Esse aspecto é tratado por
Gadamer em termos do círculo hermenêutico, com o objetivo de elevar a consciência filosófica das Geisteswissenschaften, construindo tanto sobre a exposição heideggeriana da estrutura prévia da compreensão quanto sobre a ênfase de Bultmann na pré-compreensão, concretizando a primeira e ampliando a segunda na concepção de preconceitos que constituem um dado horizonte de compreensão, afirmando
Gadamer que toda compreensão é preconceituosa e dedicando grande esforço à reabilitação de um conceito que adquiriu conotação negativa com o Iluminismo
A partir de sua pretensão de autonomia, a Razão só pôde considerar os preconceitos como resquícios de uma mentalidade não esclarecida que impede a autodeterminação racional, visão que também penetrou o pensamento de alguns românticos e moldou a doutrina do historicismo, de modo que, na rejeição dos preconceitos, tanto o Iluminismo e as ciências naturais dele derivadas quanto as Geisteswissenschaften historicistas do século dezenove firmam uma aliança que tem por denominador comum a busca do conhecimento objetivo através de um sistema de regras e princípios metodológicos, na conquista dos mitos pelo logos
Gadamer identifica nisso, porém, a perda da continuidade da tradição que, apesar disso, subjaz a ambas as abordagens, sendo que, além dos preconceitos e da tradição, também a autoridade foi rejeitada pelo Iluminismo como anátema ao uso da própria Razão
Como exigência de obediência cega, a autoridade certamente mereceu esse destino, mas isso não capta a essência da verdadeira autoridade, que só pode ser mantida através do consentimento dos que são por ela afetados, tendo de ser adquirida e continuamente reafirmada por esse consentimento
Gadamer afirma que a autoridade nada tem a ver com obediência cega, mas antes com conhecimento
A ideia de uma Razão absoluta ignora que a Razão só pode se atualizar em condições históricas, sendo que mesmo a aplicação mais neutra dos métodos da ciência é guiada por uma antecipação de momentos da tradição na seleção do tema de pesquisa, na sugestão de novas questões e no despertar do interesse por novo conhecimento
Cabe à hermenêutica filosófica evidenciar o momento histórico na compreensão do mundo e determinar sua produtividade hermenêutica, sendo nesse sentido que o problema hermenêutico subjaz a todo conhecimento
As ciências naturais derivam a direção de seu desenvolvimento das leis de seu objeto, mas a referência ao elemento de tradição que as afeta não é suficiente para captar a influência sistemática dos fatores históricos sobre as Geisteswissenschaften, cujo objeto não permanece o mesmo, mas é constituído sempre de novo por diferentes questões a ele dirigidas
As Geisteswissenschaften só podem se libertar de sua identificação obsessiva com os procedimentos exemplificados pelas ciências naturais se o caráter histórico de seu objeto for reconhecido como momento positivo, e não como impedimento à objetividade
A reavaliação radical de
Gadamer sobre a situação do intérprete manifesta-se ao avaliar a existência dos preconceitos, ressalvando desde o início que quem tenta compreender um texto está preparado para que ele lhe diga algo, de modo que uma mente treinada hermeneuticamente deve, desde o início, ser sensível à novidade do texto
Essa sensibilidade não envolve nem neutralidade quanto ao objeto nem a extinção de si mesmo, mas a assimilação consciente dos próprios sentidos prévios e preconceitos, importando estar consciente do próprio viés para que o texto possa apresentar-se em toda a sua novidade e assim afirmar sua própria verdade contra os sentidos prévios de quem interpreta
Assim
Gadamer reabilita a autoridade e a tradição e nega sua oposição à Razão ao referir-se a preconceitos legítimos, colocando a questão de como separar preconceitos legítimos de arbitrários e qual seria seu fundamento
A interpretação temporal do Dasein em
Heidegger aponta o Tempo como o solo no qual o presente encontra suas raízes, e enquanto o historicismo insistia em uma distância entre presente e passado, que resultava no postulado metodológico de reconhecer eventos passados nos conceitos empregados à época para alcançar resultados objetivos, a filosofia hermenêutica considera essa distância como contínua, isto é, transposta pela tradição, o que confere ao intérprete potencial cognitivo
