====== Fé e relativismo ====== //GIRARD, René; VATTIMO, Gianni; ANTONELLO, Pierpaolo. Christianisme et modernité: entretiens menés par Pierpaolo Antonello ; traduction par Renaud Temperini. Paris: Flammarion, 2009.// **ANTONELLO:** Um dos temas mais debatidos recentemente na Itália é a incompatibilidade entre fé e relativismo, entre universalismo antropológico ou moral, de um lado, e relativismo multicultural, de outro, o que exige investigar que tipo de conciliação seria possível entre posições filosóficas de partida tão distintas. **VATTIMO:** Deus só pode ser relativista, pois o alcance dessacralizante do cristianismo, que chega à kenosis paulina da encarnação e da humilhação, conduz à ideia de que Deus não é o conteúdo de uma proposição verdadeira, mas uma pessoa encarnada em Jesus Cristo como exemplo de caridade, a única capaz de olhar as diferentes culturas do alto. * A primeira encíclica do novo papa intitula-se Deus caritas est e não Deus veritas est, fato muito significativo, ainda que a leitura de seu conteúdo tenha arrefecido o entusiasmo inicial. * Esse Deus caridoso desmente a máxima "Amicus Plato sed magis amica veritas" (Platão é meu amigo, mas a verdade o é ainda mais), sempre invocada para justificar as fogueiras, e convida antes a inverter a fórmula, de modo que a verdade seja amiga, mas Platão ainda mais, para que ninguém seja eliminado em nome da verdade. **GIRARD:** O relativismo contemporâneo é produto do fracasso da antropologia moderna em explicar as diferentes culturas humanas como fenômeno unitário, enquanto a teoria mimética mostra que as diferenças culturais, significativas num nível, deixam de sê-lo em outro, pois todas as regulações sociais visam a um único fim, prevenir os conflitos, e o cristianismo, ao revelar Jesus como vítima universal, oferece a solução desse problema. * As duas versões da máxima sobre Platão e a verdade, em última análise, equivalem uma à outra. * Há milhares de maneiras de codificar a vida social, como as leis sobre o casamento, mas todas transformam indivíduos que poderiam odiar-se em pessoas capazes de amar-se, erguendo entre rivais potenciais obstáculos que variam conforme os problemas a resolver, mas perseguem sempre o mesmo objetivo. * O relativismo mascara a unidade do conhecimento, que só pode existir se esse ponto de partida for aceito, e a demonstração dessa unidade no domínio mais controverso, o da antropologia moderna, constitui o objetivo principal da obra girardiana. * Sem pretender impor um ponto de vista, é difícil esquecer certos absolutos, e o cristianismo mostra que os limites que os indivíduos impõem uns aos outros servem para evitar certos tipos de conflito, os quais Jesus, vítima universal, veio expressamente superar. **VATTIMO:** A antropologia girardiana tem razão enquanto espécie de verdade científica, pois nem todas as antropologias são igualmente verdadeiras, mas o relativismo não é uma teoria, e sim uma doutrina social própria de uma sociedade liberal que, por caridade, admite múltiplas opiniões, de modo que não se chega a um acordo por ter encontrado a verdade, mas encontra-se a verdade quando se chega a um acordo. * Assim como na física nem todas as hipóteses se equivalem, mas não é evidente que o relativismo contemporâneo derive do fracasso da antropologia. * Talvez não exista nenhum relativista autêntico, como sugere a resposta de Ricoeur ao Le Monde pouco antes de morrer, quando, perguntado se era relativista, disse não saber e afirmou estar ali, com base em sua experiência, leituras e vocação, retomando a fórmula de Lutero "Hier bin Ich". * Grande parte da polêmica antirrelativista visa, na verdade, o liberalismo da sociedade, e corrigir o pecado do relativismo, como pede o papa, significaria admitir que só ele tem razão. * Ainda se pode falar de verdade, mas apenas porque no acordo se realiza a caritas, que, no terreno das opiniões e das escolhas de valor, se torna verdade quando compartilhada, assim como Richard Rorty propõe substituir verdade por solidariedade, e aqui se propõe substituí-la por caridade. * Nas verdades antropológicas existem critérios válidos em contextos precisos, como nos jogos de linguagem de Wittgenstein, mas trata-se de verdades determinadas por paradigmas que permanecem históricos. * O relativismo existe na sociedade, no grupo e na cultura, enquanto o indivíduo é relativista apenas no sentido de estar disposto a mudar de opinião se convencido do contrário. * O essencial é que Deus seja relativista, pois a salvação das almas não pode depender do conteúdo de algumas proposições, e é possível salvar-se mesmo sem conhecer o dogma da Trindade. **GIRARD:** A