====== 1.2 Realismo ====== //VATTIMO, Gianni; ZABALA, Santiago. Hermeneutic communism: from Heidegger to Marx. New York: Columbia university press, 2011.// **A natureza conservadora do realismo** 1. Platão e a maior parte da tradição filosófica posterior exigiram que a filosofia não só encontrasse a verdade, mas também a conservasse, e os diálogos, que serviam à moralização da política, tornaram-se a principal preocupação do establishment diante de toda crise ou choque, de modo que as disputas contemporâneas sobre asserções verdadeiras e falsas são sintoma de uma cultura filosófica politicamente conservadora disposta a impor sua ordem pela violência, razão pela qual Popper, em A sociedade aberta e seus inimigos, acusou Platão, Hegel e Marx de totalitarismo por pretenderem fundar a política na verdade, seja pela luz fora da caverna, pelo fim da história ou pelas consequências emancipatórias da revolução, texto tão atacado por platônicos, hegelianos e marxistas que se tornou o menos estudado de sua obra. 2. O pensamento político ainda ignora esse texto por causa de seu ataque à noção de verdade na política, ataque não muito diferente do de Heidegger, pois tanto a sociedade aberta de Popper quanto o evento de desocultamento heideggeriano dirigem-se contra a ordem implícita do diálogo e contra toda fundação da política na verdade, e, apesar dos alertas desses filósofos contra o realismo científico-objetivo, certos setores da filosofia contemporânea, como a fenomenologia e a chamada ontologia analítica, retornam a um realismo mais radical, cujo traço mais interessante é exprimir o medo e a consequente demanda de segurança e expor sua natureza conservadora mediante o desejo de unificação global. 3. Entre as causas desse retorno, a mais plausível é o acabamento da metafísica, pois a dissolução da filosofia nas ciências objetivas submeteu-a ainda mais ao serviço dos poderes políticos dominantes, e se o realismo é a conservação dos dados objetivos que a filosofia deve reconhecer, a política acatar e a fé venerar, ele só pode triunfar numa democracia enquadrada onde transformação e mudança são quase impossíveis, já que os diálogos excluem a transformação ao impor a verdade a toda dissidência em relação à ordem científica vigente, fundamento metafísico da democracia que gerou a democracia enquadrada, na qual, como explicou Heidegger, a única emergência é a falta de emergência, situação em que a autocerteza se tornou insuperável, tudo é tido por calculável e se decide sem questionamento prévio quem somos e o que devemos fazer. 4. Nessa condição de falta de emergência, ou neutralização, em que o Ser foi substituído pelos entes e por sua organização tecnológica global, a filosofia vê-se forçada a impor a unificação e a conservar o diálogo estabelecido, razão pela qual Heidegger situa a emergência não só no domínio metafísico do mundo, mas também na decisão sobre quem somos e o que devemos fazer, isto é, na liberdade, que hoje só é possível dentro do diálogo estabelecido, de modo que a tarefa dos filósofos metafísicos deixou de ser estender o objetivismo científico a todas as disciplinas para tornar-se a conservação do realismo dialógico contra todo intruso, parasita ou evento estrangeiro, sendo recompensada acadêmica e socialmente apenas a filosofia capaz de assegurar a estrutura ontológica da democracia enquadrada, com sua verdade, seu diálogo e suas instituições. 5. Entre os filósofos analíticos e continentais que preservam esse realismo e, por isso, se contrapõem à liberdade, John Searle ocupa lugar particular por sua posição original e por seu debate com a desconstrução derridiana, debate que exprimiu o medo e a insegurança dos realistas diante de quem questiona a dissolução científica da filosofia, enquanto sua ontologia social expõe indiretamente a falta de emergência apontada por Heidegger, já que busca o controle total mediante as imposições objetivistas da ciência, defendendo, como afirmou Barry Smith, um realismo básico. 