Verdade

BEISTEGUI, Miguel de. The New Heidegger. London: Bloomsbury Publishing, 2005

A verdade que jaz abaixo

VERDADE METAFÍSICA

1. A concepção ordinária de verdade

1. todos sabem, mais ou menos conscientemente, mais ou menos precisamente, o que é a verdade, sabendo, por exemplo, que “verdadeiro” se opõe a “falso”, sendo verdadeiras afirmações como “2 + 2 = 4” ou “a Terra orbita o Sol” no sentido de poderem ser verificadas, corroboradas, comprovadas para além de dúvida — apontando, fundamentalmente, tanto o erro e a mentira quanto a afirmação “2 + 2 = 5” para concepção semelhante de verdade: uma afirmação incorreta é aquela cuja verdade consiste em corresponder a um estado de coisas real, verificável de diversos modos.

2. há, contudo, outros modos pelos quais algo pode ser dito verdadeiro: de uma pintura dizemos que é “verdadeiramente” bela, de amigos próximos que são amigos “verdadeiros”, de um atleta que é atleta “verdadeiro”, desta pulseira que é ouro “verdadeiro” — opondo-se aqui “verdade” à mera aparência ou “semelhança”, definindo algo em seu estado “genuíno”, envolvendo, contudo, mesmo aqui, alguma ideia pré-estabelecida e universal (precisamente o que Platão chamou Ideia) à qual a coisa particular corresponde.

3. todos os sentidos em que tomamos as coisas por verdadeiras parecem envolver certo grau de acordo ou correspondência — entre afirmação e estado de coisas, entre particular e universal, ou entre coisa real e seu conteúdo ideal —, perguntando-se se é aí que termina a investigação, no reconhecimento de que a verdade consiste numa operação de correspondência, ou se devemos antes indagar sobre a condição de possibilidade dessa operação, sobre o que — se é que há algo — mantém unida a correspondência entre afirmação e estado de coisas, e entre coisa e essência.

2. O conceito tradicional de verdade

4. de Parmênides a Russell e Wittgenstein, de Platão a Descartes, Kant e Hegel, a filosofia sempre se interrogou sobre a verdade, buscando sempre descobrir sua natureza e estabelecer os critérios para distingui-la do que não é, ou apenas aparenta ser, verdadeiro, podendo mesmo a filosofia ser vista como preocupada primeira e principalmente com a verdade — reconhecendo até Nietzsche, o maior crítico do valor que atribuímos à verdade, a verdade como terreno distintivo da filosofia, chamando-a “vontade de verdade” —, sendo Heidegger, mais próximo de nós, talvez o filósofo cujo pensamento está mais estreitamente associado a um repensar radical da questão da verdade, perguntando-se se seu pensamento está alinhado com a tradição que o precede, ou marca um afastamento dela, e assim novo ponto de partida para a filosofia.

5. a despeito da extraordinária diversidade de abordagens na história da filosofia, esta parece ter sempre se preocupado em tematizar e abranger o duplo aspecto da correspondência já referido, correndo a definição tradicional de verdade, através de grande parte de sua história, assim: veritas est adaequatio rei et intellectus — o que, segundo Heidegger em “Da Essência da Verdade” (1930), pode ser entendido como: a verdade é a correspondência da coisa ao conhecimento.

6. essas são as duas interpretações dominantes da chamada teoria da correspondência da verdade, ainda hoje operante e amplamente inquestionada, não sendo, contudo, intercambiáveis nem simplesmente reversíveis, correspondendo antes a duas concepções diversas do funcionamento do conhecimento e do universo como um todo, refletindo duas interpretações diversas do que conta como “coisa” ou “matéria”, e do que conta como “conhecimento”.

7. com o colapso da perspectiva cristã, ou ao menos criacionista, sobre o universo, melhor exemplificado no pensamento de Kant, a teoria da correspondência da verdade recebe nova interpretação, sem, contudo, ser posta em questão, mantendo-se os dois níveis de verdade e de correspondência: a ordem da criação, concebida teologicamente, cede lugar a uma concepção da verdade material como acordo de algo com o conceito “racional” de sua essência, substituindo a ordem racional a ordem divina, e acreditando-se que a verdade do mundo reside em sua racionalidade, ou em seu conceito.