necessidade prática de declarar-se relativista numa sociedade moderna é admissível, e a contribuição da teoria mimética consiste em mostrar que o cristianismo, em sua relação com as outras religiões, é infinitamente mais complexo e mais compreensivo (compréhensif), no sentido de acolher e incorporar, do que parece, já que as religiões arcaicas, todas distintas durante cinquenta mil anos, são formas de pré-cristianismo ou de cristianismo malogrado por crerem na culpa da vítima, erro que o cristianismo desvela ao afirmar sua inocência, como a de Jesus. **VATTIMO:** Em tom de brincadeira, a religião assim descrita seria antes "vattimária" (vattimaire) do que vitimária. **GIRARD:** Longe de ser belicoso e aterrorizante, o cristianismo desvela o conflito sobre o qual se fundam as religiões e a injustiça sofrida pelas vítimas outrora condenadas, todas essencialmente inocentes como o Cristo, revelando a inocência silenciada e o mal-entendido escondido sob o sangue da história. **VATTIMO:** O cristianismo é mais verdadeiro que todas as outras religiões justamente por, em certo sentido, não ser uma religião, já que muitas de suas fórmulas dogmáticas são metafóricas e alegóricas, e a fé consiste em buscar respeitar a caridade, o que permite a divisa "graças a Deus sou ateu", isto é, libertado por Jesus Cristo da crença em ídolos, divindades e leis naturais. * No Credo, dizer que Jesus está sentado à direita do Pai é evidentemente metafórico, sob pena de escândalo político quanto à esquerda, e chamar Deus sempre de homem e pai, nunca de mãe, faz as feministas norte-americanas arrancarem os cabelos. * A permanência na fé não depende de crer que só homens podem ser padres, questão que agita a vida da Igreja, mas do esforço, nem sempre bem-sucedido, de praticar a caridade. * O ateísmo assim entendido refere-se apenas ao Deus dos filósofos, concebido como ato puro e conhecimento, e não contradiz a fidelidade a Girard, embora seja mais fácil ser fiel a ele em sua ausência. **GIRARD:** O cristianismo constitui a crítica mais radical das religiões antigas e sobretudo das arcaicas, oferecendo do ponto de vista técnico a chave de leitura da mitologia, ideia que mais escandaliza os antropólogos, segundo a qual quem quer resolver o problema do mito deve recorrer ao cristianismo. * Nas religiões arcaicas, o papel da vítima era mal compreendido, pois ela se tornava divindade enquanto culpada, miraculosa precisamente em virtude de sua falta. * Ao compreender que Édipo, acusado de parricídio e incesto não só por Freud, mas pelos próprios gregos, é na realidade inocente, e que Jesus, também inocente, é acusado das mesmas faltas em certas crenças folclóricas, torna-se claro que o cristianismo permite ler o mito de modo inteiramente diverso. **ANTONELLO:** Se a própria ideia de pluralismo das culturas nasceu no interior de uma cultura específica, a ocidental, e se o cristianismo ocupa uma posição privilegiada para compreender os mecanismos vitimários que fundam a construção cultural, impõe-se perguntar como estabelecer um diálogo interconfessional a partir dessa presunção, não de superioridade, mas de posição privilegiada do cristianismo e do Ocidente. **VATTIMO:** O diálogo interconfessional só é possível sem princípios teóricos fortes, pois de outro modo começa pela disputa sobre como Deus é feito, e a missão ecumênica do cristianismo depende de sua capacidade de abandonar a pretensão de impor declarações metafísicas sobre a natureza humana, a natureza de Deus e as sociedades, respeitando a tradição e não uma natureza ou verdade objetiva. * Segundo a Epístola aos Romanos (15, 4), tudo o que foi escrito o foi para ensinamento, o que significa que a Bíblia não é manual de cosmologia, antropologia ou teologia, e que o que ela diz de Deus é muitas vezes mítico, sendo difícil conciliar o Deus que ordena exterminar as crianças da Babilônia com o de Jesus Cristo. * Um dos méritos do cristianismo é ter retirado quase toda a força do "verdadeiro", como na fórmula de Dietrich Bonhoeffer segundo a qual um Deus que "há" não há (Einen Gott, den "es gibt", gibt es nicht), pois Deus não é objeto e sua existência não pode ser artigo de fé. * Dizer que Deus existe não significa localizá-lo no céu, sob a mesa ou apenas nas igrejas, e a promessa de estar onde dois ou mais se reúnem em seu nome não privilegia santuários, igrejas ou templos. **GIRARD:** Resta um domínio do comportamento humano não mencionado, a moral, o que obriga a perguntar se a caridade inclui ou não os dez mandamentos e o Levítico, como não matar, não cometer adultério e não desejar a mulher ou os bens do próximo, ou se estes