====== A PÍLULA AZUL CHAMADA METAVERSO ====== * A matriz simbólica como parasita do gozo humano * O nome-chave de Lacan para o Real é //jouissance// (gozo) * A matriz simbólica em que habitamos precisa dos humanos para se apropriar de seu gozo * Por meio desse gozo, a matriz pode preencher (ou antes, encobrir) suas inconsistências e antagonismos * A imagem central do filme //Matrix// como fantasia fundamental * O impacto único do filme reside na imagem de milhões de seres humanos levando uma vida claustrofóbica em berços cheios de água * Eles são mantidos vivos para gerar a energia para a Matriz * O "despertar" da realidade virtual controlada pela Matriz não é a abertura para o amplo espaço da realidade externa * É primeiro a horrível realização deste enclausuramento fetal * A passividade absoluta como fantasia recalcada * Esta passividade total é a fantasia recalcada que sustenta nossa experiência consciente como sujeitos ativos e auto-posto * É a fantasia perversa última: a noção de que somos, em última instância, instrumentos do gozo do Outro (da Matriz) * Somos sugados de nossa substância vital como baterias * O Real como a própria Matriz e a posição de servidão * A diferença crucial: o Real não é a realidade externa para a qual despertamos * O Real é a própria Matriz e nossa posição de servidão a ela, nossa redução a sua fonte de energia * Este horror de submissão total é o Real que sustenta nossa falsa liberdade de circular em diferentes realidades reguladas pela Matriz * O erro do filme //Matrix//: a Matriz como objeto controlado por uma mega-subjetividade * O filme presume que a Matriz é um objeto no mundo (na realidade) controlado por uma mega-subjetividade (inteligência artificial) * Esta ideia é um sonho paranóico, mas hoje nos aproximamos cada vez mais de realizá-lo * Estamos construindo Matrizes, máquinas fabricadas que prometem desempenhar um papel transcendental * A "inteligentização" da guerra e o controle mental como nova frente * A Academia de Ciências Médicas Militares da China persegue a "inteligentização" da guerra * A guerra começa a mudar da busca pela destruição de corpos para a paralisia e controle do oponente * Podemos ter certeza de que o Ocidente faz o mesmo, possivelmente com um verniz humanitário * O metaverso de Zuckerberg como a "pílula azul" contemporânea * Um dos nomes para "tomar a pílula azul" é o projeto de "metaverso" de Zuckerberg * Tomamos a pílula azul ao nos registrarmos num metaverso onde as limitações da realidade comum são magicamente deixadas para trás * O preço a pagar é alto: Zuckerberg tem "controle unilateral sobre 3 bilhões de pessoas" * O desaparecimento do espaço público moderno e o manifesto neo-feudal * A grande conquista da modernidade, o espaço público, está assim desaparecendo * O discurso de Zuckerberg sobre o metaverso é um verdadeiro manifesto neo-feudal * Ele quer que o metaverso acabe por englobar o resto de nossa realidade, subsumindo totalmente o que pensamos como mundo real * A padronização mecânica da interação humana * No futuro planejado, não é que as simulações atinjam o nível da realidade, mas que nossos comportamentos se tornarão tão padronizados que não importará * Em vez de expressões faciais humanas, avatares farão gestos icônicos de polegar para cima * Aprendemos a rebaixar nossa experiência de estar juntos para ver a projeção do outro sobreposta à sala como uma figura de realidade aumentada * O metaverso como metafísica atualizada e a apropriação privada do comum * O metaverso será nada menos que a metafísica atualizada: um espaço meta-físico subsumindo totalmente a realidade * A realidade só será permitida em fragmentos, na medida em que for sobreposta por diretrizes digitais que manipulam nossa percepção * O problema é que obteremos um //commons// que é de propriedade privada, com um Senhor feudal privado regulando nossa interação * Yanis Varoufakis fala corretamente da "ascensão de uma nova classe dominante baseada na nuvem" * A aquisição do Twitter por Elon Musk como salvaguarda neo-feudal da liberdade * Musk vê a aquisição do Twitter como um ponto de virada para a civilização, para garantir que permaneça