AGAMBEN, Giorgio. A potência do pensamento. Ensaios e conferências. Tr. Antônio Guerreiro. Belo Horizonte: Autêntica, 2015:255-259
Observação recorrente acerca da ausência do amor na obra de
Heidegger
O problema do amor aparece como ausente da obra heideggeriana, sobretudo em Sein und Zeit, apesar da ampla análise das Stimmungen, como o medo e a angústia, desenvolvida na analítica existencial.
A única menção ao amor ocorre em uma nota que remete a duas citações, uma de
Pascal e outra de
Agostinho, sem elaboração conceitual própria.
A partir dessa constatação, formulam-se críticas segundo as quais a analítica do Dasein, fundada exclusivamente na Sorge, deixaria de conceder lugar estrutural ao amor.
Koepp, em 1928, e Binswanger, em 1942, censuram a ausência do amor na constituição fundamental do Dasein.
Em nota de caráter hostil,
Jaspers qualifica a filosofia heideggeriana como desprovida de amor, inclusive em seu estilo.
No seminário de Zollikon, esclarece-se que o cuidado, quando interpretado apenas como determinação antropológica do Dasein isolado como sujeito, pode parecer unilateral e necessitado de integração pelo amor.
O cuidado, compreendido de modo fundamental, mostra-se inseparável do amor, pois nomeia a constituição extático-temporal do caráter fundamental do Dasein, isto é, a compreensão do ser.
O amor funda-se de maneira decisiva na compreensão do ser, assim como o cuidado quando entendido antropologicamente.
Uma determinação essencial do amor orientada pela determinação fundamentológica do Dasein alcança maior profundidade e maior alcance do que uma definição que o conceba apenas como algo mais elevado em relação ao cuidado.
AGAMBEN, Giorgio. A potência do pensamento. Ensaios e conferências. Tr. Antônio Guerreiro. Belo Horizonte: Autêntica, 2015