, ao mesmo tempo, o limite de uma preocupação exclusiva com a interpretação do sentido subjetivamente intencionado, pois a existência social se caracteriza não só pelas intenções de quem age dentro dela, mas também por um contexto objetivo que delimita o alcance do reconhecimento e da realização dessas intenções
O peso morto de interesses e forças sociopolíticas dados, sedimentados nas instituições sociais e refletidos na linguagem cotidiana, impede a autoesclarecimento irrestrito dos membros submetidos a seu regime
O hiato entre o sentido subjetivamente intencionado e o sentido objetivamente realizado não pode ser transposto nem pelas ciências hermenêuticas nem pelas empírico-analíticas, ambas fortificando sua posição em lados opostos de uma divisão teórica e prática e se encarando com incompreensão
Sua aparente irreconciliabilidade subjaz à tentativa de mediação dialética, uma vez reconhecido que ambas representam modos legítimos de investigação, decorrendo sua contraditoriedade do fato de focarem realidades diferentes de uma realidade desconjuntada
Como resultado tanto da intenção quanto da coerção, os processos sociais contêm elementos de espontaneidade e regularidade
Reconhecendo, de um lado, que essas intenções podem estar parcialmente ocultas do próprio ator ou ser redefinidas para ele por instâncias manipulativas externas, e, de outro, que as regularidades que fundamentam os esquemas estatístico-explicativos representam com frequência restrições estruturalmente impostas que limitam, em vez de garantir, a conduta social ótima, uma ciência social dialética tem de visar a um arcabouço teórico que permita a compreensão objetiva do sentido subjetivamente intencionado
Em contraste com tentativas anteriores, que acabam por se imobilizar nas areias movediças do historicismo, uma ciência social dialético-hermenêutica não se contenta em fornecer um inventário de objetivos e conquistas culturais passadas e presentes, sendo antes enfaticamente crítica, não no sentido de manifestar desaprovação dos arranjos contemporâneos, mas no sentido de destilar o sentido dos processos históricos e das objetivações em relação às tendências existentes rumo a uma sociedade mais livre
Ao introduzir o conceito de totalidade, podem-se discernir e interpretar tendências rumo a uma sociedade melhor em relação à história universal, adquirindo o sentido subjetivamente intencionado seu complemento objetivo, sem o qual não seria significativo
Habermas chega a um esboço de uma teoria dialético-hermenêutica da ação através de uma Aufhebung tanto da filosofia hermenêutica quanto da psicanálise
Antes de tal movimento ser possível, a psicanálise teve de ser liberada de sua autocompreensão cientificista para poder emergir como uma interpretação geral dos processos auto-formativos, ocupando o mesmo estatuto metateórico das teorias empíricas gerais e da teoria hermenêutica
No que se refere à filosofia hermenêutica, permanecia o desafio lançado por
Gadamer, formulável como pergunta retórica: a crítica da ideologia não é ela mesma ideológica?
