BLEICHER, Josef. Contemporary hermeneutics: hermeneutics as method, philosophy and critique. London: Routledge, 1990.
Introdução
A obra de Betti representa a exposição mais sofisticada da teoria da hermenêutica, isto é, da metodologia da interpretação da mente objetiva, podendo a filosofia hermenêutica, em relação a essa abordagem, ser caracterizada por referência a seu tema fundamental, a interpretação do Dasein, deslocando-se a preocupação da interpretação objetiva para uma análise transcendental que, através da interpretação do Dasein, examina a constituição existencial da compreensão possível a partir do ponto de vista da existência ativa, modo de existência que não pode ser iluminado por empreendimentos metódicos e intersubjetivos, mas somente vem à luz no ato de autocompreensão
A diferença entre essa visão e a ênfase de Betti no autoconhecimento reside sobretudo no fato de que, para Betti, este nunca poderia ser mais que um resultado desejável da interpretação objetiva, ao passo que agora se refere ao evento em que o indivíduo percebe sua dívida com a tradição e sua responsabilidade pelo futuro, não sendo mais o resultado de conhecer algo que se congelou em objeto, mas indicando antes um novo modo de ser
Nessas poucas linhas já se deu à filosofia hermenêutica uma inflexão particular ao apoiar-se na concepção de Heidegger, mas visto que Ser e Tempo contém não apenas a primeira elaboração do tema subjacente às várias abordagens que, um tanto forçadamente, se agrupam sob o termo guarda-chuva de filosofia hermenêutica — a saber, a preocupação com questões fundamentais, teóricas, transcendentais — mas também fornece análises ainda hoje reconhecidas como relevantes, será apresentado primeiro um breve esboço daquilo que se concebe como a contribuição central de Heidegger ao debate em questão
Filosofia hermenêutica e teoria hermenêutica
A filosofia hermenêutica desenvolvida por Heidegger e Gadamer inclui dois elementos principais: uma filosofia transcendental, estabelecida como hermenêutica da faticidade em Heidegger e como hermenêutica filosófica em Gadamer, e a teoria da hermenêutica de Dilthey e Betti, à qual se conferiu um arcabouço filosófico
O argumento central da filosofia hermenêutica pode ser bem ilustrado pelo título do livro de Gadamer, Verdade e Método, tendo o método, desde Descartes, representado o caminho régio para a verdade no sentido de veritas e adaequatio intellectus ad rem, a correspondência entre fato e proposição, cuja verdade podia ser verificada por referência ao primeiro
Os procedimentos metódicos excluíam a intrusão de elementos externos, como os ídolos de Bacon, tornando-se a verificabilidade a medida das pretensões de conhecimento, elas mesmas baseadas na certeza decorrente da adesão a um método
A lógica apofântica está no cerne dessa concepção e guia a formulação de um juízo em que algo é predicado com um atributo, isto é, mostrado como é
A monumental reorientação heideggeriana da filosofia assenta-se em contrapor a essa verdade proposicional outro tipo, a aletheia, o desvelamento, abrindo Heidegger assim uma dimensão da experiência mais fundamental que a da aquisição metódica de conhecimento sobre entes
A ciência moderna, paralelamente ao conhecimento metafísico, ocupou-se das coisas à mão, Vorhanden, no nível ôntico, com o propósito de controlá-las e dominá-las, tendo a hermenêutica da faticidade fornecido uma explicitação ontológica do ser desses entes ao fundar a base transcendental da filosofia em um nível bem mais fundamental que o da epistemologia
Vieram à luz assim as precondições transcendentais ocultas da Lógica da Ciência, isto é, da Filosofia da Ciência, na forma da relação sujeito-objeto cartesiano-kantiana, bem como a estrutura prévia existencial do verstehen, que continha as noções de ser-no-mundo, In-der-Welt-sein, e ser-com, Mitsein, das quais Heidegger pôde valer-se em sua crítica ao idealismo epistemológico e ao solipsismo metodológico, já que estas se pressupõem na constituição dos dados da experiência
