De Brosses, Marie-Thérèse. Raymond Abellio. De la Politique à la Gnose. Paris: Pierre Belfond, 1987
GÉNÉALOGIE ET TRANSFIGURATION DE L'OCCIDENT ORIGINAL
Conférence faite par Raymond Abellio à la Bibliothèque Nationale de Lisbonne le 31 mai 1977
A história transcendental exige o estabelecimento de relações estreitas entre todos os fatos, relativizando-os e fazendo-os remontar a uma causa comum, o que implica uma operação intelectual fundamentalmente diferente das habituais sobre a noção de causalidade.
A passagem das causas eficientes às causas finais, isto é, a remontada do efeito à causa, expõe-se ao risco de todos os devaneios intelectuais; Espinoza dizia que as causas finais são o asilo da ignorância.
Os esoteristas e os guardiões da Tradição sempre tentaram discernir na massa complexa dos eventos sua orientação e explicá-los pelo fim que perseguiam.
Sêneca já se admirava da atitude dos sacerdotes etruscos, para quem não é porque as nuvens se encontram que o raio irrompe, mas é a fim de que o raio irrompa que as nuvens se encontram.
A método proposta não é a das causas finais aplicada sistematicamente, mas uma método operacional e lógica, uma nova lógica, que os americanos chamariam de nova gnose, destinada a servir de parapeito aos devaneios poéticos dos simbolismos que invadiram o esoterismo.
Existe uma Tradição primordial comum a todas as religiões, filosofias, mitos e símbolos, dada de uma só vez à humanidade de forma velada, cujos documentos essenciais comportam símbolos sujeitos a dificuldades de interpretação.
Os ideogramas, ao contrário dos textos verbais, não são suscetíveis de variações estruturais; recebidos tal como são, transmitem-se sem alterações possíveis.
Os dois ideogramas fundamentais da Tradição e pedras de toque da nova gnose são a Árvore das Sefirot da Cabala e os hexagramas do I-Ching dos antigos chineses, documentos de cinco a seis mil anos ou mais, cuja articulação geométrica permaneceu inalterada apesar de toda a gama de comentários acumulados.
Os homens que receberam essa revelação não dispunham dos elementos, operadores ou meios intelectuais capazes de traduzir essas noções em frases claras, pois viviam em estado de participação universal do mundo, de clariaudiência, que os antigos hindus chamavam shruti, uma espécie de sinestesia onde o mundo lhes falava e os sentidos se fundiam.
A Gênese de Moisés confirma essa sinestesia ao dizer que o povo via os sons do trovão e das trombetas; e ao sair do Paraíso, desse estado de indistinção entre homem e mundo, Adão e Eva receberam envoltórias de pele, o que significa terem sido constituídos como indivíduos separados, dotados de um ego que não possuíam.
Toda a involução da humanidade no período descendente consistiu em conferir ao homem uma razão separada e analítica, cujo triunfo com Galileu,
Descartes e Newton inaugurou os tempos modernos e instaurou a dualidade entre homem e mundo, espírito e matéria.
Esse triunfo produziu o enorme êxito das ciências modernas e, simultaneamente, a crise atual, que é a consequência imediata do próprio triunfo.
O fenômeno biológico da neotenia, pelo qual o feto e o recém-nascido humano parecem em atraso relativamente ao símio quanto aos poderes físicos, é o penhor de uma ascensão superior; os homens antigos possuíam poderes de orientação e premonição que os animais ainda têm e que a razão separada obliterou.
Os numerosos sinais contemporâneos indicam que se está abandonando o domínio da razão separada e analítica em direção a uma reintegração no sentido da razão transcendental husserliana, que colocará o homem em estado de comunhão com o mundo, momento em que espírito e matéria não serão mais que um.
A distinção entre mística e gnose, entre fé e conhecimento, torna-se cada vez mais importante num momento em que o Ocidente é invadido por técnicas de adormecimento da racionalidade ocidental de origem oriental.
Os ocidentais não devem cultivar complexos de inferioridade nem de culpa em nome de seus triunfos históricos no plano do poder, diante da sedução dessas técnicas orientais.
O Ocidente possui suas próprias técnicas a apresentar, técnicas de gnose e não de mística, e o objeto do exposé é precisamente a busca dessas técnicas e desses modos operatórios que se impõem hoje aos ocidentais conscientes e organizados.
A desocultação dos textos sagrados e da Tradição acompanha esse movimento, e importa ver como, ao longo de vinte e cinco séculos de história ocidental, essa Tradição se manteve subterraneamente numa genealogia da emergência progressiva da história santa e secreta.