Estupidez e ignorância

(BEISTEGUI, Miguel de. Thought under threat: on superstition, spite, and stupidity. Chicago (Ill.): University of Chicago press, 2022)

A Universidade de Warwick, onde lecionei por muitos anos, é protegida por uma grande escultura de aço inoxidável retorcido de Richard Deacon. Como uma criatura mitológica, ela adverte os transeuntes com as palavras “Let's Not Be Stupid” (Não sejamos estúpidos). Como, você se pergunta, devo interpretar esse título desconcertante: como um aviso, um convite bem-humorado, uma provocação, uma exortação? Desde a Academia de Platão, as instituições acadêmicas têm se dedicado à busca do conhecimento e da verdade. Elas adotaram lemas nobres e ambiciosos, como Crescat Scientia, Lux et veritas ou simplesmente Veritas. No entanto, apesar de toda a sua aparente falta de ambição e clareza, eu gostaria de abraçar e defender o título de escultura de Deacon. Pois não consigo pensar em um lema melhor para uma instituição acadêmica do que um que nos proteja contra esse oponente “feio” ou “básico” (κακόν), que, segundo Sófocles, é o mais difícil de combater e talvez mais traiçoeiro do que a ignorância e o erro. Quando nos deparamos com a estupidez, seja ela própria ou de outra pessoa, nos sentimos desarmados, perdidos, incapazes de reagir e de nos envolver. De certa forma, poderíamos dizer que a busca do conhecimento e da verdade, com os quais as instituições acadêmicas tendem a se identificar, é simplesmente o outro lado da luta contra a estupidez. Ao fazer isso, no entanto, estaríamos confundindo ignorância e estupidez. Pois não é possível ser ignorante sem ser estúpido e, ao contrário (e talvez de forma mais controversa), instruído e estúpido ao mesmo tempo? E a ignorância, pelo menos o tipo que se reconhece como tal, não é já uma forma de sabedoria, como acreditavam Sócrates e Cusanus? Nesse caso, precisaríamos distinguir entre dois tipos de ignorância: o tipo banal ou grosseiro (nescentia vulgaris), que é indesculpável (mas perdoável) e pode ser facilmente remediado, pois é a ignorância do que é eminentemente conhecível (Meno); e o tipo que excede a oposição entre conhecimento e ignorância, a ignorância erudita (docta ignorantia, gnose nesciente), da qual, em seus Nomes Divinos, o Pseudo-Dionísio, o Areopagita, nos diz que é o caminho tenebroso para o conhecimento e a iluminação. Mas há um terceiro e mais relevante tipo de ignorância, que Jankelevitch descreve como “erudita, pedante e pretensiosa”. Ela não pode ser reduzida nem à inconnaissance, que é a mera falta de conhecimento, nem à docta ignorantia, que é o caminho para o conhecimento genuíno. É a meconnaissance autossatisfeita, pontificadora e conquistadora: opaca, carregada de preconceitos (préjugés) e banalidades (lieux communs), cheia de estereótipos e clichês (Tenente Pirogov). É também, e mais grave, como diz Charles W. Mills, a forma cega, militante, agressiva e desagradável que sustenta a ignorância branca (ou masculina), o tipo de ignorância que também é um tipo de conhecimento e que outro filósofo crítico da raça descreve como o “centro invisível (ou não reconhecido)” a partir do qual os brancos, e especialmente os filósofos brancos, falam, escrevem e ensinam — o centro a partir do qual tudo faz sentido. O meconnaissant, conclui Jankelevitch, reivindica uma ciência como sua, mas de forma estúpida (sottement). É com esse tipo de estupidez — estupidez no conhecimento — que me preocuparei principalmente. E se menciono raça, racismo e seu lugar no discurso filosófico, é porque espero demonstrar que o conceito de raça de Kant, sobre o qual muito se escreveu, é um conceito estúpido. A lição a ser tirada será que existe algo como um conceito estúpido, ou seja, momentos estúpidos ou pontos cegos — um fulcro invisível, para usar a imagem de Yanci — no centro de toda construção teórica, e dentro de mim mesmo.


1. a Universidade de Warwick, onde se lecionou por muitos anos, é guardada por grande escultura de aço inoxidável retorcido de Richard Deacon que adverte os transeuntes com as palavras “Não Sejamos Estúpidos”, propondo-se abraçar e defender esse título, aparentemente desprovido de ambição, em vez dos lemas nobres tradicionais (Crescat Scientia, Lux et Veritas, Veritas), por não haver melhor lema para uma instituição acadêmica do que um que nos previna contra esse oponente “feio” ou “vil” (κακόν) que, segundo Sófocles, é dificílimo de enfrentar, e talvez mais traiçoeiro do que a ignorância e o erro.