8. através dessa breve incursão nas interpretações filosóficas e técnicas da verdade, parecem os diversos sentidos pré-filosóficos de verdade evocados inicialmente, e com os quais operamos cotidianamente, justificados e providos de base teórica, caindo todos os exemplos dados numa das duas concepções de verdade, material ou proposicional, ambas, contudo, pressupondo um sentido de verdade como correspondência ou correção.

A ESSÊNCIA DA VERDADE

1. Essência como possibilidade e fundamento

9. em famosa conferência sobre a verdade, proferida diversas vezes em 1930 e posteriormente revisada, Heidegger começa perguntando pela possibilidade interna do acordo, pelo que o torna possível como tal, assumindo sua investigação sobre a essência da verdade a forma de uma investigação sobre a possibilidade do acordo.

10. há outros modos pelos quais poderia escolher deixá-la estar, outros modos pelos quais a pulseira poderia tornar-se manifesta — como objeto de apreciação estética, por exemplo, ou, sendo presente, como gesto de amor —, significando isso que minha relação ao objeto envolve toda uma situação, toda uma “região”, a partir da qual vem a estar deste ou daquele modo.

11. a questão, contudo, é saber se esse fenômeno mais primordial que chamamos mundo tem algo a ver com a própria verdade, com sua essência, ou se é simplesmente a camada de realidade que sustenta a verdade, mas dela distinta — envolvem os modos de comportamento diversos da verdade entendida como correção também certa operação de verdade? E a questão adicional consiste em perguntar se essa “outra” operação de verdade poderia ela mesma ser local, ou se se pode mostrar que opera em todos os níveis do comportamento humano.

12. essas questões nos trazem ao limiar de outro sentido, mais fundamental, de essência, a saber, “fundamento”: tendo identificado a possibilidade do acordo, e portanto da correspondência, no comportamento humano, precisamos perguntar mais sobre esse comportamento — como caracterizá-lo? Mas não teríamos já começado a fornecer resposta a essa questão em capítulo anterior? Perguntar pela essência da verdade como comportamento não equivaleria a perguntar pela essência do homem? Mas já vimos que a essência do homem é existência (ou, como Heidegger passa a escrever nos anos 1930, para distinguir a existência humana da antiga existentia, ek-sistência).

2. Verdade e ek-sistência

13. ao discutir a interpretação heideggeriana da concepção clássica de verdade, referimo-nos às tradições medieval e moderna, e ao conceito latino de veritas em particular, sendo veritas tradução do grego aletheia — mas essa tradução é mais do que o mero deslocamento de uma palavra de um idioma a outro, marcando ponto de virada histórico no modo de compreender a verdade.

14. o que Aristóteles revela, sobretudo no Livro VI da Ética a Nicômaco (VI, 1139b15-18), é a medida em que a psyché humana, ou, como Heidegger a traduz, o Dasein humano, é essencialmente uma operação de aletheuein — verbo que poderíamos traduzir como “verdadejar”, se existisse em português.

15. tradicionalmente se pensou que a verdade, para Aristóteles — e para toda a filosofia depois dele — é questão de juízo, assumindo-se geralmente que consiste numa adequação entre pensamento e objeto, adequação essa expressa no que hoje se conhece como proposição, sendo o que chamamos proposição o que Aristóteles chamava logos apophantikos, isto é, afirmação “que contém verdade [alethes] ou falsidade [pseudes] em si”.

16. voltemo-nos, então, a esse sentido primordial e ameaçado de verdade que encontramos em Aristóteles: para que algo seja dito verdadeiro (ou falso) no sentido hoje clássico do termo, precisa estar ali (da-sein) de certo modo, antes de mais nada, precisa estar presente, manifesto, em primeiro lugar — mesmo que venha a ser declarado falso ou fraudulento.

17. essa modalidade preliminar e primordial de verdade é notável por não ser função do logos humano, ou ao menos não exclusiva nem primariamente, não sendo, argumenta Heidegger, a proposição (logos apophantikos) o nível mais primordial da verdade, não sendo a “lógica” o nível último e decisivo em que se devem debater as questões de verdade (aletheuein) e falsidade (pseudesthai).

