Vida

BEISTEGUI, Miguel de. The New Heidegger. London: Bloomsbury Publishing, 2005

1. relata-se, na infância, um pesadelo recorrente em que o sonhador era lentamente atraído para um cômodo escuro (ou, em outra versão, inundado de luz branca), até que a escuridão (ou a brancura) se aprofundava a ponto de revelar não haver cômodo algum, nada a identificar nele, absorvendo-se inteiramente o olhar naquele negro ou branco cada vez mais profundo em que todas as coisas — incluindo o próprio olhar — se dissolviam, ameaçando engolir o eu inteiro, sem que, contudo, a morte ocorresse, permanecendo intensa a consciência da própria presença e de todo o próprio ser, ainda que de modo extremamente doloroso, não havendo nada a ver, nada a que se agarrar, reconhecer ou descobrir — nem mesmo a mais assustadora das coisas —, sendo, nesse ponto, a presença de qualquer coisa, por mais sinistra que fosse, infinitamente reconfortante em comparação com essa luz pura que envolvia o sonhador como um pano pesado, esgotando-o e ameaçando sufocá-lo.

2. tal pesadelo, embora possa parecer pouco, era absolutamente aterrorizante, despertando o sonhador em suor, petrificado, com força apenas suficiente para chamar pela mãe, que, ao perguntar o que havia de errado, recebia como resposta uma descrição insossa e incapaz de corresponder ao estado emocional extremo vivido, como se a própria linguagem falhasse diante dessa ameaça sem rosto, forçando a descrever coisas concretas e reais quando, propriamente falando, não havia nada a descrever — concluindo a mãe, naturalmente, não haver quase nada no sonho, o que, paradoxalmente, era inteiramente correto: não havia mesmo nada nele, nenhum monstro, nenhuma perda, nenhuma morte de ente querido, nenhuma separação, nenhuma discussão — nada.

3. pergunta-se, contudo, se não seria justamente esse o cerne da questão: poderia um sonho sobre — e, portanto, uma experiência de — nada ser infinitamente mais pavoroso, infinitamente mais perturbador e estranho do que um sonho sobre algo, por mais aterrorizante que fosse? Não havia, de fato, nada a temer, mas seria a ausência de algo específico razão suficiente para descartar a própria experiência, ou seria a ausência de todas as coisas, o fato de ter sido negado o acesso a qualquer coisa em particular, a própria chave do sentido da experiência — indicação de que, por mais paradoxal que pareça, os seres humanos podem experienciar o próprio nada?

4. tais questões, evidentemente, não podiam ser formuladas na infância, restando apenas esperar que o mal-estar e a ansiedade profundos recedessem para, então, voltar a dormir; contudo, experienciara-se e, de certo modo, descobrira-se já então o fundamento — ou, talvez melhor, o abismo — de onde, muitos anos depois, tais questões haveriam de brotar, sendo apenas ao deparar-se, como graduando, com a conferência de Heidegger “O Que É Metafísica?” (1929) que se pôde finalmente compreender o sentido daquele velho pesadelo recorrente, sentido que a leitura de Freud não ajudara a esclarecer.

5. a vasta literatura sobre sonhos e sua significação sempre os entende como mensagens codificadas, sinais escritos em linguagem misteriosa que apenas o especialista está apto a decifrar, sendo sempre pensados como referentes a algo, especialmente a desejos e temores ocultos e reprimidos, essencialmente metafóricos; Heidegger, por outro lado, praticamente nada diz sobre sonhos, mas leva a sério a possibilidade da experiência de “algo” que chamamos “nada” — não apenas essa possibilidade de que há algo no nada, mas toma-a como pista decisiva para investigar quem somos, desvelando o sentido de nosso ser, que considera o próprio objetivo e razão de ser da filosofia, permitindo o texto heideggeriano vislumbrar aquele pesadelo infantil como ponto de entrada legítimo — e, ao que se revelou, privilegiado — nesse modo de questionamento e nesse universo infinitamente variado a que chamamos filosofia.

6. ao ler o texto de Heidegger, as palavras pareciam finalmente vir em socorro, tal seu poder evocativo e rigor científico, introduzindo Heidegger, passo a passo, a realidade do nada, que localiza no estado de espírito, ou melhor, no “humor” ou “sintonia” (Stimmung) que chamamos angústia — diferentemente do medo, sempre medo de algo, sendo a angústia o sentimento gerado pela experiência do retraimento e do desvanecimento de todas as coisas.

