====== 3.5 Hegel ====== //Addio alla verità. 2009// **Por que Hegel agora?** 1. A pergunta, tomada de Richard Bernstein e associada ao ensaio de Gadamer de 1965 sobre os fundamentos filosóficos do século XX, um dos mais esclarecedores sobre o hegelianismo específico do mestre da hermenêutica, que propõe seguir Hegel apenas até o espírito objetivo, leitura próxima, embora independente e ligada a Dilthey, da reforma da dialética hegeliana empreendida por Croce, demarca o terreno de uma resposta atualizada, invertendo a ordem de prioridade histórica de Bernstein, que perguntava por que, no ambiente norte-americano da crise do neopositivismo e do predomínio epistemológico, renascia o interesse por Hegel, para perguntar por que ele parece ter algo importante a dizer na situação filosófica atual, para além de seu estatuto de clássico, sem discutir o ensaio de Croce sobre o que está vivo e o que está morto em Hegel, já que Croce não considera nada realmente morto e que, em perspectiva neopragmatista, só se pode declarar algo mais ou menos atual numa situação cultural ou época do ser. 2. Declarar Hegel atual em relação a uma situação filosófica resumida em poucos traços expõe a outra espécie de húbris, típica do pensamento que se afasta da metafísica absolutista e se abre à historicidade e ao evento, semelhante à que se comete ao falar de modernidade e pós-modernidade, que os historiadores objetam não serem objetos rigorosamente definíveis, objeção que deriva de uma posição metafísica e essencialista que só justifica a escolha de um tema por sua urgência eterna na ordem das essências e não por pressões lidas no presente, como no debate com Derrida, que após a Gramatologia, em que falava da urgência atual de seu tema, nunca mais escreveu um proêmio histórico-situacional desse tipo, preferindo uma postura mais a-histórica e acentuando, nos termos de Rorty, sua filiação à linhagem kantiana da filosofia moderna em oposição à hegeliana. 3. A preferência pela linhagem hegeliana e historicista, hermenêutica e heideggeriana, é movida mais por considerações éticas do que teóricas, pelo interesse numa filosofia projetiva e não descritiva, qualificação que ainda cabe a teorias da fenomenologia husserliana ao transcendentalismo kantiano e às diversas versões de empirismo e cientificismo, sendo o Hegel indicado por Croce, cuja história do espírito não culmina numa ponta, mas se desenvolve em espiral, e por Gadamer, que exige parar antes do espírito absoluto, mestre da historicidade não apenas como história do que aconteceu, mas como história do que exige ser realizado, já que toda situação histórica de um autor é também sua utilização para o presente. 4. Retomar Hegel agora exige uma visão de conjunto que abranja o neopragmatismo de Rorty, a teoria da ação comunicativa, os resultados da hermenêutica heideggeriana e gadameriana e os problemas do multiculturalismo, em suma o pós-moderno, fenômenos em que se encontra a autoconsumação da verdade na caridade ou, segundo Rorty, na solidariedade, aquilo que se chamou koiné hermenêutica, o reconhecimento, em grande parte da filosofia contemporânea, inclusive da ciência, de que a verdade só se dá na interpretação, como nos paradigmas de Kuhn, nos jogos de linguagem de Wittgenstein, no realismo interno de Putnam e até na ação comunicativa de Habermas, contra suas intenções kantianas, todos ligando a experiência da verdade à abertura prévia de um horizonte que só funciona enquanto compartilhado, falando-se hoje de verdade e caridade para explicitar as fontes históricas dessa prevalência da interpretação, ligadas ao fim político e social do eurocentrismo e à transformação multiétnica e multicultural das sociedades industriais, sem que a koiné hermenêutica ou a autoconsumação da verdade na solidariedade sejam descrições objetivas da situação, sendo antes momentos de seu acontecer. 5. Diante do multiculturalismo, do declínio das verdades absolutas e do relativismo que, segundo o papa, se espalha por toda a existência cotidiana, o neopragmatismo resume a aceitação de que a verdade só se dá como manifestação de uma comunidade, sendo verdadeiro o que funciona, cada vez menos no sentido da confirmação experimental, já que até a falsificação popperiana não fala das coisas mesmas, mas apenas refuta hipóteses como argumento ad homines, e cada vez mais como enunciado que convém à comunidade, local, científica, partidária ou de classe. 6. O ensaio de Rorty Solidariedade ou objetividade?, de 1984, é talvez a melhor resposta à pergunta por que Hegel agora, ao defender a preferência pela solidariedade com razões que reivindicam a validade do relativismo, ao qual a solidariedade impõe limites que se podem chamar objetivos, pois não se pode dizer qualquer coisa e chamá-la verdadeira, nem impor o assentimento com provas apodícticas, que só valem para quem fala a mesma linguagem, compartilha a mesma formação e pertence à mesma comunidade, extremo oposto exemplificado pela mensagem enviada ao espaço com esboços e fórmulas matemáticas destinadas a alienígenas, que só seriam compreendidas por seres que compartilhassem parte da mesma história e cultura, já que nem um kantiano rigoroso afirmaria que entenderiam por natureza um signo como signo, ocorrendo o mesmo na comunicação cotidiana, na dialética entre langue e parole, e na criação estética, que segundo Kant aspira a uma beleza válida apenas sob a condição de criar ou recriar uma comunidade de gosto. 