Após a virada de Heidegger, a linguagem se tornou a fonte do conhecimento, e a linguagem enquanto lógica revelou-se ela mesma fundada na linguagem enquanto desvelamento, empenhando-se o sujeito, no primeiro uso, pela certeza última através do pensamento conceitual, enquanto no segundo se apoia na linguagem para desvelar o ser dos entes e se abre ao sentido que habita a existência histórica
A linguisticidade do ser encontrou expressão em Gadamer em conceitos como Wirkungsgeschichte, história efeitual, Zugehörigkeit, pertencimento, Spiel, jogo, e Gespräch, diálogo, quase completamente intercambiáveis e que apontam para a possibilidade da verdade como desvelamento, ou Horizontverschmelzung, fusão de horizontes, como Gadamer a denomina
A linguisticidade de nossa experiência do mundo transcende toda relatividade e compreende todas as coisas em si mesmas, precedendo tudo o que é reconhecido e pronunciado como algo
As experiências derivadas metodicamente representam, por conseguinte, apenas uma forma secundária, abstraída da totalidade da existência humana e caracterizada pela indiferença em captar a essência das coisas através de determinações qualitativas
Tal abordagem das coisas subjaz à ciência metódica, que se ocupa de fenômenos que podem ser objetificados e controlados por um sujeito aparentemente autônomo, considerando as concepções cientificistas esse tipo de experiência a única legítima e associando a ela a independência da ciência em relação aos processos sócio-históricos
Ao referir-se à universalidade da experiência hermenêutica, Gadamer pôde superar tanto a metafísica dogmática, que na linha de Descartes a Kant e Hegel conduziu à absolutização do método, quanto as restrições cientificistas do conhecimento
O aspecto universal da filosofia hermenêutica
Na experiência obtida através do envolvimento com a arte, a filosofia e a história, Gadamer evidenciou a possibilidade de verdades que não podem ser verificadas pelos meios metódicos da ciência, envolvendo a tentativa de questionar sua legitimidade uma reflexão sobre o processo da compreensão e, com ela, o problema hermenêutico exemplificado pela circularidade da compreensão
Heidegger já havia considerado a compreensão como um modo de ser que subjaz e guia todas as investigações científicas metódicas, insight que Husserl exprimiu em referência ao mundo da vida pré-científico, chamando Gadamer as experiências nessa esfera de Welterfahrung, experiência do mundo, que não consistem no cálculo e na medição do que está simplesmente dado, mas em tornar-se consciente do sentido dos entes
Essa compreensão fundamental representa o campo da hermenêutica universal e assume a forma de uma dialética entre pergunta e resposta operando sobre a base fornecida pela linguagem, como se torna aparente quando os participantes de um diálogo chegam a um acordo sobre uma matéria
Outra forma de colocá-lo seria apontar para os jogos linguísticos em que a subjetividade dos jogadores é atraída para dentro e subordinada ao jogo jogado pela própria linguagem, que os interpela, sugere questões, nos questiona e se deixa questionar por nós, sendo absurdo, como nos jogos de linguagem a que Wittgenstein se referiu, tentar transpor um jogo praticado na ciência para as experiências do mundo da vida, ou legislar para qualquer um deles
Ao compreender, deixa-se que uma matéria nos interpele, sendo um evento em que algo significativo nos ocorre, ocorrendo também dentro de um contexto ao qual pertencem tanto o ouvinte quanto a matéria, caracterizando o pertencimento entre receptor e mensagem, entre intérprete e texto, a relação íntima existente nesse contexto, que se mostra agora formado pela tradição e pela linguagem
Toda atividade científica é, por conseguinte, guiada por algum pré-conhecimento embutido em nossa linguagem, fazendo-se sentir não só na formulação dos objetivos da ciência, o que exige discussões normativas, mas também na comunicação entre cientistas sobre os critérios para o teste bem-sucedido de hipóteses e, notavelmente, na formulação dos achados científicos em linguagem cotidiana, precondição para seu uso por outsiders