7. a experiência do sonho foi aquela em que se viu subitamente confrontado consigo mesmo enquanto esse ente ordinariamente circundado por uma multiplicidade de coisas, em regra familiares, e imerso num mundo (Welt), ou num entorno (Umwelt), que normalmente se navega sem esforço e naturalmente se chama próprio.

8. não fossem os recursos disponibilizados por Husserl e sua fenomenologia, Heidegger jamais teria conseguido realizar a tarefa que atribuiu à filosofia, consistindo o treinamento fenomenológico em aprender a ver as coisas mesmas, e a ver o mundo e nossa posição em seu interior exatamente como é, tendo Heidegger comparado a leitura de Husserl e a colocação em prática do método fenomenológico a ter escamas caídas dos olhos, descobrindo o mundo como que pela primeira vez.

9. voltando ao sonho, cabe frisar como a ausência de objetos e entes familiares, ou a dissolução no nada das coisas nas quais se aprendera a confiar ao longo dos anos como extensão de si mesmo, e nas quais se haviam investido emoções, esperanças e desejos, hábitos — em outras palavras, a falta de qualquer coisa, por mais fantástica que fosse, com que se relacionar — teve o poder misterioso de revelar o eu a si mesmo, trazendo à tona a própria mundanidade normalmente encoberta nos tratos cotidianos.

10. embora esse fenômeno possa parecer óbvio ao leitor, a ambição única de Heidegger foi tornar esse fenômeno óbvio conceitualmente transparente, sendo tanto mais surpreendente que, segundo ele, a tradição filosófica pareça ter se empenhado tanto em soterrá-lo sob uma série de abstrações metafísicas, devendo por isso essa tradição ser submetida à mais rigorosa análise crítica, ou, mais apropriadamente, a uma Destruktion sistemática (uma “destruição” que é mais uma desconstrução ou desestruturação do que aniquilação pura e simples), sendo apenas através dessa desconstrução que o fenômeno em questão poderá (re)emergir e ocupar o centro do palco.

11. entre as muitas abstrações da tradição filosófica que impediram acesso adequado ao ser do ser humano está a distinção, quase imediatamente fixada em dualismo, entre homem e mundo, dualismo profundamente arraigado desde que Descartes o introduziu na aurora da filosofia moderna, estabelecendo distinção crucial entre quem somos, ou o ser do humano, entendido como “coisa pensante” (res cogitans), e o ser do mundo, entendido como “matéria extensa” (res extensa).

12. quem já conhece aspectos da filosofia ocidental, sobretudo moderna, notará a natureza singular da abordagem heideggeriana, ressoando algo do que diz com aspectos da filosofia de Kierkegaard e Nietzsche, ou com a ficção de Dostoiévski, mas parecendo, na maior parte, bastante distante das preocupações centrais da filosofia clássica.

13. o modo de responder a tais questões consiste em interrogar a maneira pela qual o mundo está aí para nós, ou o modo pelo qual nos é desvelado, podendo revelar-se inestimáveis, nesse empreendimento, as experiências-limite, tal como a revelada no sonho, e nossa capacidade de analisá-las — pois não é precisamente no momento em que nosso mundo familiar, e, portanto, nosso próprio eu, parece dissolver-se no nada, deixando-nos em estado de completa perplexidade, senão angústia, que podemos vislumbrar quem realmente somos, e do que realmente se trata nosso ser?

14. a isso Heidegger chama o destino (e destinação) metafísico do ser humano, que as experiências-limite têm o poder de desvelar, significando por “destino metafísico” o fato de nosso próprio ser estar sempre em questão para nós, mas especialmente naqueles raros momentos em que vislumbramos a nós mesmos, ou em que nos confrontamos face a face com nosso próprio ser, desvelando-nos então a nós mesmos como o ente para quem sempre há mais em jogo do que meras coisas, revelando-nos a nós mesmos como o ente aberto a — e isso significa que experiencia e compreende — esse resíduo ou remanescente com que se começou.

15. Existência (Dasein) é o conceito unificador que Heidegger finalmente retém para designar esse ente que somos, e que se revela na angústia, tendo, inicialmente, e sobretudo no início dos anos 1920, referido-se ao ser humano como “vida”, “facticidade” e “vida fática”, abrindo, em 1925, uma série de cursos sobre a filosofia da vida de Wilhelm Dilthey com referência a “um problema fundamental para toda a história da filosofia ocidental: o problema do sentido (Sinn) da vida humana”.