18. a passagem citada é, na verdade, tradução de trecho da Ética a Nicômaco de Aristóteles (Z 3, 1139b15-18), no qual Aristóteles menciona os diversos modos pelos quais a alma traz e toma os entes em custódia verdadeira, sendo significativo que cada modo é acompanhado de discurso ou fala, envolvendo cada modo de verdade o logos, seja por afirmação (apophansis) seja por negação (kataphansis).

19. basta, neste ponto, dizer que apenas porque a verdade é entendida como um trazer para fora do ocultamento e para dentro do Aberto é que Aristóteles, e Heidegger depois dele, podem caracterizar a alma humana como operação de verdade, sendo, ao mesmo tempo, apenas porque a alma humana é entendida como ex-istência, ou como ser fora de si e orientado ao mundo, ao mesmo tempo aberto a ele e abrindo-o, que pode coincidir com o desocultamento da verdade.

20. em nível mais geral, a conexão entre ek-sistência e verdade começa a desdobrar-se muito antes de ser explicitada no §44, “Dasein, desveladura e verdade”, sendo, na medida em que, ao menos no contexto da análise do Dasein, a verdade coincide com a existência como tal, operante mesmo desde o início da análise, sendo talvez nas seções dedicadas à espacialidade do Dasein (§§ 22-24) que a conexão se torna clara pela primeira vez.

21. como existência, o Dasein dá ou clareia um espaço, abre um mundo habitado por coisas, desvela entes em seu ser, capturando o “Aí” do Da-sein essa espacialidade originária, isto é, essa clareira ou essa desveladura (Erschlossenheit) que, como veremos adiante, Heidegger acaba identificando ao tempo existencial e extático.

a. Verdade prática

22. na análise do Dasein desenvolvida na Divisão Um de Ser e Tempo, analisa-se a operação de verdade no modo como ocorre “próxima e geralmente”, isto é, na existência cotidiana, nas atividades mais mundanas e habituais do Dasein, transformando Heidegger a questão da verdade, do ser como desveladura, em questão do comportamento cotidiano, arrancando-a de seu locus privilegiado (o logos humano) e de sua definição tradicional (adequatio rei et intellectus).

23. diferentemente do conceito de “natureza”, que é representação — construção metafísica, ou abstração — e portanto fenômeno apenas secundário e derivativo, o conceito de “mundo”, e a definição de “homem” como ser-no-mundo, visa captar a essência do que significa ser humano, sendo fenômeno originário, o humano em sua fenomenalidade primordial, ou em seu ser.

24. a tarefa da análise do Dasein é, assim, mostrar como, no nível mais concreto, mundano, aparentemente despretensioso, certa operação de verdade já está em jogo, mostrando a medida em que a existência prática cotidiana é ela mesma um acontecer de verdade, um aletheuein no sentido desenvolvido por Aristóteles, demonstrando que o homem “compreende” seu próprio ser, revelando o que “significa” ser antes de qualquer conceituação ou representação desse ser, no nível pré-teórico da existência cotidiana.

25. ao conceber as coisas por um olhar meramente “teórico”, falha-se em compreendê-las como estar-à-mão, mas, ao lidar com elas usando-as e manipulando-as, essa atividade não é cega, possuindo tipo próprio de visão, pela qual a manipulação é guiada e da qual adquire seu caráter específico de coisa.

26. assim, minha relação primária ao mundo é a do Handeln, da ação no sentido do manuseio, sendo as coisas que encontro no mundo, na maior parte e primariamente, coisas-a-serem-manuseadas, manipulata, pragmata, em suma, coisas de uso (Zeuge), não sendo esses “objetos” para conhecer o mundo “teoricamente”, mas simplesmente o que se usa, o que se produz.

27. no nível mais básico, a existência é uma operação de desvelamento ou clareamento pela qual algo à-mão é libertado para seu uso e função, deixando-se, no âmbito do prático, algo à-mão ser assim e assado como já é e a fim de que assim seja, sendo a operação de verdade um deixar-ser: deixar algo ser o que é, o desencobrimento de algo em sua estar-à-mão dentro do mundo da preocupação prática.