A compreensão que ocorre na ciência representa apenas um segmento da compreensão básica que subjaz a todas as nossas atividades e que contém condições de verdade anteriores às da lógica da ciência, cabendo perguntar se disso se pode derivar um argumento para a inadequação dos métodos científicos em alcançar resultados objetivos
Gadamer se esforça por dissipar essa visão equivocada, tendo sua reflexão hermenêutica trazido à luz as limitações de qualquer esforço em prol da objetividade impostas pelos elementos estruturais da compreensão, emergindo todo conhecimento de uma situação histórica em que a influência da tradição se faz sentir, mesmo na ciência, sob a forma de direções preferenciais de pesquisa
Esse reconhecimento, porém, não pode ser extrapolado para um questionamento da cientificidade de seus resultados, pois a ciência segue as leis de sua matéria e só pode ser julgada em relação a ela
Quando ela transgride sua esfera legítima de atividade, a dos objetos objetificáveis, e usurpa o papel de fornecedora de toda verdade, a consciência hermenêutica afirmará a legitimidade de uma disciplina de questionamento e investigação em que os métodos da ciência não têm domínio, reafirmando que o método não pode garantir a verdade, mas apenas assegurar graus de certeza sobre processos controláveis
A universalidade do problema hermenêutico não se refere apenas à situação histórica da ciência matemática mas, a fortiori, também às ciências sociais, sendo nestas o elemento de pertencimento entre intérprete e objeto de crucial importância para determinar a possibilidade de conhecimento objetivo nessa esfera
Betti via sua tarefa principal em esclarecer a relação entre compreensão e interpretação e em defender a objetividade desta última
A filosofia hermenêutica de Gadamer, por outro lado, forneceu intuições sobre a estrutura da compreensão que desafiam profundamente os resquícios objetivistas não só na obra de Betti, mas também nas abordagens sociológicas que partem da filosofia neokantiana, todas incapazes de dar conta adequadamente da historicidade do conhecimento, que Gadamer explicitou em termos da consciência da história efeitual, que busca refletir sobre seus próprios preconceitos e controlar sua pré-compreensão
A filosofia hermenêutica não se concentra na metodologia das Geisteswissenschaften, mas em sua relação com a totalidade de nossa experiência do mundo, não pretendendo, ao evidenciar a compreensão como característica fundamental da existência, restringir a compreensão disciplinada e habilidosa dos textos, mas apenas libertá-la de uma falsa autocompreensão
Como é imediatamente evidente, o intérprete que se ocupa de fenômenos históricos, e não ônticos, é ele mesmo parte da tradição ao abordar segmentos dela, não sendo aplicável a dicotomia sujeito-objeto entre res cogitans e res extensa em Descartes, sendo a compreensão parte de um jogo que se joga ao seu redor, evento que representa nada menos que a precondição de sua atividade científica
A partir de sua situação hermenêutica, o intérprete, ou cientista social, deriva uma pré-compreensão abrangente que guia as questões que formula dentro de um arcabouço de normas sociais, sendo seu ponto de vista inicialmente determinante e só depois de refletir sobre suas preconcepções imediatas ele pode excluir a influência mais direta de seu próprio ambiente
A neutralidade axiológica concebida, por exemplo, por Max Weber é, por conseguinte, desde o início inatingível, podendo resultar apenas em um decisionismo cego quanto aos objetivos da pesquisa, um irracionalismo que enterra a cabeça na areia de noções inadequadas sobre o papel do cientista social
Ela só pode ser sustentada com base em um nominalismo estrito incapaz de dar conta do uso das palavras na vida cotidiana, não sendo a compreensão uma construção a partir de princípios, mas o desenvolvimento do conhecimento adquirido de um contexto mais amplo e determinado pela linguagem que usamos
