O estilo, situado quase além da literatura, nasce do corpo e do passado do escritor e constitui um idioma autárquico que se afunda na mitologia pessoal e secreta do autor.
Sob o nome de estilo forma-se a primeira união das palavras e das coisas, onde se instalam de uma vez por todas os grandes temas verbais da existência do escritor.
O estilo é sempre algo em bruto: forma sem objetivo, produto de um impulso e não de uma intenção, dimensão vertical e solitária do pensamento.
Suas referências situam-se no nível de uma biologia ou de um passado, não de uma História; é a coisa do escritor, seu esplendor e sua prisão, sua solidão.
Indiferente e transparente à sociedade, o estilo não é de modo algum produto de uma escolha ou reflexão sobre a literatura; é a parte privada do ritual, eleva-se das profundidades míticas do escritor fora de sua responsabilidade.
Funciona ao modo de uma Necessidade, como se o estilo fosse o termo de uma metamorfose cega e obstinada saída de um infraliinguagem que se elabora no limite da carne e do mundo.
A palavra tem estrutura horizontal, seus segredos estão na mesma linha de suas palavras e o que esconde se desata na duração de seu contínuo; o estilo tem dimensão apenas vertical, afundando-se no passado fechado da pessoa.
O estilo é sempre metáfora, equação entre a intenção literária e a estrutura carnal do autor; seu segredo é uma lembrança encerrada no corpo do escritor, fenômeno de densidade e não de velocidade como na palavra.
Por sua origem biológica, o estilo situa-se fora da arte, isto é, fora do pacto que liga o escritor à sociedade.
Gide é o tipo do escritor sem estilo cuja maneira artesanal explora o prazer moderno de certo ethos clássico; a poesia moderna de Hugo, Rimbaud ou Char é saturada de estilo e é arte apenas por referência a uma intenção da Poesia.