28. compreendo a cadeira não por representação, mas por sentar-me; a cadeira que compreendo propriamente, ou primordialmente, é esta cadeira em que estou sentado, ou na qual gostaria de sentar-me, não sendo, nessa situação, o eu do cogito que compreende, mas o eu da preocupação prática, sendo meu corpo o veículo de minha preocupação, e o modo pelo qual minha relação prática com o mundo é realizada, instrumento de minha liberdade, base material de meu poder — não de meu domínio (Macht) sobre o mundo, mas de minha capacidade de nele navegar e nele me orientar, minha capacidade-de-ser (Seinkönnen).

29. o ponto é que a relação ou comportamento primordial e significativamente originário diante da cadeira é aquele em que a cadeira aparece como “aquilo-em-que-posso-sentar-me”, ou, mais precisamente ainda, como “aquilo-em-que-quero-sentar-me” — sendo esse o nível em que o significado primeiro emerge, não podendo o significado como tal ser dissociado de uma estrutura geral de significação, não remetendo tal estrutura tanto a uma capacidade de abstração e formalização quanto à própria existência, ao próprio existir da existência.

30. eis, então, o que Heidegger quer dizer quando afirma que o Dasein “compreende” seu mundo: não o compreende do modo como compreende um problema matemático, isto é, abstratamente, mas precisamente na medida em que tem um mundo, ou antes, é esse mundo — apenas quando separamos o homem do mundo ao qual necessariamente pertence e o arrancamos do solo em que cresce é que a questão referente ao mundo pode assumir formas abstratas e irrelevantes, como quando indagamos sobre a existência do mundo, e adotamos o ponto de vista cético.

31. a atitude que, seguindo o vocabulário da fenomenologia husserliana, Heidegger chama “científica”, “metafísica” ou “natural” só se torna possível quando o sentido da existência é separado da experiência básica (Grunderfahrung) na qual está enraizado, equivalendo essa separação a uma modificação essencial do fenômeno originário (existência), permanecendo, em resultado, abstrata a investigação sobre o sentido de nosso ser.

b. Verdade ética

32. tendo revelado a existência prática cotidiana como operação básica de verdade, Heidegger indaga se essa é a forma mais completa de verdade, se a existência cotidiana constitui o modo último em que o Dasein é desvelado a seu próprio ser, sendo, sem dúvida, a existência desvelada na cotidianidade, mas será desvelada a sua própria desveladura, ou permanece de certo modo fechada a ela e fechada em relação a si mesma?

33. tais questões encontrarão sua solução, em última análise, em comportamento distinto do Dasein que Heidegger chama “desveladura resoluta” (Entschlossenheit), sendo esse termo, e o comportamento que designa, na verdade “tradução” existencial-ontológica heideggeriana do conceito de “prudência” (phronesis), pelo qual Aristóteles descreve a especificidade da ação moral (em contraste, digamos, com a produção técnica, ou o conhecimento teórico).

34. em tal atividade, a desveladura ou o caráter-de-verdade do Dasein é revelado como tal, e assim elevado a outra potência — em Entschlossenheit, nada “mais” é acrescentado ou revelado, sendo apenas questão de deixar o próprio poder de desveladura do Dasein incidir sobre si mesmo enquanto desveladura, questão, portanto, de repetir o que já é o caso, mas de tal modo que a “coisa” em questão (o Dasein) agora se torna transparente a si mesma.

MORTE

35. já vimos como o Dasein se define essencialmente como essa capacidade de ser (seu próprio ser), isto é, como poder de ser: o Dasein pode ser, sendo esse Können o que o distingue dos demais entes, precisando o Dasein sempre ser seu próprio ser — em outras palavras, o Dasein pode ser dito não simplesmente ser, do modo como uma coisa é, mas ex-istir; ex-istir significa precisamente isso: ser no modo do poder, da potencialidade, da possibilidade.

36. não assim com o excesso ou a dívida que caracteriza o Dasein, distinto por ser sempre e irredutivelmente pendente: “o 'ainda-não' que pertence ao Dasein, contudo, não é apenas algo provisória e ocasionalmente inacessível à própria experiência ou mesmo à de um estranho; ele 'não é' ainda 'atual' de forma alguma”.