6. Uma possível origem do realismo de Searle e de seu debate com Derrida encontra-se na disputa entre Husserl e Heidegger durante a colaboração no verbete Fenomenologia da Encyclopaedia Britannica de 1929, rompida por Heidegger não por razões políticas, mas porque a fenomenologia adquirira para Husserl o sentido metafísico de dissolver a filosofia numa série de ontologias regionais, sonho metafísico que Heidegger buscava superar e que o próprio Husserl abandonou anos depois, de modo que Searle radicalizou o projeto husserliano inicial das ontologias regionais, enquanto Derrida desenvolveu a ontologia fundamental heideggeriana por meio da desconstrução. 7. Compreende-se assim a afirmação de Searle de que vários autores fenomenológicos não são fenomenológicos o bastante, referindo-se a Heidegger, Blumenberg e outros que abortaram o projeto das ontologias regionais em favor da ontologia fundamental, ao passo que, entre os seguidores do projeto inicial, Adolf Reinach tem lugar privilegiado em seu realismo por antecipar a teoria dos atos de fala de Austin e por sua ontologia regional das interações sociais, e a partir dessa base Searle submeteu o domínio da liberdade humana a um controle político científico em que a extensão da liberdade e a da racionalidade coincidem, com o projeto de enfatizar, conservar e controlar a Tradição Racionalista Ocidental, outro nome da metafísica, cujos padrões de objetividade, verdade e racionalidade seriam pressupostos de qualquer filosofia sã. 8. Uma filosofia sã deve, para Searle, cooperar com a ciência empírica e adotar uma abordagem geral científica, submetendo-se a fatos irrefutáveis como os da teoria atômica da matéria e da teoria evolutiva da biologia, porque vivemos num mundo de fatos básicos descritos pela física atômica, pela biologia evolutiva e pela neurobiologia, e embora reconheça, com Kuhn, que as descrições dos fatos mudam à medida que se aprende, considera isso argumento contra o relativismo, já que os fatos não mudam, mas apenas a extensão do conhecimento, de modo que toda a vida, inclusive a mental, depende dos fatos básicos de existência absoluta, a partir dos quais consciência e intencionalidade criam fatos semânticos, institucionais e sociais de existência apenas relativa aos seres humanos. 9. O decisivo dessa concepção não é a insistência nos fatos básicos, mas a exigência de analisar, sistematizar e desenvolver filosoficamente os fatos semânticos, institucionais e sociais para alcançar a estrutura básica de toda realidade institucional, estrutura que permitiria à filosofia política partir de uma ontologia política prévia, isto é, dos fatos básicos da ciência, sendo o realismo externo precondição das teorias, e a realidade institucional resulta de imposições coletivas de funções de status a objetos incapazes de exercê-las por sua natureza física, que exigem reconhecimento coletivo, intencionalidade coletiva, atribuição de função e uma regra constitutiva segundo a qual certas coisas contam como tendo certo status. 10. O traço mais importante do realismo conservador de Searle reside na crença de que estruturas institucionais como governo, dinheiro e educação permitem controlar a vida dentro delas, quando de fato limitam a liberdade, motivações que não passam do desejo de evitar conversões e emergências nas realidades institucionais, razão pela qual considerou positivo que G. W. Bush recebesse a função de status de presidente em 2000 apesar de muitos cidadãos julgarem ilegítima sua eleição, já que o importante para a estrutura de poder deôntico nos Estados Unidos seria que quase todos continuassem a reconhecer seus poderes, de modo que a prioridade desse realismo metafísico é conservar fatos institucionais para submeter-se ao poder, ainda que ao preço de renunciar a traços da autocompreensão humana como o livre-arbítrio. 11. A essência do debate entre Searle e Derrida, surgido da interpretação derridiana dos atos de fala de Austin, considerada por Searle confusa e sem rigor, não era linguística, mas política, pois Derrida visava superar a natureza conservadora da metafísica pelas tensões que ela gera contra a liberdade, ao passo que Searle buscava conservá-la contra eventos externos, choques ou invasores, e por isso Derrida, ao renomear ironicamente Searle como SARL, sociedade de responsabilidade limitada, e intitular sua resposta Limited Inc abc, denunciava a corporação da tradição racionalista ocidental que Searle defendia ao circunscrevê-la a Russell, Wittgenstein e Frege, abusando dos direitos do outro, isto é, de outras tradições, possibilidades e contextos, o que dá sentido à desconstrução como recusa de ceder ao poder de ocupação ou a qualquer hegemonia e como lembrança dos limites do poder e do domínio. 