====== Young ====== **Julian Young (1943–)** Filósofo, historiador da filosofia e biógrafo britânico-americano, Kenan Professor of Humanities Emeritus na Wake Forest University (Carolina do Norte) e Honorary Research Associate na Universidade de Auckland (Nova Zelândia), Julian Young é uma das autoridades mundiais contemporâneas na filosofia alemã dos séculos XIX e XX, com destaque primordial para os estudos sobre Arthur Schopenhauer, Friedrich Nietzsche e Martin Heidegger. Formado na Universidade de Cambridge e doutorado pela Universidade de Pittsburgh, Young notabilizou-se pela elucidação das interfaces entre estética, metafísica do pessimismo, filosofia da arte e ontologia ecológica. Além de produzir obras biográficas monumentais — entre as quais se destaca a biografia definitiva de Friedrich Nietzsche publicada pela Cambridge University Press —, Young construiu uma reflexão sistemática de fôlego sobre a perda da sacralidade no Ocidente secularizado, o declínio do sentido comunitário da arte na modernidade e os caminhos fenomenológicos para a recuperação do sentido da existência e do habitar poético da terra. **1. Obras Monográficas e Tratados Teóricos Fundamentais (Edições Originais)** * YOUNG, Julian. Willing and Unwilling: A Study in the Philosophy of Arthur Schopenhauer. Dordrecht/Boston: Martinus Nijhoff, 1987. * Foco: Primeira grande monografia; reconstituição sistemática da epistemologia e da metafísica de Schopenhauer, confrontando a consistência interna da doutrina da coisa-em-si como Vontade e a tensão lógica entre o pessimismo radical e a salvação pela ascese e pela compaixão. * YOUNG, Julian. Nietzsche's Philosophy of Art. Cambridge: Cambridge University Press, 1992. * Foco: Exame da evolução da estética nietzschiana em quatro fases cronológicas bem delineadas; análise do papel redentor da tragédia dionisíaco-apolínea em //O Nascimento da Tragédia//, passando pelo ceticismo positivista intermediário até a concepção tardia da arte como contramovimento supremo ao niilismo. * YOUNG, Julian. Heidegger, Philosophy, Nazism. Cambridge: Cambridge University Press, 1997. * Foco: Avaliação filosófico-política do engajamento de Martin Heidegger em 1933; desconstrução de leituras reducionistas e exame do projeto heideggeriano à luz de uma tentativa nostálgica e equivocada de renovação cultural comunitária de raiz grega e hölderliniana. * YOUNG, Julian. Heidegger's Later Philosophy. Cambridge: Cambridge University Press, 2002. * Foco: Introdução sistemática à fase madura da virada ontológica (//Kehre//); exame dos conceitos de Quaternidade (//Geviert//: terra, céu, mortais e divinos), da essência da técnica moderna (//Gestell//) e da serenidade meditativa (//Gelassenheit//). * YOUNG, Julian. Heidegger's Philosophy of Art. Cambridge: Cambridge University Press, 2001. * Foco: Análise vertical do célebre tratado //A Origem da Obra de Arte//; tese de que, para Heidegger, a grande arte não é um ornamento decorativo para o deleite subjetivo burguês, mas o evento inaugural de abertura da verdade histórica e ontológica de um mundo comum. * YOUNG, Julian. The Death of God and the Meaning of Life. London/New York: Routledge, 2003. (2ª edição revista e ampliada: 2014). * Foco: Filosofia da religião e diagnóstico existencial; investigação sobre a crise do sentido da vida no Ocidente pós-iluminista após a proclamação da morte de Deus. Confronto analítico com as respostas propostas por Schopenhauer, Nietzsche, Kierkegaard, Sartre, Camus, Heidegger e Wittgenstein. * YOUNG, Julian. Schopenhauer. London/New York: Routledge, 2005. (Série //Routledge Philosophers//). * Foco: Monografia de referência abrangente; exposição integral da filosofia de Schopenhauer cobrindo epistemologia, metafísica da natureza, filosofia da mente, estética, ética e recepção filosófica oriental. * YOUNG, Julian. Friedrich Nietzsche: A Philosophical Biography. Cambridge: Cambridge University Press, 2010. * Foco: Biografia monumental de referência internacional (com cerca de 650 páginas); entrelaçamento rigoroso entre a trajetória física, epistolar e psicológica do pensador e a evolução conceitual de seus tratados, desmontando mitos biográficos e restabelecendo o compromisso de Nietzsche com a reconstrução comunal de um festival de vida trágico. * YOUNG, Julian. The Philosophy of Tragedy: From Plato to Žižek. Cambridge: Cambridge University Press, 2013. * Foco: História sistemática da teoria estética e ontológica do trágico; exame do tratamento concedido à tragédia por Platão, Aristóteles, Hume, Kant, Schelling, Hegel, Schopenhauer, Kierkegaard, Nietzsche, Freud, Heidegger, Benjamin, Lacan e Žižek. * YOUNG, Julian. Individual and Community in Nietzsche's Philosophy. Cambridge: Cambridge University Press, 2014. * Foco: Reavaliação revisionista da filosofia política e ética de Nietzsche; superação da caricatura do individualismo isolado ou do aristocratismo autossuficiente em favor da centralidade da comunidade, da cultura compartilhada e do culto comunal no projeto nietzschiano. * YOUNG, Julian. German Philosophy in the Twentieth Century: Weber to Heidegger. London/New York: Routledge, 2018. * Foco: Reconstrução das grandes correntes de pensamento de língua alemã na primeira metade do século XX, com foco nas respostas dadas por Weber, Simmel, a Escola de