Trata-se primeiro desse ponto, mostrando como Habermas procede desmontando a pretensão hermenêutica de universalidade sobre a qual repousa tal objeção à crítica social
Reconhecendo a reserva de
Gadamer contra pretensões universalistas falsas de certos pontos de vista críticos, e admitindo que, nas condições presentes, isso possa ser mais urgente do que chamar atenção para a pretensão universalista da hermenêutica, Habermas dirige-se, ainda assim, a esta última a fim de resolver uma disputa metateórica, da qual dependerá a legitimidade da hermenêutica crítica
A pretensão hermenêutica de universalidade poderia mostrar-se indefensável se fosse possível romper o contexto da linguagem cotidiana
Dos três campos a que Habermas se refere como candidatos prováveis — a epistemologia genética, a linguística gerativa e a comunicação sistematicamente distorcida — Habermas escolhe concentrar-se no terceiro
Além de ser aquele com que está mais familiarizado, a psicanálise, como explicitação da estrutura da comunicação genuína, fornece também um trampolim para uma teoria da linguagem ordinária
As abordagens hermenêuticas têm de considerar a fala, em princípio, compreensível, excluindo, evidentemente, perturbações patológicas
O caso de Habermas se baseia, contudo, na existência de padrões de comunicação sistematicamente distorcida que recorrem na fala normal, isto é, patologicamente inconspícua
Habermas formula: este é o caso da pseudocomunicação, em que os participantes não têm consciência de uma perturbação em sua comunicação, sendo apenas alguém de fora que percebe que eles se compreendem mal um ao outro
Transposta para o nível social, essa visão dá origem à seguinte intuição
A ideologia, no contexto de um sistema capitalista, fornece um relato ilusório de uma forma de existência social caracterizada, de fato, pela dominação de uma seção sobre outra
Agindo sob a influência da falsa consciência, membros da classe subjugada podem subordinar seus interesses à continuidade de um sistema social injusto, capaz de ocultar suas contradições sob o véu de explicações pseudocientíficas e apelos emotivos a alguma entidade mítica ou ideal cultural, conforme
Freud
A aceitação passiva de relatos de uma realidade falsa, formulados em termos de alguma coexistência harmoniosa ou de certas necessidades e imperativos decorrentes do desenvolvimento social, ou a retirada alienada dos assuntos públicos, pode facilmente ser interpretada como indício de um assentimento fundamental ao status quo
Em todo caso, a experiência cotidiana da existência de um falso consenso sobre questões importantes deveria sensibilizar para a influência de interesses dominantes atuando por trás da engenharia da opinião pública
A psicanálise fornece a Habermas o modelo de um arcabouço teórico que permite transcender o consenso comunicativo meta-hermeneuticamente, podendo, como hermenêutica de profundidade, decifrar formas privatizadas de comunicação por meio da compreensão cênica
Aqui se reverte a dessimbolização das necessidades geradoras de conflito, dando-se, através da reconstrução da situação conflitual original, ou cena, na infância precoce, ao paciente a possibilidade de ressimbolizar as áreas de sua história de vida que permaneceram semanticamente vazias
A compreensão cênica é uma compreensão explicativa, na medida em que consegue apontar as condições iniciais que levaram à distorção sistemática da linguagem
A compreensão hermenêutica só pode ocupar-se da comunicação cotidiana razoavelmente bem-funcional, servindo para sancionar o uso prevalente da linguagem
A hermenêutica de profundidade visa explicar o surgimento de padrões de fala que devem permanecer incompreensíveis aos hermeneutas, pois afetam a própria organização da linguagem
O reconhecimento da intrusão da força na comunicação levou Habermas a questionar o estatuto do consenso factualmente existente como o último fundamento de apoio de toda comunicação, mesmo da crítica
Gadamer reafirma suas objeções ao programa de Habermas e, em sua Réplica, acrescenta que as condições sob as quais ocorrem processos de reflexão em um encontro psicanalítico são marcadamente diferentes das que vigoram entre classes em disputa
Habermas esclarece que o modelo da práxis emancipatória se aplica à relação entre um partido comunista e as massas, e não à relação antagônica entre classes
Habermas formula: teorias do tipo da psicanálise e da crítica da ideologia de
Marx podem ser usadas para iniciar processos de reflexão e dissolver barreiras à comunicação, podendo também ser usadas para deduzir hipóteses explicativas sem ter, ou tomar, a oportunidade de iniciar a comunicação com as pessoas envolvidas e ter sua interpretação confirmada pelos processos de reflexão delas