37. essa possibilidade irredutivelmente possível, e cuja realidade, contudo, se sente a cada momento, essa possibilidade que, sendo puramente virtual, preside, não obstante, ao próprio ser do Dasein, e portanto à desveladura do mundo como tal e como um todo, Heidegger chama morte.

38. a morte é o futuro, a forma pura do futuro, pois é um futuro que jamais será presente, o evento sempre iminente — podendo isso soar como mensagem sombria e pessimista, nada tendo, contudo, a ver com pessimismo: a morte por vir não é algo diverso de mim mesmo, algo que me acontece de fora, por assim dizer, sendo antes o próprio acontecer da existência como tal, o próprio limite a partir do qual a existência se desdobra como desveladura, o próprio horizonte, portanto, a partir do qual o mundo “mundifica”.

39. é a chave para compreender a desveladura da existência, e do mundo, sendo, na medida em que revela uma possibilidade pura, e portanto o âmbito do futuro como forma originária do tempo em excesso do que é meramente presente, a morte também testemunho da caracterização ontológica da existência como Seinkönnen, isto é, como esse ente cujo ser é primariamente um poder, ou pura virtualidade.

40. a morte é, contudo, origem de minha liberdade apenas na medida em que é minha, e irredutivelmente minha, não podendo ser transferida a ninguém mais, trocada, negociada ou adiada, sendo, por ser essa possibilidade absoluta e irredutivelmente minha, minha possibilidade mais própria, a possibilidade em que a própria propriedade (Eigentlichkeit) está em jogo: a existência “autêntica” ou a vida “genuína” baseia-se inteiramente na apropriação de si mesmo como esse ente cujo ser consiste em ser para seu próprio fim.

ANTECIPAÇÃO

41. a questão passa, então, a ser saber que tipo de relação o Dasein poderia estabelecer com a morte assim entendida, devendo-se distinguir a relação cotidiana e imprópria da relação singular e própria que o Dasein poderia estabelecer consigo mesmo enquanto aquele que deve morrer sua própria morte, e da qual se desdobra a possibilidade de um si-mesmo singular.

42. porque o Dasein está sempre no mundo, tende a estar absorvido nesse mundo que, em larga medida, é o mundo de sua preocupação, longe, portanto, de constituir relação direta e frontal com sua própria finitude, e com a operação de apropriação que se segue de tal encontro, sendo a vida mediana do Dasein uma fuga diante de seu ser mais próprio para a morte rumo ao mundo familiar da preocupação, mundo em que as existências não são concebidas como singularidades, mas como instâncias intercambiáveis de uma estrutura universal.

43. isso não significa, é claro, que a morte não desempenhe papel algum na vida mediana e “decaída” do Dasein, mas ali a morte precisamente jamais é minha, sendo sempre a morte de outrem, nem mesmo isso; é a morte em geral, ou a morte de qualquer um — o que equivale a dizer de ninguém, sendo, na terminologia heideggeriana, a morte anônima do impessoal (das Man): “morre-se”, como se a morte fosse primariamente esse evento que pode ser testemunhado e verificado empiricamente.

44. mas pode o Dasein compreender sua morte propriamente (“autenticamente”) tanto quanto impropriamente (“inautenticamente”)? Pode desenvolver relação própria com aquilo que é mais próprio, com sua possibilidade e modo de ser mais próprios? “Antecipação” (Vorlaufen) é a palavra que Heidegger usa para captar essa relação genuína.

45. deixar que a morte incida sobre a própria vida não conduz a humor mórbido ou sombrio, não implicando nem resignação nem passividade — em outras palavras, conduzindo não ao que Spinoza chamou paixão “triste”, mas a uma alegre e sóbria: “junto com a angústia sóbria que nos coloca face a face com nossa capacidade-de-ser singularizada, vai uma alegria inabalável nessa possibilidade”.

46. a morte, então, não é a negação ou o oposto da vida, mas a condição de sua afirmação, a libertação de seu potencial, tratando-se, na antecipação, de comportar-se diante da morte como possibilidade, e como possibilidade distinta, sendo com base na antecipação dessa possibilidade não-atualizável que o Dasein como tal possui a estrutura geral de antecipação, ou de pro-jetar-se num âmbito de possibilidades.