uma plataforma confiável para a democracia * Ele define liberdade de expressão em termos de gostar/não gostar: se alguém que você não gosta pode dizer algo que você não gosta, então temos liberdade de expressão * A questão é que tipo de mundo vivemos, onde apenas a propriedade privada (por um único indivíduo) de um dos //commons// principais pode garantir liberdade e democracia * É um mundo onde o neo-feudalismo se apresenta como a salvaguarda das liberdades * A definição de Musk reduz a verdade a opiniões tratadas como iguais, ignorando verdades sobre direitos humanos, educação, saúde * A necessidade libidinal das máquinas pelos humanos * Independentemente do grau de automação, as máquinas ainda precisarão dos humanos * Elas nos necessitam não por nossa inteligência e planejamento consciente, mas em um nível mais elementar de economia libidinal * A ideia de que as máquinas poderiam se reproduzir sem humanos é semelhante ao sonho de uma economia de mercado se reproduzir sem humanos * A fantasia ideológica do capitalismo como monstro auto-reprodutor * Analistas propuseram que, com a robotização e a IA, o capitalismo gradualmente se transformaria em um monstro auto-reprodutor * Seria uma rede de máquinas digitais e de produção com cada vez menos necessidade de humanos * Propriedade e ações permaneceriam, mas a competição nas bolsas seria feita automaticamente, apenas para otimizar lucro e produtividade * O caráter virtual e social do capital * Esta perspectiva, por mais perversamente atraente que seja, é uma fantasia ideológica * O capital não é um fato objetivo como uma montanha ou uma máquina que permaneceria se todas as pessoas desaparecessem * Ele existe apenas como um Outro virtual de uma sociedade, uma forma "reificada" de uma relação social * Os valores das ações são o resultado da interação de milhares de indivíduos, mas aparecem a cada um como algo objetivamente dado * O paralelo com genes e memes: os humanos como instrumentos de autorreprodução * A ideia de capital se transformando em um monstro auto-reprodutor é semelhante à ideia de Richard Dawkins sobre genes * Nós, humanos, não apenas nos reproduzimos através de genes, mas também podemos ser considerados instrumentos da autorreprodução dos genes * Marx descreveu essa mudança: as pessoas produzem e trocam mercadorias para satisfazer suas necessidades, mas, com o capitalismo, isso se torna um instrumento da autorreprodução do próprio capital * O problema da "vontade" do capital e a seleção natural de memes * A questão é em que sentido podemos imputar ao capital uma postura intencional própria, tratá-lo como uma entidade com vontade própria * No nível dos genes (e memes), Dawkins nunca vai ao extremo de imaginar genes se reproduzindo diretamente, ignorando organismos individuais * Surge o problema da premissa de Dawkins de que a reprodução funciona como uma seleção natural onde os genes e memes "melhores" sobrevivem * A crítica de Dennett: a circularidade da avaliação de memes * Daniel Dennett aponta a circularidade: quando examinamos as razões para a propagação de memes científicos, descobrimos que são "boas" * Mas esta é a posição oficial padrão da ciência, que é inegável em seus próprios termos, mas questionável para o mulá e a freira * Dennett pergunta: Onde está o ponto de Arquimedes a partir do qual você pode entregar sua bênção à ciência? * Se as pessoas são em grande medida a criação de memes, então como podemos avaliar objetivamente os memes? * A dimensão que falta às máquinas: o gozo em sua forma mais estúpida * O que falta às máquinas não é a inteligência, mas o //jouissance// em sua forma mais estúpida * A declaração do ator esloveno Blaž Popovski capta isso: "Você tem que aproveitar — mesmo que não concorde!" * O gozo é uma injunção superegoica que você tem que seguir mesmo se não concordar com ela * A canção grudenta como exemplo da pressão do gozo * Todos conhecemos a sensação de ser assombrado por um fragmento musical que achamos até desagradável * O que nos assombra certamente não traz prazer; a pressão que experimentamos é a do gozo (//enjoyment//) * A lista "50 Canções Difíceis para Tirar da Sua Cabeça" atesta