Em todo caso, o uso do conhecimento crítico-emancipatório não precisa necessariamente excluir o diálogo direto com os opositores
A interpretação que Habermas oferece da psicanálise, como um componente de uma teoria da competência comunicativa, serve para superar tanto
Gadamer quanto
Freud, permitindo-lhe rejeitar a pretensão hermenêutica de universalidade ao identificar as condições psicológicas, e eventualmente ação-teóricas, do exercício da competência comunicativa, que só pode ser aperfeiçoada, mas não explicada, pela reflexão hermenêutica
Ao mesmo tempo, isso exige que Habermas separe a autocompreensão cientificista de
Freud de sua metapsicologia antes de introduzir esta última como parte de uma meta-hermenêutica
A meta-hermenêutica a que Habermas visa assume a forma de uma teoria da competência comunicativa, tendo sido publicados, desde A Pretensão Hermenêutica de Universalidade, diversos artigos que informam sobre o progresso de suas pesquisas
O correlato substantivamente orientado das considerações metateóricas de Habermas segue o modelo da psicanálise como crítica da autocompreensão distorcida de um indivíduo, apoiando-se em um arcabouço teórico que combina o conhecimento sobre o desenvolvimento geral da personalidade e as histórias de vida individuais
Sob o domínio da ideologia, grupos sociais são impedidos de reconhecer e perseguir seus interesses comuns, dependendo a eficácia desses sistemas de interpretação da erguição de barreiras à comunicação que bloqueiam processos comunicativos voltados à formulação de fins e diretrizes sociopoliticamente relevantes
O surgimento de tais barreiras exige uma explicação no arcabouço de uma teoria da comunicação sistematicamente distorcida, podendo, se esta for desenvolvida satisfatoriamente em conexão com uma pragmática universal e combinada com pressupostos básicos precisamente formulados do materialismo histórico, tornar-se possível a compreensão sistemática da tradição cultural, sendo possível que uma teoria da evolução social conduza a pressupostos testáveis sobre a lógica do surgimento de sistemas morais, de cosmologias e das práticas culturais correspondentes
No campo da linguagem ordinária, espera-se que o trabalho teórico aqui empreendido torne possível derivar o princípio da fala razoável, como a regulação necessária de toda fala real, por mais distorcida que seja, a partir da lógica da linguagem cotidiana
A disputa com
Gadamer deixou a Habermas a tarefa de estabelecer um princípio com cujo auxílio seria possível distinguir entre um consenso verdadeiro e um falso, princípio esse estabelecível por meio da descrição de um discurso
Um discurso difere da interação porque nele as normas e opiniões, tomadas como dadas na ação comunicativa, são problematizadas, sendo apenas discursivamente que a validade dessas normas ingenuamente aceitas pode ser verificada consensualmente
Tanto na interação quanto no discurso pressupõem-se, contudo, uma série de elementos contrafactuais
No curso de uma teoria consensual da verdade, Habermas chega à visão de que o conceito de verdade não fornece critério para distinguir consenso verdadeiro de falso, já que a própria verdade só pode ser alcançada por meio de um consenso em um discurso
Segue-se que, no discurso, pressupõe-se que qualquer consenso alcançado dentro do arcabouço de um discurso pode ser considerado um consenso verdadeiro
Essa concepção da verdade como consensual pressupõe, ou antes antecipa, a situação de fala ideal, caracterizada pela exclusão de pressões externas, isto é, uma discussão livre de dominação
Precondições para uma interação bem-sucedida — como a inteligibilidade e a verdade daquilo que é dito no momento apropriado por um falante sincero — são assim transpostas para o discurso: os participantes não podem enganar a si mesmos ou a outros quanto às suas intenções, excluindo-se assim a possibilidade de distorção do processo comunicativo
É aqui, na conjunção entre verdade e condições favoráveis a seu surgimento, isto é, a liberdade em relação a coerções, que Habermas mais enfaticamente se afasta da ontologização da linguagem e da tradição de uma hermenêutica filosófica
Habermas formula: a ideia de verdade, que é medida em relação à ideia de um consenso verdadeiro, implica a ideia de uma existência verdadeira, ou, poder-se-ia dizer, inclui a ideia de Mündigkeit, maioridade, garantindo somente a antecipação formal do diálogo idealizado, como forma de vida a ser realizada, o acordo contrafactual último que já nos une e que nos permite criticar qualquer acordo factual, se for falso, como tal
A compreensão subjetiva do sentido pode ser incorporada a uma interpretação crítica da comunicação distorcida a um custo: sua autossuficiência contemplativa terá de ser abandonada em prol da exigência de uma sociedade mais livre em que as raízes da distorção sejam gradualmente erradicadas