A teoria hermenêutica tradicional focava a compreensão como atividade da subjetividade do intérprete, melhor conduzida no nível de duas mentes congeniais, e a metodologia de Betti valorizava a espontaneidade do sujeito sem reconhecer a integração do ato de compreender em processos históricos
Gadamer afirma que a compreensão não deve ser pensada tanto como ação da subjetividade, mas como o colocar-se dentro de uma tradição na qual passado e presente se fundem constantemente, insight que a preocupação obsessiva com o método obscureceu
Um preconceito examinado por
Gadamer é o da perfeição, no qual elementos formais e materiais se fundem na compreensão do conteúdo de um texto, que se pressupõe antecipadamente unificado sob um único sentido e dizendo a verdade, estando em jogo o conteúdo do texto e não a opinião do autor enquanto tal
A hermenêutica metodológica objetificou o leitor original e o substituiu pelo intérprete
Ao colocar-se dentro de sua tradição, o intérprete traz à tona seus próprios preconceitos na tentativa de fazer justiça à pretensão de verdade do texto, superando assim seu ponto de vista inicial isolado e sua preocupação com a individualidade do autor
O intérprete está sempre inserido em um contexto de tradição, que pode agora ser entendido como o compartilhamento de preconceitos básicos e sustentadores, sendo presunçoso imaginar que toda a gama de preconceitos que tornam possível e guiam a compreensão possa ser trazida à consciência e empregada à vontade, pois fora do processo de compreensão permanece impossível até mesmo separar preconceitos enganosos de produtivos
A filtragem dos preconceitos legítimos ocorre na dialética entre estranheza e familiaridade, entre objeto e tradição, iniciada pela distância temporal, que não apenas deixa morrer os preconceitos de natureza particular e limitada, mas faz emergir claramente aqueles que possibilitam a compreensão genuína
Ao trazer suas próprias concepções para incidir sobre o texto, o intérprete não visa, evidentemente, reproduzi-lo em seu estado original, pois o texto sempre representa mais do que o autor pretendeu e é lido de modo diferente em circunstâncias diferentes, sendo a compreensão, portanto, um empreendimento produtivo
Gadamer trata desse aspecto sob o título de Wirkungsgeschichte, história efeitual, delineando o surgimento e o conteúdo da consciência dela, termo que escapa a definições breves mas cujos elementos estruturais
Gadamer evidencia numa análise brilhante: a consciência da própria situação hermenêutica e do horizonte que lhe é característico, a relação dialógica entre intérprete e texto, a dialética entre pergunta e resposta, e a abertura para a tradição
A consciência da história efeitual é também identificada por
Gadamer como consciência hermenêutica, que abrange tanto a consciência histórica quanto a histórica propriamente dita
A história efeitual representa a possibilidade positiva e produtiva da compreensão, na qual o intérprete se encontra em sua própria situação, a partir de onde tem de compreender a tradição por meio dos preconceitos que dela deriva
Toda cognição de fenômenos históricos é, portanto, sempre guiada pelos resultados da história efeitual, que determinam de antemão o que deve ser considerado digno de ser conhecido
Essa força pode ser ignorada na confiança objetivista em métodos de interpretação, sem que por isso desapareça, fazendo-se sentir pelas costas do observador ingênuo, mas pode igualmente ser aproveitada para se chegar à verdade que nos é alcançável apesar de todas as limitações impostas pela finitude de nossa compreensão
Tornar-se consciente das precondições fundamentais de nossa compreensão dos efeitos da história efeitual permanece uma exigência necessária para o trabalho verdadeiramente científico, envolvendo consciência da situação hermenêutica, isto é, da situação em que nos encontramos frente à tradição que desejamos compreender
Como toda reflexão, esta também tem de permanecer dentro dos limites impostos por nossa historicidade, pois existir historicamente significa que o autoconhecimento nunca pode ser completo, já que todo autoconhecimento parte daquilo que é historicamente pré-dado
Por essa razão, toda situação histórica contém seu próprio horizonte, e a consciência histórica reconhece épocas distintas que devem ser compreendidas em seus próprios termos, tentando entrar na posição ocupada pelos destinatários originais do sentido pretendido por um autor