O fato de os conceitos técnicos do intérprete terem de mediar entre aqueles aparentes no objeto e os seus próprios impõe-lhe o dever de submetê-los a reflexão contínua, devendo evitar concepções correntes em sua época que exprimam viés de classe ou étnico e manter seus próprios conceitos abertos à correção no curso de seu contato próximo com a matéria
A distinção tradicional entre ciência natural e Geisteswissenschaften ganha base mais plausível quando considerada em termos do papel que a pré-compreensão desempenha em ambas
A linguisticidade de nossa experiência do mundo penetra nas ciências objetificantes sob a forma de preconceitos indesejáveis, largamente neutralizados pela adesão a uma metodologia quantificadora, mas juízos e proposições são apenas uma forma especial de atividade linguística e permanecem inseridos na totalidade da existência de onde as ciências humanas derivam sua esfera de investigação, sendo aqui o papel dos preconceitos positivo, na medida em que abrem possíveis campos de sentido no objeto
A historicidade da compreensão até aqui delineada refere-se a três aspectos: a mediação sócio-histórica da pré-compreensão, sua constituição de objetos possíveis e as decisões de valor formadas pela práxis social
Betti e Hirsch, em 1965, atacaram essa noção e temem a intrusão injustificada de elementos subjetivos naquilo que poderia ser uma interpretação objetiva
Suas visões parecem repousar, contudo, em um equívoco sobre o papel da pré-compreensão em particular e da hermenêutica filosófica em geral, tendo ambos os autores simplesmente perdido o ponto ao não reconhecer que esta última não pretende interferir na interpretação habilidosa de textos, mas apenas mostrar o que ocorre em toda compreensão, devendo a condução adequada da pesquisa hermenêutica estar ciente tanto dos aspectos negativos quanto positivos do papel da pré-compreensão
A crítica do método
Os pensamentos do intérprete já se fundiram com a matéria quando ele tenta chegar ao sentido de um texto, mas essa função inicial de seu ponto de vista não implica, evidentemente, que ele tentará obstinadamente manter suas pré-noções diante do sentido textual que se desdobra
Como indicam a descrição da fusão de horizontes e a noção de jogo, a compreensão só pode ser bem-sucedida na revisão constante do próprio ponto de vista, o que permite à matéria emergir
Os preconceitos mantidos pelo intérprete desempenham, portanto, o papel importante de abrir um horizonte de perguntas possíveis, sendo a marca de um empreendimento verdadeiramente científico a tentativa de trazê-los à consciência
Betti tem razão, por outro lado, ao temer pelo cânone da autonomia do texto, tendo Dilthey já reconhecido a fixidez do sentido de um texto tal como o autor o pretendeu como precondição da interpretação objetiva do sentido
Em Schleiermacher, uma concepção semelhante conduziu ao princípio de uma afinidade de mentes que faria justiça à estatura intelectual do autor
A hermenêutica esteve, assim, sempre atada a essa concepção específica de sentido como a intenção do autor, alcançável através da inversão do processo de criação, estando intimamente ligada a essa visão a máxima de que o autor poderia ser compreendido melhor do que ele mesmo se compreendeu, o que trai as raízes que o historicismo tem no Iluminismo e em sua convicção da superioridade do presente como ápice transitório de um desenvolvimento rumo à autodeterminação da Razão
Gadamer discorda fundamentalmente, exemplificando, ao tratar a compreensão como evento dialógico, que tal comunicação ocorre apenas na forma de uma mediação entre passado e presente, a fusão do horizonte de um texto e do intérprete
Uma vez concluída, uma obra de arte não pode mais estar atada a seu criador, devendo ser vista como assumindo uma existência própria que pode incorporar intuições das quais o autor talvez não estivesse consciente
Em oposição a inverter o processo de criação, a compreensão tentará extrair a matéria contida no texto e trazê-la à expressão, seguindo a atividade do intérprete a lógica de pergunta e resposta e proporcionando ao objeto a possibilidade de ressoar com sentido novo e ampliado
