Apel

Karl-Otto Apel (1922-2017)

Se considerarmos a fundamentação heideggeriana da 'ontologia fundamental' a partir da analítica existencial do Dasein, torna-se imediatamente evidente que aqui a abordagem clássica da filosofia do conhecimento — a saber, a questão da relação entre o Eu e o mundo, entre Sujeito e Objeto — foi superada por um ponto de partida radicalmente novo. O Dasein não é um sujeito cognoscente que se encontra frente a frente com o mundo para apenas depois tentar construir uma ponte cognitiva até ele; o Dasein já é, desde sempre, em sua própria estrutura constitutiva, um 'ser-no-mundo'. Ao compreender a 'compreensão' (Verstehen) não como um mero método das ciências humanas, mas como uma categoria existencial, como o modo de ser do próprio Dasein que se projeta no mundo, Heidegger libertou a filosofia dos limites do solipsismo metodológico que aprisionava o pensamento desde Descartes e Kant. Ele demonstrou que a abertura originária do sentido precede qualquer ato de reflexão teórica.

APEL, Karl-Otto. Transformação da Filosofia. Tomo I: Filosofia Analítica, Semiótica, Hermenêutica. Tradução de Paulo Astor Soethe. São Paulo: Loyola, 2000, p. 241.