esse fenômeno vexatório * Vítimas que têm que gozar: a extração de mais-gozo * Quanto mais os humanos gozam, mais mais-gozo (//surplus-enjoyment//) pode ser extraído deles * O paralelo de Lacan entre mais-valia e mais-gozo é confirmado aqui * Lacan está plenamente consciente de que o gozo é um fator político: "a intrusão no político só pode ser feita reconhecendo que o único discurso que há [...] é o discurso do gozo" * A mobilização do gozo como condição para a adesão ideológica * A ideologia e a política não podem ser explicadas apenas por referência a interesses de classe ou pela análise discursiva da hegemonia * Para uma ideologia realmente nos dominar, ela tem que mobilizar a dimensão do gozo * A opressão das mulheres é sustentada pelo medo de que, se não controladas, as mulheres explodirão em prazeres excessivos * O racismo inveja os gozos do Outro, percebendo-o como uma ameaça aos gozos que formam nosso modo de vida * Investimentos ideológicos passionais e suas combinações perversas * Todos esses investimentos ideológicos passionais são atravessados pelo sadismo, masoquismo e todas as suas combinações pervertidas * Isso inclui gozar com a própria humilhação * A mobilização do gozo é o que dá força duradoura e profundidade psicológica aos apegos ideológicos * O gozo extremo contemporâneo: o prospecto do apocalipse * O caso extremo de gozo hoje é a perspectiva do apocalipse em todas as suas versões (pandemia, catástrofes ecológicas, guerra nuclear, dissolução da ordem social) * Inclui o próprio conhecimento total: não seria propriamente apocalítico ganhar acesso direto ao fluxo de pensamentos de outro? * Lorenzo Chiesa aponta que este desejo é "manifestamente testemunhado por nossa atual fascinação com figuras virológicas, ecológicas e tecnológicas do Apocalipse" * O desejo de ser Um para gozar absolutamente no conhecimento * Usando a terminologia do Seminário XX, é um desejo de ser Um para gozar absolutamente através e no conhecimento (sexual) * Este desejo, em vez disso, leva à entropia máxima * Pensemos em um //snuff movie// (filme pornográfico que mostra a tortura e assassinato real de um dos performers) * A fascinação pela catástrofe e o "morrer de vontade de saber" * Como Lacan colocou de forma concisa: "todo mundo está morrendo de vontade de saber o que aconteceria se as coisas realmente ficassem ruins" * É por isso que somos tão fascinados pelas características precisas de uma realidade distópica * "Morrer de vontade de saber" deve ser tomado em sua ambiguidade: significa que eu realmente gostaria de saber e que esse conhecimento me levaria à morte * A impossibilidade de conhecer plenamente a catástrofe: a quebra da distância * O que a noção de conhecer plenamente uma catástrofe perde é o fato de que, quando nos aproximamos demais dela, a distância necessária para o conhecimento se rompe * Não podemos combinar o real de uma catástrofe total com a distância segura do conhecimento * A ideia de entrar no sol ou em um buraco negro e registrar o que acontece lá é impossível * O saber absoluto de Hegel como incorporação da incompletude * A lição do saber absoluto de Hegel é exatamente o oposto: é um saber que inclui sua própria incompletude * O conhecimento é não-todo no sentido lacaniano: não é que algo //a priori// lhe escape, não há nada que lhe escape, mas por essa mesma razão ele não pode ser totalizado * O mistério cristão versus o mistério materialista * G.K. Chesterton escreveu que o cristianismo reconhece um grande mistério (Deus) como a exceção que permite a um cristão perceber toda a outra realidade como completamente racional e cognoscível * Para um materialista, a situação é exatamente o oposto: não há exceção, razão pela qual toda a realidade está cheia de mistérios (pense nos mistérios da física quântica) * O saber apocalíptico total como versão estúpida do saber absoluto * Podemos dizer que, no mesmo sentido, o antissemitismo é o anticapitalismo do homem estúpido * O conhecimento total de um apocalipse é a versão do homem estúpido para o saber absoluto de Hegel * É uma fantasia de dominação total pelo conhecimento que ignora a incompletude constitutiva de todo saber