O contexto da tradição assim retorna à vida, não na forma de uma repetição da experiência que o percebedor original possa ter obtido dela, mas de um modo novo: emerge algo que antes não estava lá
A concepção de uma existência em si de um texto é, portanto, bastante incorreta e revela um elemento de dogmatismo, sendo isso o que Gadamer quer dizer ao falar do caráter especulativo das interpretações que não se restringem à abordagem metódica
As palavras usadas pelo intérprete têm sua origem no contexto da linguagem, que forma uma aura de sentidos bastante singular, devendo a apropriação do sentido textual ser considerada não tanto um esforço duplicativo, mas uma criação genuína em si mesma, sendo cada apropriação diferente e igualmente válida
Daí pode Gadamer sugerir que compreender a literatura não é um remeter-se de volta a eventos passados, mas uma participação aqui e agora naquilo que está sendo dito, o compartilhamento de uma mensagem, o desvelamento de um mundo
Cabe perguntar que intuições relevantes se podem derivar da filosofia hermenêutica de Gadamer a respeito dos demais cânones de Betti
A necessidade de participar do evento da compreensão parece à primeira vista coberta pelo cânone da atualidade da compreensão, mas um olhar mais atento evidenciará o ponto crucial de que Betti não consegue dar conta sistemática do papel constitutivo do sujeito
Ao exigir o interesse ativo do intérprete pelo autor e sua obra, seguindo a máxima hermenêutica de que só se pode compreender, e por conseguinte só se deve tentar interpretar e traduzir, uma obra com a qual se está, ao menos potencialmente, de acordo, Betti não situa o sujeito historicamente como participante de uma tradição, de um discurso universal, podendo assim conceber os conceitos que emprega inicialmente como instrumentais e potencialmente prejudiciais à objetividade da interpretação
É, em todo caso, a historicidade da compreensão que Betti vê negativamente como o fator que permite apenas objetividade relativa, considerando ele, paradoxalmente, o processo de interpretação em termos de um esquema aparente em todas as formas de cognição, tal como fez Gadamer, mas sem conseguir escapar da relação sujeito-objeto mesmo quando outra mente nos interpela
Seu ponto de vista historicista só pode aproximar-se assintoticamente da concepção hermenêutica do Outro, devendo mesmo a consideração do processo de compreensão interpretativa, envolvendo o reconhecimento e a reconstrução da intenção e do processo criacional de um autor, permanecer dentro de uma concepção psicologista que desmonta e depois reconstitui a expressão humana de modo quase mecânico
O paradoxo referido reside, por conseguinte, no fato de que, apesar de sua postura profundamente humanista, Betti permanece incapaz de considerar o Outro como outro sujeito com exigências igualmente fortes de ser reconhecido, ouvido e concordado, estando sujeito e objeto irremediavelmente atados no processo de compreensão, para o bem ou para o mal
Quanto aos outros dois cânones, pode-se afirmar brevemente que o referente ao objeto de interpretação, o da coerência de sentido, representa uma forma secundária e metodologicamente diluída do círculo hermenêutico já discutido, só podendo ter uso heurístico em vez de conduzir a uma consciência da história efeitual
Já o cânone da adequação de sentido pode ser mais facilmente tratado por referência à teoria dos tipos ideais de Max Weber, em que ele contrapõe um corpo de conceitos genéticos à explicação causal e trata das questões em torno da relação entre sujeito e sentido histórico em termos da exigência de sinnhafte Adäquanz, adequação significativa, contornando assim habilmente qualquer confronto com a questão do historicismo
Ao concluir este capítulo, cabe perguntar que intuições a investigação de Gadamer sobre a interpretação rende para uma melhor concepção do processo de compreensão, lembrando que Betti considerava essa questão a razão de ser de sua própria obra
Betti, em suma, concluiu que tanto a interpretação quanto a compreensão se desenvolvem em um processo triádico envolvendo um autor e um sujeito percebedor, ambos mediados por formas plenas de sentido, servindo a interpretação objetiva, em relação à compreensão, como meio para um fim