Paradoxalmente, o desejo de reconstruir situações passadas para fins de conhecimento objetivo erra o alvo da tarefa real, que é encontrar a verdade válida e compreensível incorporada na tradição, transformando um meio em fim
A consciência hermenêutica, por contraste, considera abstrata a concepção de épocas unitárias com horizonte fechado, pois o movimento histórico que é o Dasein humano se caracteriza pelo fato de não ser determinado por nenhuma situação definida e, portanto, não possuir um horizonte verdadeiramente fechado, sendo antes um horizonte algo para dentro do qual se caminha e que se move conosco
Tanto o intérprete quanto a parte da tradição que lhe interessa contêm seu próprio horizonte, consistindo a tarefa não em colocar-se dentro deste último, mas em ampliar o próprio horizonte para que possa integrar o outro
Gadamer denomina fusão de horizontes a elevação da própria particularidade e a do objeto a uma generalidade mais alta, o que ocorre sempre que a compreensão se realiza, estando o horizonte em processo contínuo de formação através da prova dos preconceitos no encontro com o passado e da tentativa de compreender partes da tradição
É, portanto, inadequado conceber um horizonte isolado do presente, já que este já foi formado através do contato com o passado, sendo essa consciência da história efeitual o que auxilia na fusão controlada de horizontes
Gadamer pode assim integrar a pré-compreensão de Bultmann, como abordagem questionadora, com o Vorgriff projetivo conceitual de
Heidegger no conceito de horizonte, tornando-se o intérprete primeiro consciente de uma distância entre o texto e seu próprio horizonte, o que conduz, no processo de compreensão, a um horizonte novo e abrangente que transcende a questão e os preconceitos iniciais
Essa experiência que conduz a uma nova compreensão é uma experiência hermenêutica, essencialmente diferente da experiência que fundamenta a formulação dos métodos científicos, cuja objetividade se baseia, desde
Bacon, na possibilidade de experiência constante, isto é, repetível, que garante a intersubjetividade dos achados, abordagem voltada a eliminar todos os elementos históricos, como exemplifica o método experimental nas ciências naturais
A análise husserliana do mundo da vida se dirigia contra o monopólio da experiência obtida dentro do mundo da ciência, mas em
Husserl a experiência, mesmo na esfera pré-científica, carrega uma característica desta última, voltando-se para fenômenos tangíveis
O elemento da historicidade no conhecer encontrou seu reconhecimento mais enfático em
Hegel, sendo a experiência, enquanto dialética, alimentada pela negação determinada, o que indica que uma nova experiência não implica apenas a superação de uma anterior, mas representa um estágio novo e superior de conhecimento que compreende tanto a nova intuição quanto a consciência daquilo que anteriormente havia sido erroneamente tomado por fato, de modo que não apenas se sabe mais, mas se sabe melhor
A experiência dialética não capta, contudo, o elemento especificamente hermenêutico na fusão de horizontes, pois faz parte de um esquema que se completa no conhecimento absoluto, na identidade total de objeto e Conhecimento
O que se pressupõe, o sistema de autoconhecimento total, contraria precisamente o insight hermenêutico central de que o autoconhecimento nunca pode ser completo, não implicando a experiência hermenêutica um desejo de saber tudo, mas antes a abertura a novas experiências, que tem sua realização não em um conhecimento definitivo, mas naquela abertura à experiência que é encorajada pela própria experiência, referindo-se à experiência como um todo
A experiência aqui em questão é a da finitude humana, não significando apenas reconhecer o que está diante de nós neste momento, mas ter intuição sobre os limites dentro dos quais o futuro ainda permanece aberto à expectativa, sendo assim a verdadeira experiência aquela da própria historicidade
A fusão de horizontes é, contudo, inconcebível sem o medium da linguagem, já tendo sido apontado que a compreensão deve ser vista como interpretação, e que a interpretação é a forma explícita da compreensão, estando esse insight ligado ao fato de que a linguagem usada na interpretação representa um momento estrutural da interpretação, algo que Bultmann havia completamente deixado de considerar
