Compreensão do problema exige aproximá-lo ao tema da liberdade exposto em Vom Wesen des Grundes [GA9], no qual a facticidade original ou transcendental é essencial e o existir significa, no meio do ente, ser em relação com o ente de modo que na relação emotivamente situada o que está em jogo é o poder ser do próprio Dasein
existir implica relação com o ente que não é Dasein, consigo mesmo e com semelhantes
no projeto de mundo, um excesso do possível é dado
do investimento pelo ente real e desse excesso surge o porquê (GA9:Weg., 64)
Liberdade põe o Dasein em sua essência como poder ser nas possibilidades abertas perante sua escolha finita, isto é, em seu destino (GA9:Weg., 70)
Dasein fáctico, por ter de ser suas maneiras de ser, é sempre no modo possível
há excesso de possibilidade em relação ao ente e, ao mesmo tempo, falta
ocorre inversão das possibilidades em impotência radical perante o ente ao qual o Dasein está entregue
Copertença de potência e impotência analisada no curso do semestre de verão de 1928 [GA26] antecipa temas de Vom Wesen des Grundes e afirma superioridade da categoria do possível sobre o real, com a liberdade transcendental constituindo a essência do Dasein que, por necessidade essencial, está para além de todo ente fáctico e, nesse excesso, experimenta o ente em sua resistência como aquilo diante do qual é impotente
impotência metafísica essencial não é desmentida pelo domínio técnico sobre a natureza, prova da impotência metafísica do Dasein
liberdade só é obtida em destino histórico
deixa se o ente ser porque nas relações fácticas há excesso de possibilidade
Dasein, por ser livre, deve manter se na condição da possibilidade de sua impotência, na liberdade de fundar
pergunta se ao ente por seu fundamento, interrogando o porquê, enquanto a possibilidade excede em nós a realidade e, com o Dasein, torna se existente (GA26:Met. Anf., 279-280)
Passagem sobre mögen e sua conexão com o amor na Carta sobre o humanismo deve ser lida em estreita relação com o primado da possibilidade, na qual a potentia em questão é potentia passiva, dynamis tou paschein, cuja solidariedade secreta com a potência ativa (dynamis tou poiein) é sublinhada no curso sobre a Metafísica de Aristóteles
toda potência (dynamis) é impotência (adynamia)
todo poder (dynasthai) é essencialmente passividade (dechesthai) (GA33:Ar. Met., 114)
nessa impotência ocorre um acontecimento original (Urgeschehen) que determina o ser do Dasein e abre o abismo de sua liberdade
que o Dasein seja si mesmo segundo sua possibilidade e o seja facticamente em conformidade com sua liberdade, que a transcendência se temporalize como acontecimento original, não está em poder dessa liberdade
tal impotência, o ser lançado, determina o ser do Dasein como tal, não resultando da entrada do ente nos domínios do Dasein [GA9:Weg., 70]
Paixão, como potentia passiva, é a experiência mais radical da possibilidade (mögen) em jogo no Dasein, um poder que pode não apenas a potência, as maneiras de ser facticamente possíveis, mas também e antes de tudo a impotência, coincidindo a experiência da liberdade no Dasein com a experiência da impotência
impotência situa se no mesmo plano que a facticidade original ou dispersão original [ursprüngliche Streuung] que, segundo o curso de verão de 1928, constitui a possibilidade interna da dispersão fáctica do Dasein
Paixão, como potência passiva e mögen, pode sua própria impotência, deixa ser não apenas o possível, mas também o impossível, e assim reúne o Dasein em seu fundamento para abri lo e torná lo eventualmente dono do ente nele e à sua volta, sendo a força imóvel do possível essencialmente paixão, potência passiva, com mögen (poder) significando lieben (amar)
questiona se como pode dar se uma apropriação que não se apropria de uma coisa, mas da impotência e da própria impropriedade
questiona se como é possível poder não tanto uma possibilidade e uma potência, mas antes uma impossibilidade e uma impotência
questiona se o que é uma liberdade que é antes de tudo paixão