2. distinguem-se três tipos de ignorância: a banal ou grosseira (nescentia vulgaris), indesculpável mas facilmente remediável, por ser ignorância do que é eminentemente cognoscível (Mênon); a que excede a oposição entre saber e ignorância, a douta ignorância (docta ignorantia, nescient gnosis), que, segundo o Pseudo-Dionísio Areopagita em Os Nomes Divinos, é o caminho tenebroso ao conhecimento e à iluminação; e um terceiro tipo, mais relevante, que Jankélévitch descreve como “erudito, pedante e pretensioso”, irredutível tanto à inconnaissance de mera falta de saber quanto à docta ignorantia, caminho ao saber genuíno.

3. para ilustrar sua teoria da docta ignorantia, e sua crítica ao tipo culto porém mal informado, Cusano escreveu deliciosa série de três diálogos filosóficos, os De idiota (1450), que opõem um “Idiota” a um “Orador” e a um “Filósofo”.

4. seria igualmente enganoso reduzir a estupidez à mera falta de inteligência ou julgamento, identificando o estúpido com o simplório ou o obtuso, sendo o tipo de estupidez a explorar mais complexo e bem mais nocivo, e de certo modo dissociado de um mero traço de caráter.

5. primeiro, não se pretende criticar a estupidez como o oposto da inteligência, ou mesmo do saber, e portanto como armadilha ou vício do qual a filosofia estaria, em princípio, imune — há muita inteligência ao redor, escreve Musil em O Homem sem Qualidades, tanta que “um pouco mais ou menos não faz diferença real”.

6. quanto às duas observações: primeiro, poder-se-ia dizer da estupidez o que Agostinho diz do tempo — certamente sentimos saber o que é, e facilmente a reconhecemos, mas ficamos perdidos ao tentar defini-la; segundo, e possivelmente relacionada, o tema da estupidez está notavelmente (embora, como se verá, não inteiramente) ausente das discussões filosóficas, sobretudo se levarmos a sério a sugestão anticartesiana de Flaubert (e, mais recentemente, de Umberto Eco) de que não é o bom senso, mas a estupidez, a faculdade mais igualmente distribuída.

I. A Questão

7. a questão principal é saber em que ponto, ou sob que condições, a estupidez se torna problema filosófico, dependendo tudo, naturalmente, do que se entende por filosofia, sendo uma das teses centrais que a estupidez só pode tornar-se problema filosófico genuíno se estivermos dispostos a questionar alguns de nossos pressupostos sobre o que é a filosofia — a saber, o fato de a filosofia ocidental ser essencialmente uma filosofia da verdade, preocupada primeira e principalmente com a verdade, com como a ela chegar, e com as condições sob as quais algo pode ser dito verdadeiro, podendo ser amplamente definida como analítica ou sistema de verdade.

8. tivesse Kant buscado exemplos para ilustrar sua Crítica da Razão Pura, e suas observações sobre a estupidez em particular, poderia ter recorrido às Metamorfoses de Ovídio, no Livro XI, em que o Rei Midas é descrito como herói obtuso ou estúpido (stultus) que não aprende com seus erros: tendo tido seu tolo desejo de que tudo o que tocasse se transformasse em ouro concedido por Apolo, e tendo recebido segunda chance ao perceber que logo morreria de fome, Midas contesta o veredicto do juiz favorável à lira de Apolo na disputa que opõe o deus às flautas de Pã, chamando-o injusto, e Apolo, sem se divertir, transforma as orelhas do rei nas de um asno.

9. diferentemente da Crítica da Razão Pura, a Antropologia de um Ponto de Vista Pragmático fornece profusão de exemplos e estudos de caso, inclusive sobre a diferença entre ignorância e estupidez, definindo ali Kant a estupidez (stupiditas) como “a falta do poder de julgamento sem espírito” (sendo a mesma falta com espírito chamada tolice): a ignorância não é estupidez, respondendo certa dama à pergunta de um acadêmico, “Os cavalos também comem à noite?”, “Como pode um homem tão culto ser tão estúpido!”.

10. o fato de a estupidez praticamente não ter lugar numa analítica da verdade como tema ou problema não significa que tal analítica seja suficiente para prevenir a estupidez, sugerindo-se antes que diversos sistemas de verdade ou racionalidades específicas em que aprendemos a confiar — incluindo o do próprio Kant — não são eles mesmos imunes à estupidez.

11. a “descoberta” da norma genital, reprodutiva e heterossexual foi seguida quase imediatamente pela criação de um sistema corretivo e mais ou menos coercitivo destinado a impô-la, tendo médicos concebido instrumentos e tecnologias para curar homossexuais ou crianças suspeitas de masturbação, variando essas medidas do bastante tolo, como a prescrição de visitar prostitutas, ao bastante cruel, como tratamentos farmacológicos ou eletrochoque no cérebro ou nos genitais — a estupidez é nociva.