47. eis a razão pela qual Heidegger insiste que a “autenticidade” é apenas “modificação” do ser do Dasein: não equivale a mudança do ser do Dasein, mas a modo diverso de ser esse ser, isto é, já não com base em sua diluição ou alienação na anonimato do impessoal, mas com base em si mesmo enquanto essa desveladura absolutamente singular, enquanto o acontecer da verdade.

RESOLUÇÃO

48. as análises da morte e da antecipação culminam na da desveladura resoluta, fenômeno que designa a operação pela qual a existência se decide por seu próprio ser, por si mesma como existência singular, equivalendo ser resoluto, ou desvelado resolutamente, a nada mais do que um modo de ser em que se está, ou antes, eu estou, necessária e inevitavelmente, aberto à minha própria desveladura: equivale a viver na ponta da existência, em sua extremidade, onde se recolhe e “é” verdadeiramente, onde seu poder é mais visível e penetrante.

49. ao ser resolvida, a existência se liberta de seu próprio aprisionamento na vida absorvida da cotidianidade, libertando-se para si mesma, como essa capacidade de ser (ou desvelar) o ser, transformando-se num “eu” ou num si-mesmo próprio, equivalendo, como tal, ser resolvido a “libertar a humanidade no homem, libertar a humanidade do homem, isto é, a essência do homem, deixar o Dasein nele tornar-se essencial”.

50. mas o tipo de unidade ontológica da existência que Heidegger tem em mente, e que chama “cuidado”, precede e atravessa qualquer divisão do Dasein em diversas faculdades, não podendo a unidade do Dasein como cuidado, revelada existencialmente e mantida à vista como tal na desveladura resoluta, ser dialeticamente reconstruída como teoria das faculdades, nem mesmo intimada com base na distinção clássica entre teoria e práxis.

51. essa dimensão “ética” também se marca claramente numa possibilidade distinta do Dasein imediatamente coextensiva ao fenômeno da desveladura resoluta, a saber, a “solicitude”, longe de designar um retraimento a alguma pura interioridade, na qual não mais me preocuparia com os outros e com o mundo como tal, designando a resolução também a possibilidade de uma relação própria ou autêntica com os outros, de uma “solicitude” genuína na medida em que ela mesma está centrada na possibilidade mais própria da existência.

52. ao ser-junto da existência cotidiana, em que se esquece a si mesmo enquanto singularidade e se vive segundo o modo da maioria vazia, é preciso, assim, opor a comunidade de singularidades, sendo o ser-junto dessa comunidade precisamente o sentido da existência como tal, a comunidade de existentes mortais e fáticos.

A VERDADE DA ESSÊNCIA

1. Essência como desdobramento

53. seguindo o caminho heideggeriano, indaga-se pela essência da verdade, tendo-se, até aqui, interpretado “essência” como significando possibilidade e fundamento, revelando-se, assim entendida, a essência da verdade como existência, sendo a possibilidade e o fundamento do conceito ordinário de verdade — verdade como correspondência — o Dasein humano, entendido como desveladura.

54. no decorrer dessa mesma conferência (“Da Essência da Verdade”) com que se começou, Heidegger passa a entender essência de modo diverso, sendo bastante notável que, ao transformar o sentido de essência, comece a alterar radical e decisivamente o sentido da própria verdade e de sua conexão com o ser.

55. esse novo sentido de essência não é arbitrário, pois o alemão Wesen não é exatamente o mesmo que o latim essentia, sendo tanto verbo quanto substantivo — como verbo, significa algo como ser (sein), acontecer (geschehen), demorar-se (sich aufhalten), vindo do alto-alemão antigo wesan, permanecer, ou peregrinar (verweilen), habitar, morar (wohnen), ficar (possivelmente por uma noite) (übernachten).

56. até aqui, foi possível identificar a existência como a essência (no sentido de fundamento) da verdade, na medida em que se caracteriza primeira e principalmente como operação de desvelamento, ou clareamento, lançando essa operação, ou esse modo de ser, luz sobre o conceito grego de aletheia.

57. parece, então, que, na maior parte, meu próprio ser consiste numa dupla operação de clareamento e ocultamento, de verdade e não-verdade, parecendo, também, que verdade e não-verdade não são simplesmente opostas, e mutuamente excludentes, como inicialmente se pensava, parecendo também, de passagem, que o antigo e perene ideal de verdade como transparência total, ou abertura absoluta, está, no mínimo, desafiado.

