AGAMBEN, Giorgio; AGAMBEN, Giorgio. L’ uso dei corpi. Vicenza: Neri Pozza editore, 2014 / O uso do mundo. Tr. Cláudio Oliveira. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2014
4. Relação entre Uso e Cura em Martin Heidegger
4.1. O Primado Ontológico da Cura (Die Sorge) como Estrutura Fundamental do Dasein em Ser e Tempo
A complexidade da Cura (die Sorge) na obra Essere e tempo de Martin
Heidegger, em face da possível não leitura do capítulo «A cura (die Sorge) como ser do Dasein» por Michel
Foucault
Definição da Cura (die Sorge) como «a totalidade originária do conjunto das estruturas do Dasein» (die ursprüngliche Ganzheit des Strukturganzen des Daseins) (
Heidegger 1, p. 180)
Citação completa da definição: «A cura, enquanto totalidade estrutural unitária, se situa, de modo existencialmente a priori , “antes” de todo, ou seja, já sempre em todo fatício “comportamento” e “situação” do Dasein»
O Dasein com estrutura de Cura (die Sorge) encontrado fatíciamente «atirado no mundo» e inserido na «mundanidade do mundo» segundo
Heidegger
4.2. A Intraduzibilidade do Termo Umgang de Kerényi e a «Familiaridade que Usa e Maneja» em Heidegger
Implicação da intercambiabilidade entre sujeito e objeto: «O objeto da familiaridade deve poder se mudar a todo momento no sujeito daquela mesma familiaridade; e nós, que cultivamos a familiaridade com ele, devemos poder nos tornar o objeto» (Kerényi, p. 5)
A familiaridade como Umgang de Kerényi: imediata (nada a separa do mundo) e lugar de indeterminação entre sujeito e objeto (o Dasein, sempre em antecipação sobre si, está «já sempre à mercê das coisas de que se toma cura»)
O Dasein não pode ser concebido como um sujeito «a quem de vez em quando passa pela cabeça de assumir uma relação com o mundo» (
Heidegger 1, p. 57)
4.3. A Relação Originária com a Esfera do Uso e o Paradigma da Manejabilidade
Citação sobre o uso do martelo: «A correta familiaridade com o instrumento, na qual somente ele pode se mostrar de modo genuíno no seu ser (por exemplo, o martelar para o martelo), não compreende tematicamente este ente como coisa que se apresenta, assim como o usar não compreende a estrutura do instrumento como tal. O martelar não se resolve em um simples conhecimento do caráter de instrumento do martelo, mas, ao contrário, já se apropriou deste instrumento como o mais adequadamente não seria possível. Nesta familiaridade que faz uso , o tomar-se cura deve se submeter ao caráter de finalidade [Um-zu, «para um propósito»] constitutivo de cada instrumento. Quanto menos o martelo é somente contemplado e quanto mais adequadamente é usado , tanto mais originário se torna o relacionamento com ele e tanto mais ele vem ao nosso encontro sem véus como aquilo que é, ou seja, um instrumento. É o próprio martelar que descobre a específica «manejabilidade» do martelo. O modo de ser do instrumento, no qual ele se manifesta por si mesmo, nós chamamos «manejabilidade» » (
Heidegger 1, p. 69)
«Maneiras do in-ser» (Weisen des In-Seins) análogas à polissemia da chresis grega: «ter a ver com algo , produzir algo, ordenar ou cultivar algo, utilizar algo, abandonar ou deixar perder algo, empreender, impor, pesquisar, interrogar, considerar, discutir, determinar…» (p. 56)
O ente primeiro e imediato é pré-temático, sendo «o usado , o produto, etc.» e não objeto de conhecimento teórico do mundo
Paralelo entre a relação uso-cura e a dialética valor de uso-valor de troca em Karl
Marx (nota de rodapé a)
O privilégio do valor de uso em
Marx (processo de produção orientado ao valor de uso, transformação em mercadoria pela excedência do valor de uso sobre a demanda)
A excedência do valor de uso sobre a utilização efetiva, sendo uma possibilidade ou excedência mantida em estado potencial (como a suspensão da manejabilidade revela a cura em
Heidegger)
4.4. A Estratégia da Angústia para Afirmar o Primado da Cura (die Sorge) sobre a «Familiaridade que Usa e Maneja»