12. em livro recente, Quassim Cassam menciona exemplo diverso mas igualmente válido: o dos Quatro de Guildford, injustamente condenados pelos atentados a bomba em pubs de Guildford em 5 de outubro de 1974, tendo a condenação sido anulada em 1989, após cumprirem 15 anos de prisão.

13. voltando-se à própria filosofia, e à antropologia filosófica em particular, parafraseando a observação de Chris Mullen sobre Lord Roskill, jamais se ouviu sugerir que Kant seja estúpido, abundando, contudo, momentos de estupidez em sua obra, considerando-se suas reflexões sobre a diferença sexual ou os traços nacionais de seus períodos pré-crítico e crítico.

14. Kant não é, de modo algum, caso isolado, podendo-se muito bem imaginar reunir um Dicionário de Lugares-Comuns dos Filósofos ao estilo Flaubert, figurando nele, sem dúvida, Heidegger, que certa vez descreveu sua própria adesão inicial e completa ao Nacional-Socialismo como “a maior estupidez de minha vida [die größte Dummheit meines Lebens]”, dada sua propensão, nos anos 1930 e 1940, a falar da Europa, do Ocidente, dos alemães, franceses, britânicos, russos ou americanos nos termos mais gerais e em regra vazios.

15. quanto ao nacionalismo e à política nacionalista como forma de estupidez, Nietzsche já via tudo vindo, suspirando de antemão: se um povo sofre e quer sofrer de fervor nervoso nacionalista e ambição política, deve-se esperar que toda sorte de nuvens e distúrbios — em suma, pequenos ataques de estupidez [kleine Anfälle von Verdummung] — passem por seu espírito de quebra: entre os alemães de hoje, por exemplo, ora a estupidez antifrancesa, ora a antijudaica, ora a antipolonesa, ora a cristã-romântica, ora a teutônica, ora a prussiana.

16. os exemplos de estupidez mencionados até aqui empalidecem, contudo, diante das observações kantianas sobre raça, retomadas ao final deste capítulo, remetendo, em última análise, a um tipo mais fundamental de estupidez do que os já mencionados, tipo que o próprio Kant identificou como deficiência de julgamento, citando-se passagem frequentemente citada de suas primeiras Observações sobre o Sentimento do Belo e do Sublime.

17. contrariamente às aparências, o tipo de estupidez em jogo nos exemplos mencionados é precisamente aquele que tanto ocupava Musil — isto é, a estupidez “inteligente” e mesmo “científica”, bastando notar, nesta fase inicial, que a estupidez de Kant não exclui a ciência ou um discurso de verdade de algum tipo: o uso kantiano da palavra “prova” indica que, a seu ver ao menos, pode ser estabelecida conexão científica entre a cor da pele e a inteligência (ou sua falta).

18. deveríamos seguir a própria definição kantiana, atribuir sua estupidez — se é isso que está em questão — a uma deficiência de julgamento, e entendê-la como obtusidade ou tolice, como irreflexão ou insensatez? Ou, antes de descartar a estupidez como falta de julgamento (talvez apenas momentânea) da qual, em princípio, ninguém está imune, e para a qual não há cura, deveríamos olhar alhures e pensar a tarefa primária da filosofia como o reconhecimento e a esquiva da estupidez, e não do erro, identificando mesmo a estupidez em, e como, certos tipos de julgamento, senão numa certa compreensão filosófica do próprio julgamento, sobre o papel e o valor atribuídos a certo tipo de julgamento?

19. duas condições (relacionadas) precisam ser satisfeitas para que a estupidez se torne questão filosófica e assuma a forma: “como é possível a estupidez?” Primeiro, precisamos reconhecer a estupidez não como mera condição empírica, mas como força transcendental, contra a qual precisamos lutar a fim de pensar, sendo a estupidez o estado em que naturalmente nos encontramos, nossa posição padrão, por assim dizer, e na qual constantemente arriscamos recair.

20. o segundo ponto é a necessidade de definir a filosofia não (ou ao menos não apenas e principalmente) como analítica da verdade, isto é, como analítica de proposições e discursos, mas como dialética e pedagogia de problemas, usando-se aqui “dialética” no sentido aristotélico, e não kantiano — isto é, como a arte dos problemas e das questões, tal como definida nos Tópicos.

21. a tese central é que a estupidez não é nem mero semblante ou imitação da verdade (como a sofística), nem ilusão natural e inevitável da razão enquanto falso saber, mas força transcendental que pode disfarçar-se de, e assim ser encontrada dentro de, discursos de verdade — não pertencendo sua crítica nem a uma analítica da verdade, nem a uma dialética da ilusão, mas a uma dialética dos problemas.