seriam apenas expressão de uma mentalidade puritana e de uma má moralidade. **VATTIMO:** Os mandamentos valem não como lei natural absoluta, mas na medida em que coincidem com a caridade, princípio acrescido das regras de trânsito, de modo que o Decálogo merece respeito e possui muito fundamento, mas proibições como a de matar ou a de certas formas de amor devem ceder diante da liberdade e da caridade em casos concretos. * Num debate sobre Davi e Jônatas, a proibição de um homem deitar-se com outro (Levítico 20, 13) aparece em meio a prescrições hoje esquecidas, como não comer cobras-de-vidro (orvets) ou não vestir vermelho, comparáveis à obrigação de lavar-se na piscina probática (piscine probatique) após tocar um porco. * Os dez mandamentos chegaram com outra autoridade e são tão aceitos que muitos os tomam por lei natural, mas a tradição cristã condicionou frequentemente o "não matarás", como mostra Pascal ao lembrar que matar aquém do rio faz um assassino e além dele, um herói condecorado, sem falar nas cruzadas e na inquisição. * Diante de quem sofre muito e pede a eutanásia, cabe tentar devolver-lhe a coragem com bons livros e bons filmes, mas, se a pessoa quiser realmente morrer, o que não se deve violar é sua liberdade, isto é, sua alma, e não a vida biológica, já que também os tumores estão cheios de vida. * Uma mulher violentada por um muçulmano na Bósnia que decide abortar deve ser ajudada, se o pedir, em nome da caridade, e não obrigada a dar à luz. * O sexto mandamento diz respeito ao amor e à caridade, que o papa distingue severamente, como se ágape e eros fossem coisas separadas, e romper uma relação afetiva, por exemplo homossexual, em razão da conversão ao cristianismo seria abandonar o outro como o Deus que extermina a família e o gado de Jó para pô-lo à prova. **GIRARD:** A entrega dos dez mandamentos a Moisés é uma das passagens mais importantes da Bíblia, pois, num mundo de milhares de leis complexas, sua simplicidade e potência fazem dela o documento mais místico do Antigo Testamento, e minimizar seu alcance conduz a um cristianismo hedonista que torna a vida fácil demais, quando sempre haverá situações de conflito, muitas delas inevitáveis. * Supor que basta abandonar os escrúpulos para que cada um faça o que quer e todos vivam felizes juntos é uma ilusão que os próprios dez mandamentos desmentem. * Mesmo que todos conseguissem divertir-se e sentir-se bem, os problemas continuariam a existir. **VATTIMO:** O Decálogo merece o maior respeito e convém até a um pensador laico de origem controlada (d'origine contrôlée), mas o cristianismo ensina que as leis humanas valem apenas até certo ponto, que nem todas as proibições do passado podem ser levadas a sério e que o prestígio dos mandamentos depende do tipo de sociedade em que foram enxertados, o que permite projetar um mundo em que se realize o comunismo originário das comunidades cristãs. * Ao falar da parusia, Jesus não explica como ela ocorrerá, mas convida a não crer em uma série de coisas, o que aproxima da teologia dialética. * Marcuse não estava errado, e seu projeto só não se realizou porque a sociedade era e continua repressiva, autoritária e proprietária, o que leva a perguntar se Jesus não estaria desse lado. * A encíclica Deus caritas est reconhece a comunhão de bens dos primeiros cristãos, forma de praticar a caridade, mas trata sua perda como fato natural, assim como parecia natural a obrigação de ir às cruzadas e matar os inimigos. * Não é impensável que modelos utópicos como o comunismo das origens ou a harmonia social pudessem durar, e sua perda talvez se deva menos à natureza humana, como pensa o papa, do que ao comprometimento excessivo da Igreja com os poderes terrenos. * O mandamento de não desejar a mulher do próximo impedia que os homens se matassem a facadas para raptar esposas, mas hoje o divórcio institucionalizou uma liberdade que não corresponde ao Decálogo, o que não lhe retira a validade para a sociedade de seu tempo. **MEMBRO DO PÚBLICO:** O niilismo filosófico contemporâneo, no centro da reflexão de Vattimo e não só dela, exige que se defina uma posição a seu respeito, sobretudo no plano ético e moral. **GIRARD:** A ideia de que a violência atual nasce de valores absolutos e ideologias que suscitam oposição é equivocada, pois a violência humana não é agressão, mas competição exacerbada em rivalidade destrutiva, simétrica e sem culpado único, e o niilismo resulta do fracasso da razão iluminista diante da complexidade das relações humanas, ao qual cabe responder não com a renúncia ao conhecimento, mas com uma análise mais sutil oferecida pela teoria mimética. * Antropólogos