Frankfurt, Husserl, Cassirer e Heidegger ao desencantamento do mundo moderno. * YOUNG, Julian. German Philosophy in the Twentieth Century: Lukács to Strauss. London/New York: Routledge, 2020. * Foco: Segundo volume dedicado à posteridade crítica e às ramificações do pensamento alemão; exegese dos debates entre marxismo ocidental, hermenêutica gadameriana, fenomenologia existencial e a recuperação dos clássicos por Leo Strauss. **2. Edições Críticas, Antologias e Escritos Acadêmicos** * YOUNG, Julian (Ed.). The Packaging of Retirement: Literary and Philosophical Perspectives. Newcastle upon Tyne: Cambridge Scholars Publishing, 2017. * Foco: Reflexão humanística e ética sobre a velhice, o retiro e o ciclo final da existência humana nas sociedades hiperprodutivistas contemporâneas. * YOUNG, Julian. Art and the Sacred in Heidegger. In: Inwood, Michael (Ed.). //Heidegger and the Greeks//. London: Routledge, 2008. * Foco: Exame exegético sobre a convergência entre a arquitetura sacra grega (o templo de Paestum em Heidegger) e a instauração da esfera divina na clareira do Ser. **3. Principais Edições e Recepção em Língua Portuguesa** * YOUNG, Julian. Friedrich Nietzsche: Uma Biografia Filosófica. Tradução de José Gabriel Flores. Lisboa: Edições 70, 2014. (Edição brasileira: Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2017). * Foco: Tradução integral da obra-prima biográfica de 2010; obra adotada nos programas de pós-graduação em filosofia no Brasil e em Portugal como o estudo biográfico e hermenêutico mais completo e academicamente equilibrado sobre Nietzsche. * YOUNG, Julian. A Morte de Deus e o Sentido da Vida. Tradução de Cecília Camargo Bartalotti. São Paulo: Loyola, 2007. * Foco: Circulação marcante no espaço universitário nas áreas de ética, existencialismo e filosofia da religião, fornecendo um roteiro pedagógico e analítico sobre o niilismo e a busca contemporânea por fundamentação axiológica. * Recepção e circulação dos estudos heideggerianos e schopenhauerianos: * Embora monografias cruciais como //Willing and Unwilling// e //Heidegger's Philosophy of Art// não possuam tradução formal em livro no mercado editorial brasileiro, os seus artigos e capítulos teóricos circulam amplamente por meio de citações metodológicas nas pesquisas acadêmicas nacionais sobre a metafísica da arte, a ontologia da técnica e a ética da compaixão. **4. Eixos Metodológicos e Arquitetura Teórica** * A Arte como Revelação Ontológica e Celebração Comunitária: Um dos fios condutores do pensamento de Julian Young é a recuperação do papel da grande arte como matriz ordenadora da vida cultural coletiva. Contra a tradição estética subjetivista inaugurada por Kant — que reduziu a experiência artística ao "gosto" individual, ao prazer estético desinteressado e à visita silenciosa a museus —, Young mobiliza Schopenhauer, o jovem Nietzsche e o último Heidegger para afirmar que a verdadeira arte possui uma função numinosa e comunitária. O templo grego ou a tragédia ática não eram peças museológicas para contemplação privada, mas o centro gravitacional em torno do qual toda uma civilização articulava sua concepção de nascimento, morte, honra, sofrimento e relação com o divino. A decadência moderna decorre precisamente do confisco da arte pelo mercado e pelo entretenimento consumista, que a despiram de sua capacidade de fundar um mundo sagrado comum. * A Desconstrução do Individualismo Solipsista em Nietzsche: Em contraste com a exegese hegemônica que retrata Friedrich Nietzsche como um iconoclasta radical, defensor exclusivo de uma aristocracia de espíritos solitários e autossuficientes alheios à coletividade, Young propôs uma tese revisionista de profundo impacto. Analisando desde os escritos de juventude sobre as instituições educacionais alemãs até os aforismos tardios, o autor demonstra que o objetivo supremo de Nietzsche não era a glorificação de indivíduos soberanos e atomizados, mas a regeneração da cultura comunal. O "gênio" ou o homem superior tem por vocação servir de educador e legislador trágico para guiar a comunidade humana para fora da paralisia do niilismo. O cultivo de si (//Selbstgestaltung//) não é um fim fechado em si mesmo, mas a preparação necessária para instituir festivais públicos e novas tábuas morais capazes de sustentar o sentido coletivo da vida terrena. * Filosofia do Habitar e a Ecologia Profunda em Heidegger: Ao dissecar a maturidade de Martin Heidegger, Young afasta o misticismo nebuloso frequentemente atribuído ao conceito de Quaternidade (//Geviert//) e demonstra sua aplicação prática como uma filosofia ecológica fundamental. Diante da voracidade predatória do //Gestell// (a redução de toda a natureza a "reserva operacional" de matérias-primas e energia disponível para cálculo e consumo), o homem ocidental perdeu a capacidade de "habitar poeticamente". Salvar a terra exige recuperar a modéstia ontológica perante as forças celestes (o clima e os ciclos naturais) e acolher a própria finitude humana perante os "divinos" (os ideais e valores últimos que transcendem a utilidade instrumental). Para Young, a filosofia tardia da técnica e da arte fornece as ferramentas conceituais decisivas para responder à crise climática e ao esgotamento espiritual que ameaçam a sobrevivência da humanidade no século XXI. {{tag>Young}}