58. eis a razão pela qual, em movimento adicional, Heidegger chama a não-verdade de “não-essência” (Un-Wesen) da verdade, longe de designar algo como a negação da verdade, ou sua recusa, apontando o “não-” na direção dessa realidade até então inexplorada no cerne dos entes, sendo a “não-essência” tentativa de pensar o que está em jogo no “não-” da não-verdade em sua relação com a verdade.

59. se Heidegger caracteriza essa essência da verdade como não-essência, é realmente para enfatizar a medida em que não é uma essência no sentido clássico do termo, no próprio sentido que ele mesmo usara até agora na conferência, a saber, como “possibilidade”, ou “fundamento”: a não-verdade, o ocultamento originário, não é um fundamento (Grund), mas um abismo (Ab-grund).

60. nesse sentido, é a im-possibilidade do mundo, aquilo que o mundo mesmo jamais será, mundificando o mundo com base num fundamento que sempre se retrai, significando isso que a condição de possibilidade da verdade é ao mesmo tempo a condição de sua impossibilidade: nunca há, nem jamais haverá, verdade “pura”, “absoluta”; a presença jamais é plena, presença total.

61. mas agora Heidegger descobre haver algo mais antigo do que a verdade da existência, descobrindo que a própria existência clareia ou desvela “com base” (esses termos são, já se percebe, inteiramente inadequados) em algo bem mais misterioso, e bem mais esquivo, do que a existência, a saber, a verdade do próprio ser.

2. Verdade e não-verdade

62. no que equivale a uma virada decisiva na história da filosofia (e, argumenta Heidegger, na própria história), a questão com que se começou, a referente à essência da verdade, sofreu conversão radical, senão inversão, sendo agora a questão referente à verdade da essência (de Wesen no sentido de Sein, já esclarecido): “a essência da verdade”, escreve Heidegger, “é a verdade da essência”.

63. a verdade revela-se, no fim, não apenas uma questão entre outras, mas o caminho para a questão que Heidegger vinha perseguindo quase desde o início, a saber, a questão referente ao ser, passando, a partir dos anos 1930, a referir-se à sua questão como a questão referente à verdade do ser, e já não à referente ao sentido do ser humano.

64. verdade e não-verdade são ambas tendências: a verdade tende ao Aberto, ao manifesto, à presença, ao passo que a não-verdade tende ao fechamento, à não-manifestação e ao não-aparente, sendo, se, conforme o espírito da obra inicial, o conceito de “mundo” designa a primeira, introduzido agora o de “terra” para designar a dimensão de ocultamento no cerne do manifesto.

65. contrariamente ao que os gregos, e a tradição filosófica ocidental deles derivada, acreditavam, a presença não é o sentido fundamental do ser: ser não é simplesmente, nem primariamente, estar presente, sendo antes aquilo que a tradição filosófica tomava por sentido primordial do ser apenas derivativo e secundário, sendo a presença o resultado, o efeito de superfície, por assim dizer, da contenda originária entre verdade e não-verdade.

66. Marx acreditava que a luta de classes era o motor da história; Heidegger acredita ser luta de tipo diverso o que conduz a história, ou se manifesta como história: a luta entre verdade e não-verdade, o polemos originário do ser, não sendo essa, para ele, visão abstrata do mundo, sendo antes essa luta o que decide nosso destino no nível mais fundamental, encenando-se nessa contenda nossa relação com o mundo, conosco mesmos e com os outros, com o que chamamos natureza e com o que chamamos cultura.

67. de perspectiva histórica (histórica no sentido já começado a evocar), a única questão interessante é saber onde e como estamos hoje: como Heidegger entende nosso tempo, nossa época, à luz desse conflito essencial entre a verdade e sua contraessência? E que consequências práticas — éticas e políticas — teve tal compreensão sobre sua vida? São essas questões a serem abordadas em conexão com a análise heideggeriana da técnica e de sua política, aludindo-se, neste ponto, apenas ao que, tentativamente, poderíamos chamar sua filosofia da história.