Para
Gadamer, o problema da linguagem apresenta a questão central da filosofia hermenêutica, sendo sua preocupação com a linguagem o ponto em que ele transcende as preocupações da hermenêutica existencial, fornecendo também uma saída da cadeia especulativa de uma filosofia da história universal de
Hegel
Na discussão da linguisticidade de toda compreensão,
Gadamer reúne os insights até então acumulados em seu livro e lhes confere um fio mais afiado, sendo que a virada ontológica da hermenêutica sob a orientação da linguagem adquire sua capacidade penetrante através da incorporação da obra que
Heidegger produziu após sua própria célebre virada
Essa incorporação se reflete melhor na afirmação de
Heidegger de que a linguagem é a casa do Ser
O pensamento de
Heidegger está agora a caminho da linguagem, como sugere o título de sua obra, não sendo mais a filosofia hermenêutica vista como uma teoria, mas como o próprio meio da interpretação, cujo foco não se dá em termos de uma compreensão da existência, mas em termos da compreensão da linguagem, ou antes, de compreender a própria existência em termos de uma linguagem que nos interpela a partir de dentro dela
A linguagem não pode, portanto, ser concebida como objetivação, mas é ela mesma o que nos fala, devendo um texto, por conseguinte, ser examinado não em relação à intenção do autor, mas tendo em vista a matéria contida nele, que se dirige a nós e à qual respondemos com nossas palavras
A própria natureza do homem tem de ser definida como sendo linguística: ele existe, por ant-worten, respondendo com palavras, às reivindicações do Ser
Em Identidade e Diferença o termo hermenêutico retorna a seu sentido original, como a mensagem dos deuses transmitida por Hermes, desenvolvendo
Gadamer o motivo do Ser ser trazido à linguagem, o Ser vindo à linguagem ao se abrir
Isso se dá determinando a tarefa da reflexão hermenêutica em relação à linguagem como o meio, o recurso, o fundamento e o middle em e através do qual se realiza o diálogo
A linguagem não pode ser usada como ferramenta, como no caso da linguagem entendida como sistema de signos, pois ela já traz à revelação uma situação, ou a matéria de um texto, desvelando nosso mundo, o espaço que encerra e une os participantes de um jogo no qual apostam seus preconceitos
Da relação da linguagem com o mundo decorre sua factualidade específica: os fatos entram na linguagem
Não há mundo fora da linguagem
A análise linguística de nossa experiência do mundo é anterior a tudo o que é reconhecido e designado como entes, não significando a relação fundamental entre linguagem e mundo que o mundo se torne objeto da linguagem, estando antes o objeto do conhecimento e das afirmações já encerrado dentro do horizonte de mundo da linguagem, e a natureza linguística da experiência humana do mundo não inclui fazer do mundo um objeto
A circularidade aqui manifesta é novamente avaliada de modo positivo, sendo impossível olhar para a existência linguística de fora, pois não se pode ver um mundo linguístico de cima dessa maneira, não havendo ponto de vista fora da experiência do mundo na linguagem a partir do qual esta pudesse ela mesma tornar-se objeto
Essa linha de argumentação se funda na conexão entre linguagem e compreensão, não produzindo a linguagem a formulação de algo que já se poderia ter compreendido pré-linguisticamente, mas sendo antes o modo de Ser enquanto compreensão significativa como tal
Seu aspecto universal consiste nisto: não é o reflexo de algo dado, mas o vir-à-linguagem de uma totalidade de sentido, sendo o Ser que pode ser compreendido linguagem
Toda compreensão é linguística, e a linguisticidade da compreensão é a concreção da consciência histórica efeitual, dando-se o acordo emergente de um diálogo, como na interpretação de um texto, isto é, de uma matéria, no medium da linguagem
A fusão de horizontes pode agora ser vista como a plena realização da conversação, na qual se exprime algo que não é apenas meu ou de meu autor, mas comum
O horizonte do intérprete se funde ao sentido de um texto, ou à posição de um parceiro, sendo nesse sentido determinante sem, contudo, assumir um ponto de vista fixo, constituindo antes uma opinião e possibilidade aberta a mudanças ao encontrar as de um outro objeto, sendo somente assim que uma matéria pode vir à luz