16. a vida fática, ou existência, aponta, em primeiro lugar, para o fato de estarmos sempre e desde o início ex-postos ao mundo e lançados nele, sempre fora, por assim dizer, sem qualquer interioridade que se pudesse chamar própria e que fosse independente do mundo; em segundo lugar, para o fato de que esse ser-no-mundo que nos caracteriza é onde o “ser” tem lugar, onde se encontra a chave para compreender o evento da presença.

17. não se pode enfatizar suficientemente a significação da decisão heideggeriana de restringir o conceito de existência ao ser do ser humano apenas, sendo todos os demais entes, naturalmente, mas não existindo, por não possuírem essa conexão irredutível com o mundo, a abertura ao mundo como mundo que define o ser humano.

18. sempre que se fala dessa vida como própria, pressupõe-se que se é essa vida, ou que essa vida é aquela que não se tem escolha senão viver, tendo Sartre, leitor e intérprete inovador de Heidegger, resumido essa condição (a condição humana) dizendo que os seres humanos estão condenados a ser livres, significando, em espírito fiel ao insight heideggeriano, que, a cada momento, temos de ser nosso ser, viver nossa vida e continuar a confrontar o que Heidegger chamou de facticidade da existência.

19. esse destino — nosso destino como entes livres e metafísicos — é o que a experiência do nada revela, revelando-nos como abertos e expostos àquilo que, desde o início, excede as coisas no mundo, revelando o nada nossa natureza e destino metafísicos, sendo, se estamos destinados ao pensamento filosófico (à metafísica), por causa de nosso ser meta-físico, nascendo a necessidade da filosofia — poder-se-ia até chamá-la impulso — do destino metafísico de ser humano.

20. compreende-se agora por que, já em 1922, Heidegger declara “o Dasein humano, na medida em que é interrogado quanto ao caráter de seu ser”, objeto primário da investigação filosófica, devendo essa “coisa” que somos, e que toda uma tradição, da filosofia grega ao Antigo Testamento, ao cristianismo neotestamentário e ao pensamento greco-cristão, designou como “vida” (Zoé, vita), ser agora interpretada em termos existenciais.

21. tanto no breve texto de 1922 quanto em Ser e Tempo, Heidegger descreve a unidade da vida fática, ou existência, como “preocupação” ou “cuidado” (Sorge), caracterizando com essa palavra a “mobilidade fundamental” da vida fática, sendo, enquanto seres humanos, tais que, em sendo, nos preocupamos com nosso próprio ser, equivalendo isso a dizer que nosso ser está sempre em questão no fato e no modo de nosso próprio ser, preocupando-nos conosco mesmos.

22. precisamente na medida, contudo, em que o movimento do cuidado é uma inclinação viva em direção ao mundo, a vida tende a perder-se no mundo, a ser sugada por ele, assumindo a forma de propensão a absorver-se no mundo e “esquecer” seu próprio ser (e liberdade) nessa absorção, havendo, portanto, tendência fática básica na vida de decair de si mesma (Abfallen), queda pela qual a vida se destaca de si mesma e cai no mundo — sendo a vida naturalmente declínio (Verfallen) e queda em ruína ou autorruína (Zerfall seiner selbst).

23. o que subjaz à inclinação ao decair é o fato de a vida fática, que é em cada caso a vida fática do indivíduo, não ser, em regra, vivida como tal, sendo, é claro, vivida, mas apenas como outra coisa, algo diverso da vida em sua possibilidade mais própria e extrema, sendo apenas vida mediana, movendo-se dentro da medianidade (Durschnittlichkeit) que pertence a seu cuidado, a seus tratos, a sua circunvisão e a sua compreensão do mundo.

24. essa análise inicial encontra seu caminho até Ser e Tempo (Divisão Um, Capítulo IV), onde o fenômeno da “decadência” (Verfallen) não significa a queda do Dasein de uma posição mais original, pura e elevada, mas sua usual “absorção preocupada” (Besorgen) no mundo e identificação com ele, não implicando essa decadência que, ao decair, o Dasein se afaste, de algum modo, de sua essência.