As modalidades do in-ser (In-Sein) possuem o modo de ser do tomar-se cura (Besorgen): «Estas modalidades do in-ser têm o modo de ser (a ser definido, mais tarde, com precisão) do tomar-se cura … A expressão não significa que o Dasein seja antes de tudo e prevalentemente econômico ou prático, mas que o ser do Dasein deve tornar-se visível como cura. Este termo deve ser compreendido [ist… zu fassen] como conceito estrutural ontológico» (p. 57)
Citação: «a manejabilidade não se desvanece simplesmente, mas, na surpresa causada pelo que se torna inutilizável, ela parece quase se despedir. A manejabilidade se mostra ainda uma vez e justamente na sua despedida mostra a conformidade ao mundo do manejável» (p. 74)
A perda de importância da «totalidade de satisfatoriedade, descoberta dentro do mundo, do manejável e do disponível», que «afunda em si mesma»
Citação: «Aquilo diante do qual a angústia é tal, não é nada de manejável no mundo… O nada da manejabilidade se funda em algo de absolutamente originário: no mundo… Aquilo diante do que a angústia se angustia, é o próprio ser-no-mundo. A angústia abre originariamente e diretamente o mundo como mundo» (p. 187)
Conceitos de ordem espacial: o «dis-afastamento» (die Ent-fernung), a «proximidade» (die Nähe), a «região» (die Gegend), o «dispor no espaço» (Einräumen)
Admissão posterior de
Heidegger da impossibilidade de manter a recondução da espacialidade à temporalidade (no par. 70 de Essere e tempo) no seminário Tempo e Ser
4.5. A Dialética do Impróprio (Uneigentlich) e do Próprio (Eigentlich) na Analítica do Dasein
O próprio (Eigentlich) como não tendo «um lugar e uma substância outra» em relação ao impróprio (Uneigentlich): é «existencialmente somente um aferramento modificado disto» (nur ein modifiziertes Ergreifen dieser -
Heidegger 1, p. 179)
O primado do próprio (Eigentlich) (Cura, temporalidade) sobre o impróprio (Uneigentlich) (manejabilidade, espacialidade) repousa em uma estrutura de ser singular: algo existe e se dá realidade aferrando um ser que o precede, mas que se desvanece e se retira
A analogia com a dialética que abre a Fenomenologia do Espírito de
Hegel
O cuidado de
Heidegger contra a interpretação teológica da «queda» (das Verfallen) (nota de rodapé a)
A secularização da doutrina teológica da queda e do pecado original na analítica do Dasein (como
Hegel fez com a doutrina da redenção)
4.6. A Centralidade do Uso (Der Brauch) como Dimensão Ontológica em Der Spruch des Anaximander
Heidegger o traduz como Der Brauch («o uso») (geralmente traduzido como «necessidade»)
A etimologia do
chreon (
Heidegger) ligada à mão e ao manusear
chrao significa: «eu trato, mantenho algo, eu o pego na mão, dou uma mão» (ich be-handle etwas, «eu trato, mantenho algo, a pego na mão, vou a ela e vou-lhe à mão» - gehe es an und gehe ihm an die Hand)
Chrao significa também «dar na mão, entregar» (in die Hand geben, einhändigen), «restituir a uma pertinência»
O dar na mão (Aushändigen, «entregar») que «detém na mão» (in der Hand behält) a remessa e o remetido (
Heidegger 3, p. 337)
Citação: «O termo [to chreon] pode somente significar o essentificante na presença do presente , ou seja, a relação, que no genitivo (do) vem obscuramente à expressão. To chreon é, ou seja, o dar na mão da presença, o qual dar na mão entrega [aushändigt] a presença ao presente e, deste modo, detém na mão o presente como tal, ou seja, o custodia na presença» (p. 337)
O significado etimológico preferido: brauchen é bruchen, o latim frui (correspondente ao alemão fruchten, «frutar», e Frucht, «fruto»)
O significado fundamental de brauchen no sentido de frui em
Agostinho: «O que é de fato outra coisa que dizemos frui, a não ser ter à disposição o que amas?» (Quid enim est aliud quod dicimus frui, nisi praesto habere, quod diligis?)
O frui contém ter à disposição (praesto habere), sendo praesto e praesitum o hypokeimenon (o que está diante de nós na inatência, a ousia, o que é a cada vez presente)
Citação: «“Usar” significa, portanto: deixar ser presente algo de presente como presente; frui, bruchen, brauchen, Brauch significam: entregar algo ao seu próprio ser e detê-lo na mão que o custodia como presente… O uso é pensado como o essentificante no próprio ser» (p. 338-339)
4.7. Relação entre Uso Ontológico e «Familiaridade que Usa e Maneja»