e sociólogos ainda definem a violência como agressão, termo ele mesmo agressivo, pois ninguém atribui a si essa característica, de modo que a violência vem sempre dos outros, e nenhuma violência se desenvolve pensando-se como tal. * O homem é essencialmente competitivo e inclinado à rivalidade, e a inteligência e o espírito de iniciativa são, em substância, competição, que pode ter grande valor, como mostra a economia, mas se torna violência quando se exacerba. * Também entre os animais, o macho que vê outro cortejar uma fêmea passa a desejá-la, sentindo-se não agressor, mas rival com iguais direitos. * Em nove de cada dez casos, a violência esconde competição e não agressividade, com as duas partes igualmente erradas e certas, comportando-se de maneira idêntica e simétrica, numa situação inextricável que não admite solução legal. * Por isso as sociedades arcaicas canalizam a competição, obrigando os indivíduos a desejar uma coisa e não outra, o que pode tolher a iniciativa e o dinamismo de uma civilização, mas evita que a rivalidade desemboque em violência destrutiva, e por isso a caridade importa tanto. * Esses problemas, de complexidade infinita, não admitem solução verbal, ideológica ou puramente linguística, porque as relações humanas são complexas demais e cada um se bate para defender a própria posição. * O niilismo nasce da consciência de um profundo desacordo entre a linguagem e a realidade humana, impossível de traduzir em palavras, e da falência da visão racional do universo elaborada no século XVIII, compensada pela perspicácia inigualada dos romances modernos. * Em vez de afirmar que não há verdade certa, é preciso voltar à antropologia e à psicologia e estudar melhor as relações humanas, e a teoria mimética fornece instrumentos que tornam os conflitos, se não mais fáceis de resolver, ao menos inteligíveis, afastando a renúncia niilista ao conhecimento. **VATTIMO:** O niilismo aqui defendido não se reduz à tese de que não existem verdades, mas consiste na dissolução dos absolutos, inclusive da convicção de que se pode conhecer a natureza humana, efeito positivo do cristianismo, cuja ideia de Criação está nos antípodas de uma visão objetiva, já que o Deus criador nada tem da racionalidade rigorosa do Ato puro aristotélico, incapaz de decidir criar um mundo, restando como única discordância real a confiança girardiana no poder salvador da verdade, revelada ou descoberta pela ciência. **MEMBRO DO PÚBLICO:** Se Jesus anuncia e atesta a inocência da vítima, desmascarando o mecanismo vitimário dos mitos e religiões pré-cristãs, a tradição também o apresenta como juiz que anuncia que os perseguidores de hoje serão os perseguidos de amanhã, e a condenação eterna dos não convertidos, mantida pela Igreja e pelas Igrejas protestantes apesar de interpretações divergentes como a de Orígenes, parece perpetuar esse mecanismo, o que exige uma chave de interpretação. **GIRARD:** As interpretações teológicas e eclesiásticas fazem de Jesus um juiz, quase o exato contrário do que ele é, mas eliminar as sanções e os aspectos teatrais e dramáticos do cristianismo, como paraíso, inferno e purgatório, suprimiria uma parte essencial da própria vida, pois essas representações, ainda que ingênuas e simplistas, dão motivação à existência e transformam-na em drama, sem o qual a religião perderia sua força. * Há hoje uma agitação contra a visão eclesiástica do mundo e contra os aspectos punitivos e deiscentes (déhiscents) do cristianismo, que integram um grande drama, um espetáculo que talvez devesse ser encenado de outro modo. * Os romances descrevem a existência antes como comédia do que como tragédia, mas nela cada acontecimento tem importância. * O ser humano é ao mesmo tempo estético e ético, e sua natureza de criatura estética conta muito. * Sem a divisão entre paraíso, inferno e purgatório, Dante, um dos maiores escritores do mundo, perderia o fundamento da Divina Comédia, e com ele boa parte da literatura italiana. **ANTONELLO:** A extraordinária potência expressiva, teológica e moral de Dante funda-se em seu realismo e em sua adesão a uma realidade humana forte, traço próprio da visão cristã do mundo segundo Erich Auerbach em "Mimesis", de modo que a Divina Comédia, ao descrever um mundo supraterreno enraizado na realidade histórica, pessoal e material dos indivíduos, ainda fala ao homem contemporâneo, que continua a construir seus infernos terrenos e a enfrentar difíceis purgatórios, e cujo Inferno permanece eloquente, como observou Umberto Eco, justamente porque se perdeu a força e o hábito de pensar em qualquer paraíso possível. {{tag>Vattimo fé Girard}}