12. A iterabilidade, traço político central do debate, é a capacidade de signos, textos ou palavras de serem repetidos em novas situações e enxertados em novos contextos, razão pela qual nenhum contexto é jamais saturado, já que todo signo, linguístico ou não, falado ou escrito, pode ser citado, posto entre aspas, rompendo com todo contexto dado e engendrando infinitamente novos contextos, o que não significa que a marca valha fora de contexto, mas que só há contextos sem qualquer centro de ancoragem absoluta. 13. A iterabilidade altera, pois os textos inseridos em novos contextos produzem continuamente novos sentidos, ao mesmo tempo diferentes e semelhantes aos anteriores, o que implica que nenhum signo é possível sem aquilo que torna possíveis suas repetições e que seus constituintes nunca estão realmente presentes a si mesmos, perda infinita que Derrida chama de disseminação, de modo que a comunicação, ao contrário do que pensam Austin, Searle e a tradição racionalista ocidental, nunca é um domínio unificado. 14. Searle apontou no argumento da iterabilidade tanto um suposto erro filosófico, a incompreensão da distinção entre tipo e ocorrência, quanto a concessão política que ele implica, a perda de controle, pois se o autor perde o controle do sentido do enunciado todo o sistema de distinções, como a entre significado da sentença e significado do falante, seria minado, e em vez de perder o controle a filosofia deveria impor novas funções de status. 15. O debate demonstrou que os realistas metafísicos não passam de servidores do poder político, verdadeiro exercício de emergência contra a menor dificuldade, complicação ou transformação das regras, cuja tarefa de autoproclamados defensores da comunicação, segundo Derrida, consiste apenas em denunciar a ausência de regras e a confusão. 16. Searle é um dos mais distintos representantes da filosofia analítica norte-americana, que nas últimas décadas tomou a maioria dos departamentos de filosofia dos Estados Unidos e relegou outras posições aos departamentos de literatura comparada, ciência política e religião, e se Gadamer, Derrida, Rorty, Habermas, Butler ou Žižek foram mal recebidos nesses departamentos não é por serem menos profissionais que Searle, Strawson, Davidson, Dummett, Bouveresse ou Dennett, mas por estarem menos inclinados a circunscrever a filosofia à ciência, de modo que a filosofia analítica, como acabamento do realismo científico, legitima tanto os empreendimentos científicos quanto o governo norte-americano que deles depende, configurando, segundo Derrida, uma abordagem imperialista voltada a uma civilização descritiva, estática e universal na qual nenhuma obra teórica, literária ou filosófica obtém legitimação mundial sem passar pelos Estados Unidos, e, sendo a hegemonia linguística inseparável da hegemonia de um tipo de filosofia, não surpreende que o realismo metafísico tenha se desenvolvido sobretudo ali, onde ocorrem os últimos avanços científicos e onde a filosofia quase desapareceu da esfera pública. 17. Derrida talvez seja lembrado mais por ter combatido esse realismo do que pelo enorme efeito da desconstrução nos estudos literários, tendo ajudado, com Rorty, a conceber as filosofias analítica e continental não como as posições mais recentes da filosofia, mas como os últimos suspiros do sonho metafísico de um mundo moral neutralizado e sem liberdade, sonho que persiste na defesa da verdade pelos realistas contra outras filosofias, contra a história e contra todo evento capaz de comprometer as imposições estabelecidas, como mostrou em 1992 a tentativa fracassada de um grupo de filósofos metafísicos liderado por Barry Smith, defensor de Searle, de convencer a Universidade de Cambridge a não conceder a Derrida um título honorífico, por meio de uma carta ao Times que qualificava suas teses de falsas ou triviais, revelando desconhecimento de sua obra e oferecendo exemplo claro da história do vencedor, isto é, do desejo de afastar posições, tradições e margens da filosofia que ameacem o reconhecimento de sua própria marca metafísica. {{tag>Vattimo realismo}}