Aristóteles, na *Metafísica*, sugere que os mitos são vestígios fossilizados de uma sabedoria ancestral ou de uma ciência perdida que identificava as primeiras essências como deuses, sendo a roupagem fabulosa um acréscimo posterior destinado à persuasão do vulgo e à manutenção da ordem social e política.
A distinção fundamental entre mito (*muthos*) e fábula reside no fato de que o mito, nas suas formas arcaicas, não possui necessariamente um sentido subentendido ou alegórico (*hyponoia*) distinto da sua apresentação imediata; ele é a própria divindade na sua opacidade e presença maciça, não uma cifra intelectual para outra coisa.
A compreensão de um mito exige não uma explicação externa, mas uma vivência interna através de rituais iniciáticos que operam uma mutação no sujeito; a incapacidade moderna de distinguir entre o mítico e o fictício sinaliza uma degradação espiritual, contrastando com as civilizações antigas que, como os egípcios observaram no diálogo *Crítias* de Platão, viviam os seus mitos como realidades concretas e imemoriais.
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*PS: ALLEAU, René. A ciência dos símbolos: contribuição ao estudo dos princípios e dos métodos da simbólica geral. Isabel Braga. Lisboa: Edições 70, 1982.*