Como vê Gadamer a questão? De fato, ele atrai a ira de Betti ao colapsar não só interpretação e compreensão uma na outra, mas ao introduzir ainda a aplicação como o terceiro momento daquilo que é, essencialmente, um fenômeno unitário
Gadamer propõe-se a legitimar as pretensões de verdade do conhecimento derivado de esferas de experiência extracientíficas por meio da reflexão sobre o fenômeno da compreensão, fazendo-o à luz de sua visão de que a ciência, tanto social quanto natural, preenche hoje, sob a figura do especialista, o vácuo deixado pela desintegração das interpretações religiosas da existência humana e pelo declínio da tradição como fonte de orientação
Isso equivale a dizer que a conclusão bem-sucedida dessa tarefa reivindicaria igualmente um espaço para a prudência e a práxis consequente, em oposição ao avanço constante do conhecimento técnico e da prática instrumental
É evidente que o campo da hermenêutica representa o terreno de prova, ou o último bastião, para debates não cientificistas sobre valores e normas, adquirindo a esfera da interpretação sua significância para o desenvolvimento social porque é ali que se alcança a compreensão comunicativa sobre os fins e o propósito da existência social
As Geisteswissenschaften historicistas caracterizaram-se por sua tentativa de assimilar o processo de pesquisa no campo das objetivações do espírito, especialmente na história, aos padrões das ciências naturais
Betti argumentou com força contra um equívoco nessa visão, que deixa de dar conta da especificidade do objeto das Geisteswissenschaften, o qual requer um reconhecimento e uma reconstrução internos e depende, portanto, da espontaneidade do sujeito percebedor
Nesse sentido, Betti pôde rejeitar o caráter abertamente objetivista da escola histórica em torno de von Ranke, mas pode-se argumentar que sua preocupação em salvar ao menos uma objetividade relativa por meio do emprego de um conjunto de cânones representa um resíduo da abordagem cientificista aplicada à esfera não natural
Gadamer vinculou corretamente a ciência ao método, desenvolvimento originado com Galileu, cuja introdução no processo hermenêutico só pode levar à objetificação do objeto e ao domínio do sujeito sobre ele, fornecendo ao mesmo tempo a base para abordagens livres de valor no tratamento da matéria e neutras quanto ao uso de seus resultados, tornando estes abertos à reexaminação por outras partes interessadas capazes de verificar sua correção seguindo as mesmas vias de investigação
Na teoria da interpretação, essa concepção deu origem à distinção entre interpretação e aplicação, isto é, entre teoria e prática
Em contraste, a unidade entre compreensão, interpretação e aplicação também pode ser sustentada e demonstrada brevemente
Intellegere e explicare encontram sua unidade na fusão de horizontes que caracteriza toda compreensão verdadeira, implicando esse evento que um texto, por exemplo, é criado de novo em uma interpretação guiada por um horizonte de compreensão que ele mesmo muda no curso de sua atividade
Dito de outro modo, a linguisticidade da compreensão torna a interpretação especulativa, na medida em que o conteúdo de um aspecto da tradição ganha voz e se capacita a nos comunicar sua verdade em termos inteligíveis para nós e consonantes com nossas experiências de vida
A compreensão da tradição não pode limitar-se à aquisição de conhecimento sobre um texto específico, encontrando antes sua realização no reconhecimento de verdades e intuições, sendo dirigida a, e fundada sobre, a história efeitual, e fazendo, por isso, parte de seu objeto de tal modo que o passado é constantemente reinterpretado ou, o que é o mesmo, compreendido de modo diferente
Atribuir ao primeiro estatuto objetivo e considerar o segundo mera repositório de itens de conhecimento é consequência de reduzir a experiência dialógica a uma atividade de pesquisa monológica
A distinção entre aplicação normativa, interpretação recognitiva e reconstrutiva, e reprodução é igualmente rejeitada por Gadamer