25. o Dasein só pode fugir diante de si mesmo se já se desvelou a si mesmo, sendo fugir diante de si mesmo, evitar-se, ainda um confronto com o próprio eu: “aquilo diante do qual o Dasein foge é precisamente aquilo que o Dasein 'busca'”, não sendo, contudo, esse confronto algo que a vida apreende ou percebe, sendo antes primariamente sentido, resultado não de representação ou decisão, mas de uma disposição, ou sintonia, tal como a evocada desde o início.

26. tendo já analisado o medo como modo de disposição, e portanto como modo pelo qual a vida pode encontrar-se situada no mundo ou disposta em relação a ele (Ser e Tempo, § 30), Heidegger quer agora distingui-lo da angústia, sendo as duas disposições muito semelhantes — no caso do pesadelo, havia medo sempre que ocorria, mas jamais se podia dizer do que precisamente se tinha medo, sendo aí, diz Heidegger, precisamente onde reside a diferença entre medo e angústia.

27. deixando de lado, por ora, a questão da morte, cabe concentrar-se na própria angústia, e no modo pelo qual, na conferência de 1929, Heidegger estabelece sua conexão com o nada, argumentando, em “O Que É Metafísica?”, que o nada é experienciado, ainda que em nível que permanece, em regra, pré-teórico, em certos tipos de disposição, como a angústia ou o tédio.

28. mas o que é esse mundo que “normalmente” experienciamos, e que a angústia vem perturbar? Que é essa “vida” que o tédio ameaça, esse fenômeno positivo que a filosofia deve interrogar? É precisamente nossa vida ordinária, nosso mundo cotidiano e familiar, a vida em que nos encontramos em regra, “nossa” vida, tão familiar que se tornou imperceptível — não precisamos pensar nela para que “funcione”, simplesmente a vivemos —, sendo esse o fenômeno positivo que Heidegger descreve em grande detalhe na primeira divisão de Ser e Tempo, e já brevemente esboçado.

29. mas o que acontece quando esse mundo que é meu, ou esse mundo que sou, é interrompido, ou pior ainda, desaparece? Não estaria então totalmente perdido? Não se passaria de um estado de familiaridade a um de total estranheza? Suponha-se que o carro quebre a caminho do trabalho: até então, o carro como carro, isto é, como modo de transporte que me levaria ao trabalho para encontrar tal ou qual colega e discutir determinado projeto, era não-aparente; ao quebrar, contudo, esse contexto torna-se dolorosamente presente, assim como o próprio carro.

30. o que restava, então? Nada, absolutamente nada — apenas esse resíduo com que se começou, e que precisamente não é uma coisa, que precisamente é nenhuma coisa; mas esse nada não é insignificante — ao contrário, revela a existência a si mesma (ainda que dolorosamente), tal como a quebra do carro o traz à atenção, revela-o como tal.

31. preferimos retornar a esse mundo familiar, no qual nossa verdadeira essência está encoberta, oculta sob camadas de ocupações e preocupações, a enfrentar a tarefa da existência; ainda assim, insiste Heidegger, do ponto de vista de quem se interessa em descobrir quem realmente somos, e portanto o sentido do ser humano, esses momentos são documentos e testemunhos raros que o fenomenólogo deve interrogar.

32. tendo-se até aqui buscado esclarecer o solo do qual a filosofia cresce, e a tarefa que lhe cabe, chega o momento de abordar o problema de como essa vida com a qual somos um pode acessar-se a si mesma, e confrontar-se face a face consigo mesma, sem transformar-se em objeto inerte e desvitalizado, sem imediatamente tornar-se coisa sem vida, evitando a dupla armadilha de passar ao largo de si mesma em virtude de sua proximidade absoluta consigo mesma e a de converter-se em mera coisa através de sua própria investigação teórica e científica.

33. tradicionalmente, remontando ao século XVIII, a hermenêutica (do grego hermeneuein, interpretar) é a ciência preocupada com situações em que encontramos significações não imediatamente compreensíveis, mas que requerem esforço de interpretação, dizendo respeito ao modo pelo qual a interpretação funciona como suplemento necessário à compreensão, seja na forma do alheio (a outra pessoa, cultura, época etc.) que se busca compreender, seja no mundo familiar já compreendido, sendo seu campo de aplicação amplíssimo, abrangendo tradicionalmente muitas ciências sociais, como teologia e estudos bíblicos, direito, história, estudo de textos literários e filosofia.