7. O neopragmatismo e a ontologia hermenêutica têm fundo hegeliano, pois um enunciado que funciona funciona sempre para alguém e em vista de algum fim, e aqueles que o reconhecem e nele se reconhecem não são puros seres naturais, mas feitos de esperanças, desejos e memórias, inclusive de competência linguística marcada pelas paroles incorporadas na langue, de modo que a tese hegeliana da obra de arte como manifestação sensível do espírito absoluto numa época se reduz a pouco mais do que isso, e o que Robert Pippin, no colóquio Hegel na América de 2001, diz do Estado como realização da liberdade, em que o espírito se reconhece nas instituições quando as ações que estas prescrevem são sentidas como próprias, aplica-se igualmente ou melhor à estética, embora a insistência de Pippin em que o cidadão só reconhece a ação como sua quando pode justificá-la como realização de uma regra racional corra o risco de circularidade, já que essa regra pressupõe a pertença básica que na Crítica do juízo e na estética hegeliana aparece como experiência irrefletida de pertença a uma comunidade. 8. Apesar das diferenças, visa-se algo análogo ao que Pippin busca, uma objetividade sui generis capaz de dar mais força à noção pragmatista de verdade como o que funciona para nós, que ele chama racionalidade institucional e aqui se prefere chamar racionalidade estética ou hermenêutica, diferença que retoma a ligação kantiana entre a Crítica da razão pura e a Crítica do juízo, pois o intelecto kantiano só pode funcionar como órgão de conhecimento objetivo e universalmente válido com base na comunidade, sempre histórica e eventual, estabelecida entre sujeitos que compartilham a experiência estética e reconhecem os mesmos modelos civis, religiosos e míticos, razão pela qual também Kant era etnocêntrico e sua filosofia correspondia a uma época e a seu ideal de universalismo, sem que se o chame relativista, já que para ele era a natureza que ditava as regras da arte por meio do gênio, cabendo perguntar se, deixada de lado essa doutrina demasiado metafísica, ainda se pode encontrar na comunidade histórica, no nós de Rorty, alguma garantia contra a arbitrariedade da opinião infundada. 9. Ajuda aqui a noção gadameriana de clássico, parte da retomada moderada de Hegel, cuja normatividade tem caráter mais cogente e objetivo do que a coincidência casual de gostos ou opiniões, sem ser universal e eternamente válida no sentido metafísico, podendo ser chamada, alargando a terminologia hegeliana, espírito objetivo, pois o clássico é o que dura, e o que dura, segundo Hölderlin, os poetas fundam, sendo a noção de clássico, realização histórica que se torna marco e referência para sociedades e gerações, o que confere autoridade à verdade pragmática, única via para legitimar os jogos de linguagem de Wittgenstein ou qualquer consenso, até o mais científico, já que o clássico, ao ser fundado pela primeira vez, não correspondia a nenhuma norma preexistente nem era inspirado pela natureza divina, mas era puro acontecer, Ereignis, tornando-se o que é ao impressionar seu público e moldá-lo em comunidade, de modo que a verdade neopragmatista é efeito da Wirkungsgeschichte, a história dos efeitos, e no conceito de clássico se capta a proximidade e a diferença radical entre a análise wittgensteiniana da linguagem e a hermenêutica heideggeriana. 10. A hermenêutica heideggeriana tem uma dimensão vertical e uma profundidade histórica que faltam à análise wittgensteiniana, e acumular exemplos de uso, como nas reconstruções de veritas, aletheia ou do verbo ser remontado ao sânscrito, é apenas um modo de dar substância espiritual à linguagem atual, não um fundamento que obrigue racionalmente a aceitar um enunciado, mas uma ampliação de sua ressonância emotiva que lhe confere cogência sem incontrovertibilidade, pois o que convém é o que se entretece na trama interpretativa da história, não como repetição vazia, mas como continuidade com lógica própria, parole que ganha relevo contra o fundo de uma langue que assim modifica e enriquece. 11. A proximidade entre a verdade pragmatista e o Hegel moderado de Gadamer tem outro sentido, pois o presente do nós para o qual a verdade funciona está sempre em movimento, sendo a verdade útil e nada contemplativa, e, seja ou não verdade que Hegel se sentisse no fim da história, como lhe objetaram os existencialistas desde Kierkegaard, a reforma da dialética proposta por Croce, sensível ao raciocínio de Marx, e a exclusão gadameriana do espírito absoluto em favor do objetivo situam a experiência da verdade num horizonte aberto de projetualidade que retira da filosofia todo caráter retrospectivo, já que, sem absoluto ao qual retornar ou chegar, ela se insere na trama da história dos efeitos também como geradora de novos efeitos. 12. A referência a Hegel liberta a verdade pragmatista de certa superficialidade, isto é, da pura provisoriedade de uma escolha contingente destinada a dissolver-se com a mudança da situação, pois o que convém por corresponder a expectativas e necessidades enraizadas no passado comum contém um elemento de projetualidade que aspira a tornar-se clássico e durar, valendo para um nós que não equivale aos indivíduos de fato existentes, havendo além do horizonte do futuro próximo um futuro mais distante que não se pode esquecer, aludido por Rorty com o termo solidariedade, que pode ser lido diretamente como caridade, não só como meio de consenso, mas como fim em si, conforme o dogma cristão de que Deus é caridade, horizonte que, do ponto de vista hegeliano, pode ser tomado como o espírito absoluto que nunca se deixa pôr inteiramente de lado e se torna o horizonte final da história que legitima as escolhas mais próximas, consistindo seu caráter absoluto não em estar junto de si na certeza e autotransparência totais, como talvez pense o ainda cartesiano Hegel, mas em constituir o único fim ao qual todas as realizações objetivas e verdades pragmáticas podem visar como superação autêntica, nunca totalmente dada, de toda forma de alienação. {{tag>Vattimo filosofia Hegel}}