A reprodução, ele considera, é inicialmente interpretação visando a uma visão correta e é, portanto, também uma forma de compreensão, não constituindo uma recriação, mas antes permitindo que uma obra de arte venha a ser plenamente ela mesma
Uma vez que a compreensão sempre contém interpretação, não pode haver diferença de princípio entre a interpretação de um texto musical e a de um texto filológico, ocorrendo em ambos os casos no medium da linguagem e se fundindo na imediaticidade da verdade
No caso da aplicação normativa, Betti parece estar em terreno firme ao afirmar que a interpretação na jurisdição e na teologia parte de um ponto de vista dogmático que exige a aplicação de um contexto de sentido objetivo a uma situação particular
Gadamer argumenta ser impossível distinguir claramente a interpretação dogmática da histórica, pois, no caso da hermenêutica jurídica, um historiador do direito e um jurista abordam um texto legal a partir do ponto de vista da situação jurídica presente e consideram sua relevância a partir dessa perspectiva, mediando ambos entre passado e presente
O historiador não pode excluir os efeitos contemporâneos de uma lei cuja história está a rastrear, enquanto o jurista tem de determinar a intenção original do legislador antes de poder tirar conclusões para o presente
Igualmente, o sermão de um teólogo representa a concreção da Boa Nova, na medida em que explicita uma verdade recebida
A aplicação, como mediação entre passado e presente, aparece assim como o terceiro momento da unidade entre compreensão, interpretação e aplicação que constitui o esforço hermenêutico: a compreensão adequada de um texto, correspondente à sua pretensão e mensagem, muda com a situação concreta a partir da qual se realiza, sendo sempre já uma aplicação
O entrelaçamento entre compreensão e aplicação é ainda esclarecido por Gadamer mediante referência à descrição aristotélica da oposição entre phronesis, de um lado, e episteme e techne, de outro
A phronesis, prudência, como conhecimento prático, é conhecimento internalizado que não pode ser esquecido quando não é necessário no momento, não podendo, por conseguinte, o conhecimento prático ser aceito sem preconceito
Como conhecimento orientado à ação, não se dirige a fins particulares como o saber técnico; máximas de ação têm de ser aplicadas a situações mutáveis, pelas quais o conhecimento original é ele mesmo desenvolvido
Essa relação entre phronesis e compreensão aplicativa subjaz ao trabalho do intérprete ocupado com a tradição, sendo sua unidade garantida pela dependência da compreensão em relação à estrutura dos preconceitos
A filosofia hermenêutica de Gadamer representa evidentemente uma gigantesca reorientação da hermenêutica ao libertá-la das restrições que ela mesma se impunha em sua busca estreita por objetividade metodicamente assegurada
Ao mesmo tempo, forneceu uma perspectiva para se ver o progresso científico em geral em termos da universalidade do aspecto hermenêutico, exposta em linhas paralelas pela concepção de Kuhn sobre revoluções científicas orientadas por paradigmas
A reflexão hermenêutica sobre a história efeitual que subjaz a todo pensamento representa não só uma crítica do objetivismo do historicismo, mas também do fisicalismo subjacente ao ideal de uma Unidade da ciência, sem contudo por um momento sequer contestar o caráter científico do resultado alcançado sob os auspícios do historicismo e da lógica positivista da ciência
O próximo capítulo listará críticas a essa parte da obra de Gadamer em conjunto com outra, tendo Habermas e Apel criticado Gadamer por sua aceitação — que consideram acrítica — do papel da tradição como autoritativa para as preocupações presentes, juntamente com sua ontologização da linguagem, que deixa de reconhecer seu uso como medium de dominação
A crítica da ideologia tenta rastrear interesses suprimidos que foram excluídos do diálogo contínuo entre passado e presente, sendo a Razão de novo reafirmada como a agência inquieta pela autoautonomia em conflito com a tradição e a autoridade