Agostinho da Silva

SILVA, Agostinho da. Filosofia enquanto poesia: sete cartas a um jovem filósofo, conversação com Diotima, filosofia nova e outros escritos. São Paulo: É Realizações Editora, 2019.

Eduardo Giannetti

A leitura de um texto filosófico ou literário não é uma simples troca de informações entre autor e leitor — é o enredo do cruzamento de dois solilóquios silenciosos e separados no tempo.

Ler Agostinho da Silva hoje se justifica porque o que ele tem a dizer diz respeito ao presente — os dilemas e impasses que formula, não menos que os sonhos e aspirações que projeta, permanecem agudamente atuais.

O cerne da contribuição filosófica de Agostinho contempla dois componentes estreitamente ligados: um de ordem epistêmica e outro de ordem ético-prática.

A ignorância infinita desconforta o saber finito — nossas ideias sobre o mundo são o produto de uma parte finita e contingente do universo procurando dar conta de uma realidade infinita, mutável e extremamente complexa.

A filosofia da história de Agostinho nasce do seu compromisso com a ação transformadora e da sua firme recusa a “contemplar em sossego os desvarios do mundo.”

O que é absolutamente original em Agostinho é o que ele tem a dizer sobre a função planetária dos povos e culturas de língua portuguesa e seu potencial de liderança na superação dos impasses do tecnoconsumismo ocidental.

O Brasil, onde Agostinho viveu e trabalhou por mais de vinte anos, converteu-se com o tempo em depositário de suas mais caras esperanças.

A mitopoética do advento do Reino do Espírito Santo, inspirada na teologia da história do abade cisterciense calabrês Joaquim de Fiore, consubstancia a visão agostiniana do retorno, em novo patamar, dos ideais de cooperação, irmandade e espírito comunitário da cultura ibérica medieval.