22. a dialética dos problemas é também indistinguível da ideia de pedagogia, contrastando-se novamente com a analítica kantiana da verdade, e com o que Kant chama método ou disciplina da razão: com o método ou disciplina corretos, argumenta-se (kantiana ou cartesianamente), a verdade é alcançável, ao menos em princípio, significando isso que tudo o que se exige da filosofia é a construção do método correto, precisamente na medida em que a verdade é alcançável de jure.

23. mas como se aprende? Distinguindo problemas bem colocados de problemas mal colocados, problemas reais de pseudoproblemas, questões triviais, ordinárias ou insignificantes de questões notáveis, singulares ou interessantes, precedendo, como tal, a capacidade de aprender todas as formas de saber, e a distinção verdadeiro/falso que caracteriza o saber, sendo condição necessária ao saber, mas não o saber como tal.

24. Wittgenstein leva essa ideia adiante, considerando o exemplo de um aluno e um professor: o aluno — ecos do qual encontraremos nos personagens profundamente estúpidos de Flaubert, Bouvard e Pécuchet — ansioso por impressionar professor e colegas, “não deixa que nada lhe seja explicado, pois continuamente interrompe com dúvidas, por exemplo quanto à existência das coisas, o significado das palavras etc.”, respondendo o professor, ou querendo responder: “pare de me interromper e faça o que eu digo. Até agora suas dúvidas não fazem sentido algum”.

25. a razão por que não sabemos o que fazer com perguntas estúpidas é que somos incapazes de ver os problemas a que se referem, e por boas razões: não há um, ou está tão mal colocado que nem sequer conseguimos engajar-nos com ele.

26. a conclusão preliminar é que o processo de aprendizagem e a arte das perguntas que implica precedem e sustentam a aquisição do saber, permitindo-nos a estupidez — sua própria existência, e o problema que coloca — perceber que, longe de estarmos em posição de pensar desde o início, longe de possuirmos faculdade de pensamento pronta aguardando ser ativada por combinação de boa vontade e método adequado, precisamos aprender a pensar formulando boas — isto é, produtivas — perguntas e evitando as más ou estéreis.

27. mas haverá regras a seguir para colocar um problema, ou para distinguir problemas verdadeiros de falsos? Existirá um manual ou receita que nos ensine a pensar? Parte da dificuldade reside no fato de os filósofos (Kant em particular) terem tradicionalmente definido a verdade de um problema por sua capacidade de receber solução, medindo-se a “verdade” de um problema pela possibilidade de sua solução.

28. tudo o que se disse até aqui aponta na direção de uma definição da estupidez como “a faculdade dos falsos problemas”, concedendo-lhe, ao dizer que a estupidez é uma faculdade ou poder, status transcendental, localizando a fonte do saber numa faculdade de problematização, que pode ela mesma ser submetida ao teste do verdadeiro e do falso.

29. enquanto não controlarmos os próprios problemas, ou não participarmos da construção dos problemas, permanecemos infantilizados, senão em estado de servidão, não se reduzindo a liberdade de pensar à liberdade de decidir a favor ou contra soluções já selecionadas para nós, sendo antes a liberdade de engajar-se na disputa sobre a urgência, significação e veracidade dos próprios problemas, a liberdade de engajar-se na construção de questões e problemas — pois problemas são, como catedrais e sinfonias, construídos, sendo preciso ser estúpido para pensar diversamente.

30. a estupidez como ditame do das Man, encontrando-se ecos desse ponto deleuziano na seguinte passagem de O Homem sem Qualidades de Musil, em que Agathe reflete sobre sua própria confusão enquanto aluna: era assim que aprendia suas lições na escola, de modo que jamais sabia se era estúpida ou inteligente, aluna disposta ou relutante: tinha facilidade em chegar às respostas esperadas dela sem jamais ver o sentido das perguntas, das quais se sentia protegida por indiferença profundamente enraizada.

31. Kant foi talvez o primeiro filósofo a reconhecer a existência de problemas sem soluções, ou ao menos do tipo que os metafísicos clássicos buscaram por séculos, precisando nós, por nossa vez, reconhecer a existência de soluções sem problemas, tendo parte do empreendimento crítico kantiano sido pôr fim a tal disparate metafísico e a becos sem saída filosóficos.

32. a estupidez pode assim ser vista como o processo que separa o pensamento de seu próprio poder, e as soluções (entidades individuadas) de seu campo problemático, sendo assim que cientistas sociais acabam por ver criminosos como indivíduos malvados, e os próprios indivíduos como agentes morais que não são o resultado, mas a base, de todas as formações sociais.