====== 0 Introdução ====== //WUNENBURGER, Jean-Jacques. L'imagination. Paris: Presses Universitaires de France (PUF), 1991. (Coleção "Que sais-je?").// 1. A imaginação designa uma produção mental de representações sensíveis, distinta da percepção de realidades concretas e da conceituação de ideias abstratas, de alcance menor que o das imagens em geral, que abrangem toda representação dada numa intuição sensível, mas maior que o do imaginário, restrito às ficções, e sua definição é dificultada pela atribuição de poderes de atividades vizinhas, como a memória e procedimentos racionais de analogia e antecipação, bem como pela variedade de formas e de interpretações dispersas entre disciplinas que se ignoram, o que torna árdua a reunião numa mesma concepção de fatos tão diversos quanto o pesadelo, o devaneio, a fantasia sexual, a ficção romanesca, a antecipação de um evento ou a pintura de Deus, embaraço que, como já notavam Dugas e Bonstetten, gera análises redutoras e estereotipadas que mascaram a imprecisão teórica, como a que reduz a imaginação ao poder de representar objetos ausentes. 2. Filosofia e ciências humanas acumularam no último século numerosos dados e hipóteses sobre os componentes e funções da atividade imaginante sem dissipar muitas ambiguidades, a começar pelas lexicais, pois falta, como observa Henri Peyre, uma história semântica da palavra e do conceito de imaginação. 3. As línguas grega e latina distinguem funções divergentes por verbos específicos, privilegiando a função representativa, ligada à falsidade, sobre a função inventiva, pois em grego imaginar, plattein, é modelar e fabricar com intenção de fingir, eidôlopoiein é forjar imagens, ennoein é representar uma coisa existente para examiná-la, epinoein é concebê-la por antecipação, eikazein é representar em imagem e phantazein é mostrar em aparência, enquanto em latim fingere designa a atividade imaginativa em contraste com invenire e excogitare, e mais tarde a vis imaginativa e a facultas fingendi, cuja potência criadora, evocando a magia, foi invocada pelo hermetismo, pelo ocultismo e pela teosofia, ao passo que o alemão opõe à Einbildung, mais passiva, a Phantasie e a Einbildungskraft ou Hineinbildungskraft românticas, mais criadoras, e o inglês distingue fancy, aptidão de formar imagens ilustrativas e reprodutoras, e imagination, poder de dar consistência a ficções. 4. O exame lexical das línguas europeias mostra a tendência a distinguir, no prolongamento das impressões sensoriais, uma imaginação ficcionante e enganadora e, na esteira das atividades intelectuais, uma imaginação inventiva ou antecipadora, distinção que cruza sem coincidir com a oposição entre imaginação reprodutora e formadora, permanecendo os usos flutuantes e confusos na falta de tipologia estável, como na Idade Média, em que phantasia e imaginatio, ligadas respectivamente à alma racional e à sensitiva, eram distinguidas por critérios variáveis, invertidas entre autores e tidas por sinônimas por Tomás de Aquino, ou como na inversão entre fantasia e imaginação de Descartes a Coleridge, variando ainda a descrição conforme se privilegiem as imagens materiais, naturais ou artefatos, ou as imagens psíquicas, do sonho à visão mística, passando por fantasias, alucinações, percepção, lembrança, devaneio, imagens poéticas e cognitivas. 5. Surpreende que uma época autodefinida como civilização das imagens disponha de instrumentos semânticos e conceituais tão lacunares para explicar o poder de produzir imagens, situação que teóricos como Cassirer, Corbin, Durand e Castoriadis atribuem à tradição filosófica ocidental recente, cuja supervalorização da sensação e do intelecto reduziu a imaginação a atividade auxiliar ou bastarda do espírito, negligenciando, segundo Cassirer, as mediações simbólicas em favor da imediatidade dos conteúdos sensíveis e inteligíveis e da prerrogativa excessiva concedida à intuição. 6. Propõe-se apresentar, com amplo acesso a referências e textos célebres ou menos conhecidos, as diferentes definições da imaginação e de suas relações com as demais funções mentais, o estado atual dos conhecimentos e interpretações sobre seus procedimentos e a lógica das imagens, e algumas expressões concretas de seu poder nos planos individual e coletivo, restituindo à imaginação sua dimensão fundadora para o homem e suas relações com o Ser e o sentido. {{tag>Wunenburger imagem imaginação}}