====== 8 Hermenêutica do niilismo ====== //VATTIMO, GIANNI. ESSERE E DINTORNI. Milano: LA NAVE DI TESEO, 2018.// 1. A hermenêutica do niilismo europeu deve ser entendida no duplo sentido, objetivo e subjetivo, do genitivo, pois a hermenêutica, que não é apenas um método para decifrar textos, pertence ao próprio processo que procura compreender e se delineia justamente no interior do niilismo europeu como método e teoria filosófica geral, já que, no tempo do niilismo consumado, em que segundo Nietzsche quem não se torna Übermensch está perdido, o além-homem não é o super-herói dos quadrinhos nem a besta loura da ideologia nazista, mas aquele que, diante de um mundo que perdeu seu caráter objetivo, assume a responsabilidade de interpretar, numa inversão da décima primeira tese de Marx sobre Feuerbach, porque a pretensão de transformar o mundo está inteiramente sujeita ao niilismo da técnica, da economia e do desenvolvimento, e a dissolução dos valores supremos multiplica os valores num politeísmo weberiano cujos deuses não são realidades lá fora, mas interpretações, culturas e religiões em cena no mundo globalizado, de modo que o niilismo consumado torna a hermenêutica possível e mesmo necessária. 2. Esse sentido histórico-destinal da hermenêutica impõe a tarefa de interpretar o niilismo não como fenômeno a constatar ou descrever, mas como problema e situação que envolve e exige tomada de posição, pois ao olhar interessado, sempre já implicado na interpretação, o niilismo aparece como equivalência universal e multiplicidade que não se deixa contemplar esteticamente, e quem pretende permanecer olhar desinteressado desaparece no sentido nietzschiano, sendo também a escolha de não se engajar uma escolha, ainda que autodissolutiva, de maneira que a necessidade de tornar-se intérprete revela o niilismo do qual a hermenêutica é efeito, como mostra o exemplo banal do mundo da informação generalizada, no qual sem escolher um ponto de vista, um jornal, um canal ou uma agência, nada mais se diz nem se pensa. 3. O desgosto atual diante da política, inspirado pela corrupção das democracias representativas mas também pela confusão neutralizante de uma informação babélica contínua e generalizada, reduz a avaliação política a categorias éticas elementares como a confiança pessoal e a honestidade, elas mesmas neutras porque medidas pela função, e a crônica política italiana, emblemática de um processo mais geral, sugere que o niilismo europeu é simplesmente o triunfo da técnica, como mostra o governo técnico de Monti, composto por economistas nunca eleitos, legitimado por todos os partidos como parêntese necessário para sair da crise e derrubar Berlusconi e agora tornado permanente com o apoio das grandes corporações, dos jornais independentes e das forças europeístas ligadas a bancos como a Goldman Sachs, pois a técnica que substitui a política é niilista por não se colocar a questão dos valores supremos e apenas assegurar o funcionamento da máquina financeira, o que coincide com a ideia heideggeriana de fim da metafísica como redução do ser ao ente e esquecimento de todo caráter problemático da experiência, já que a metafísica, com sua obsessão pelos princípios últimos e por perguntas como a leibniziana sobre por que há o ser e não o nada, suspendia a autoridade peremptória dos entes presentes, ao passo que a racionalidade instrumental, limitada como na distinção kantiana entre conhecer e pensar ao mundo calculável de causa e efeito, exclui por princípio a liberdade, que exige a capacidade de colocar as questões últimas, cabendo então acolher, no sentido do politeísmo nietzschiano após a morte de Deus, a pluralidade de culturas e éticas da modernidade tardia como metafísicas assumidas ironicamente, religiões secularizadas capazes de dar unidade e continuidade às vidas individuais e comunitárias sem pretensão de definitividade, numa Verwindung, aceitação-distorção, e não Überwindung, superação, da metafísica, que impede a existência de cair vítima da necessidade técnica erigida em divindade absoluta. 4. O vínculo entre hermenêutica e niilismo europeu revela como tarefa do pensamento, no mundo da neutralização técnica, não esquecer o ser como horizonte de totalidade utópico que suspende a pretensão definitiva do ente, mesmo ao preço de recair sempre em condições de conflito, pois o ser não é o que está aí desde sempre e para sempre, mas evento que acontece alterando a ordem dada dos entes, o mundo ou, na linguagem de Kuhn, os paradigmas, enquanto técnica e ciência apenas resolvem quebra-cabeças dentro de um paradigma dado, e o surgimento de novos paradigmas, que não desce do céu nem decorre de necessidade transcendental, é comparado por Heidegger em A origem da obra de arte tanto à criação poética quanto à fundação de uma ordem política, verdadeira revolução, de modo que nem a obra de arte, atividade mais inocente segundo Hölderlin mas também luta entre mundo e terra, nem a revolução acontecem sem destruição da ordem estabelecida e, portanto, sem conflito. 5. O domínio crescente da técnica, visível nos governos ditos técnicos que hoje dominam toda a Europa, pretende silenciar todo conflito em nome de uma racionalidade científica objetiva e supostamente neutra em que desaparece até a distinção entre bem e mal, sendo maus apenas os que não se enquadram na ordem prevista pelas Nações Unidas, pela comunidade internacional e pelo Fundo Monetário Internacional, e por isso, nesse regime de neutralização, a tarefa do pensamento não é descrever e conhecer a realidade do ente, mas interpretar ativamente o apelo do ser, ainda que ao preço de combater toda forma de neutralidade científica e, no fundo, estética diante da ordem imposta, pois está em jogo não só a liberdade humana, mas a própria questão do ser como evento. {{tag>Vattimo hermenêutica}}