68. estabeleceu-se que o aparente, ou o manifesto, é apenas o lado visível da essência invisível da verdade, tornando-se, cada vez mais, a fenomenologia heideggeriana, ao tornar-se ontológica, e ao atentar particularmente à verdade do ser, uma fenomenologia do não-aparente e do invisível.

69. de certo modo, o próprio Heidegger permaneceu metafísico enquanto entendeu a verdade simplesmente em termos de clareamento, não sendo, contudo, a verdade apenas clareamento: é a clareira na e através da qual algo mais, algo igualmente originário, a saber, a não-verdade ou ocultamento, é abrigado.

70. o equilíbrio pendeu, até aqui, a favor da evidência, do visível, do que se ergue de dentro da verdade, permitindo assim à metafísica desdobrar-se como o questionamento referente à entidade ou ao quê dos entes, estando o olhar da metafísica saturado de entes, tão imbuído e sobrecarregado pela pura presença e visibilidade do mundo que não consegue “ver” o invisível, que é, por assim dizer, o outro lado, o forro do visível.

71. isso não significa, contudo, que o equilíbrio não possa ser feito pender para a outra direção, que o pensamento não possa despertar para o invisível e deslocar sua atenção do intramundano para a origem do mundo, para a terra, não significando que não possa habitar nesse entremeio, nessa luta imemorial que sustenta a história e o destino do pensamento.

72. a terra sempre terá excedido o mundo, mas a terra também sempre fica aquém do mundo, sendo simplesmente outra que o mundo, apenas e sempre preservada e abrigada dentro dele, sendo o desdobrar-se da terra a manifestação do mundo, e essa manifestação, o vir-a-ser do visível, o eclipse da terra, tendo a terra sempre eclipsado a si mesma diante do mundo, mas tendo o próprio resplandecer do mundo sua fonte na luz invisível da terra.

73. para nós, à beira do outro início, trata-se de saber se somos capazes de relacionar-nos com os entes com a reserva e a cautela que sozinhas podem fazer justiça à recusa; se, ao relacionar-nos com os entes, podemos simultaneamente assumir o ocultamento que ecoa e reverbera através deles, e assim transpor-nos a seu domínio, e assim tornar-nos algo, ou alguém, diferente.

74. o estado contemporâneo da humanidade em relação à verdade do ser é o de “esquecimento”, descrição tanto estrutural quanto histórica de onde estamos, precisando-se, no nível estrutural, recordar que o Dasein se depara primeira e principalmente com entes do ponto de vista de sua praticidade, necessidade, utilidade etc.

75. há, se quiserem, um impulso à presença, e uma glorificação do prontamente disponível e acessível, do planejamento e do controle, que nos afasta cada vez mais da verdade do ser, sendo esse um estado de ser que, em certa ocasião ao menos, Heidegger caracteriza como “errância”, vendo-o como bem mais catastrófico do que o erro mais grave (incluindo seu próprio erro político de 1933-4).

76. Heidegger tenta despertar certa humanidade, certa história, para essa pobreza, esse defeito que é, não obstante, excesso da presença e da representação reificada do mundo pela qual a metafísica se posta, tratando-se simplesmente — mas essa simplicidade abriga a maior dificuldade — de desencobrir, por trás e abaixo da economia da representação e reificação metafísicas, uma economia inteiramente diversa.

77. o homem “metafísico” é o “último homem” referido por Nietzsche em Assim Falou Zaratustra, sendo, segundo Heidegger, o homem do fim do “primeiro início”, o homem que se tornou escravo de sua própria quase-onipotência sobre o mundo, o homem já incapaz de compreender-se como pertencente à essência da verdade.

78. a proximidade com a verdade do ser é o que constitui nossa humanidade, afastando-nos cada vez mais de nossa humanidade essa era tecnocientífica, que nada quer saber do ocultamento, e que pensa a verdade apenas em termos de correção e exatidão, tendo-se tornado tarefa histórica da filosofia trazer-nos de volta a ela.

79. como o buscador (Sucher), preservador (Wahrer) e guardião (Wächter) da verdade do ser-enquanto, o homem pode agora ser visto, de modo que lança mais luz sobre o que Heidegger quis dizer com Sorge ou “cuidado” nos anos 1920, como o zelador do ser-enquanto, envolvendo esse zelar operação irredutível de criação.