34. toda interpretação deliberada ocorre com base na facticidade primordial do Dasein, isto é, com base numa compreensão pré-reflexiva do ser a partir de uma situação concreta que tem relação intrínseca com a vida do intérprete e sua história pessoal e comum, com seu passado tanto quanto com seu futuro, mostrando assim Heidegger que toda interpretação — mesmo a científica — é governada pela situação concreta do intérprete, não havendo interpretação sem pressuposto, ou preconceito, pois, embora o intérprete possa libertar-se desta ou daquela situação, não pode libertar-se de sua própria facticidade, da condição ontológica de sempre já ter uma situação temporal finita como horizonte dentro do qual os entes que compreende ganham para ele seu sentido inicial.

35. interpretar, para Heidegger, é exercer atividade de exegese ou explicitação (Auslegung) e compreensão (Vernehmen), sendo a tarefa do intérprete ver, dirigindo-se esse ver a uma matéria particular (Sache) — sendo o conceito heideggeriano de hermenêutica essencialmente intuicionista, e muito próximo do ideal formulado por Husserl: “ver”, ou, mais geralmente, “intuição”, é o acesso à Sache, e a garantia de sua doação: de perspectiva fenomenológica, uma matéria ou fenômeno é “dado”, e assim manifesto como fenômeno, quando apreendido numa intuição.

36. a fenomenologia, por sua vez, é a ciência rigorosa que não possui o caráter teórico das ciências naturais, evitando, ao mesmo tempo, a dupla armadilha filosófica do realismo e do idealismo, ambos reificando a vida ao reconstruí-la, ou transformá-la em objeto, sendo a fenomenologia sozinha, afirma Heidegger, “a simpatia absoluta com a vida que é idêntica à experiência de vida Erlebnis]”.

37. isso não significaria que o sentido oculto da própria vida reside em sua abertura a… e que implica o momento de estar “voltado-para” (auf zu) algo? Esse é o movimento que Husserl identificou como “intencionalidade”, caracterizando a modalidade básica da consciência, ou o modo pelo qual estamos essencial e irredutivelmente abertos ao mundo.

38. desde o início, e ao longo de toda sua obra, Heidegger terá compreendido e praticado a filosofia como forma de fidelidade à vida, sendo a vida, para ele, tanto objeto quanto sujeito da filosofia, sendo a filosofia da vida no duplo sentido do genitivo: processo de autoclarificação e explicitação da própria vida, e assim modo de vivê-la plenamente.

39. segundo Heidegger, essa concepção de filosofia, na qual está em jogo a própria vida, é fundamentalmente grega, sendo, desde o início, sua interpretação da filosofia grega, e de Platão e Aristóteles em particular, um caminho de acesso a esse fenômeno primordial da vida fática, estando em jogo, em sua relação com os gregos e em sua tentativa de repeti-los de modo radical e original — tentativa através da qual primeiro ganhou reputação de pensador por direito próprio —, o acesso a nosso próprio ser como seres vivos e existentes.

40. porque a filosofia está enraizada na própria vida, porque a própria vida está em jogo no modo como filosofamos, há algo de extremo e radical, e talvez intransigente, no empreendimento filosófico: a filosofia — como presumivelmente superficialmente sabemos — não é empreendimento arbitrário com que passamos o tempo segundo o capricho, não é mera acumulação de conhecimento que facilmente poderíamos obter a qualquer momento em livros, mas (sabemo-lo apenas obscuramente) algo que tem a ver com o todo, algo extremo, no qual se dá, para o homem, um confronto e diálogo últimos.

41. se os gregos vieram a valorizar a filosofia na medida em que sabemos, é porque, para eles, a atitude filosófica significava essa capacidade de habitar em meio às coisas como em meio a uma totalidade significativa, essa capacidade extraordinária de estar no mundo de tal modo que o mundo como tal e como um todo pudesse tornar-se questão para o homem.

42. ao repetir os gregos, Heidegger esperava devolver à filosofia sua antiga nobreza, reativar o senso de urgência e a paixão vinculados ao questionamento filosófico genuíno, consistindo esse questionamento genuíno em nada mais do que um desejo e uma capacidade de abrir-se a si mesmo e ao próprio pensamento ao mundo como esse mundo que eu mesmo sou, essa totalidade viva.