====== Racionalidade ====== //VATTIMO, Gianni. Oltre l’interpretazione: il significato dell’ermeneutica per la filosofia. Roma: GLF editori Laterza, 2002.// 1. A hermenêutica tem sido acusada de ser expressão extrema do irracionalismo que permeia boa parte da cultura e da filosofia europeu-continental das primeiras décadas do século XX, acusação vinda tanto do racionalismo historicista dos epígonos de Lukács quanto do cientificismo neopositivista e em parte legítima, já que a ontologia heideggeriana que a funda polemiza com ambas as formas de racionalismo, vistas não como opostas, mas como momentos do mesmo desenvolvimento da razão metafísica, e que hoje, perdida a hegemonia desses racionalismos, circula numa forma mais fraca, segundo a qual a hermenêutica recusa a argumentação em favor de um filosofar poético-criativo ou puramente narrativo, acusação que não é totalmente imotivada e indica um risco real das teorias hermenêuticas correntes, mas que a hermenêutica pode e deve rejeitar desenvolvendo, a partir de seus pressupostos originais, uma noção específica de racionalidade que, sem retornar às fundações metafísicas, não apague os caracteres próprios do discurso filosófico em relação à poesia e à literatura, abrindo talvez caminho para retomar em certos termos as noções clássicas de racionalidade historicista e científica, reconstrução inseparável de uma reconsideração da relação entre hermenêutica e modernidade. **1. O ‘irracionalismo’ hermenêutico** 1. As acusações de irracionalismo dirigidas hoje à hermenêutica baseiam-se sobretudo numa noção fraca de racionalidade como capacidade de propor argumentos publicamente reconhecíveis em vez de intuições poéticas, frequentemente acompanhada de resíduos dos mitos historicista e cientificista, e visam teorias como a distinção de Rorty entre hermenêutica e epistemologia, na qual o discurso argumentativo recai inteiramente na epistemologia, a ciência normal de Kuhn, enquanto hermenêutico é apenas o encontro necessariamente não argumentativo com um novo sistema de metáforas ou paradigma, distinção que Rorty vê exemplificada por Derrida, cuja desconstrução seria modo exemplar de praticar a filosofia como escuta de novos sistemas metafóricos e, por não justificar sua preferibilidade, ela própria proposta poética, o que levanta a questão crucial de saber se a distinção rortiana é epistemológica ou hermenêutica, e ilustra o que os críticos chamam irracionalismo da hermenêutica, pois esta, seguindo Heidegger na recusa da verdade como correspondência, admite a prova de um enunciado apenas dentro de uma abertura a que o Dasein pertence sem dispor dela, e substitui a metáfora do apreender pela do habitar, como no verso de Hölderlin sobre o habitar poético do homem, tornando a experiência da verdade fatalmente poética ou estética. 2. O irracionalismo hermenêutico pode ser caracterizado também como esteticismo, o que parece paradoxal diante da crítica da consciência estética que é um dos pontos de partida decisivos de Gadamer em Verdade e método, paradoxo que indica que, se a hermenêutica termina no esteticismo, é porque traiu sua inspiração originária, a qual, em sua formulação canônica gadameriana, deveria impeli-la na direção oposta, a da reivindicação da racionalidade. 3. Entre as formas de esteticismo irracionalista, isto é, não argumentativo, que permeiam a hermenêutica contemporânea estão, além da distinção rortiana entre hermenêutica e epistemologia, que não é apenas descritiva, a desconstrução de Derrida, que pode ser considerado pensador hermenêutico por sua analogia substancial com o An-denken heideggeriano, também ele profundamente desconstrutivo, sendo sua diferença em relação à corrente gadameriana apenas o desenvolvimento da herança de Heidegger por linhas diversas, mas não menos legítimas nem menos significativas. 4. A desconstrução derridiana caracteriza-se por ter feito prevalecer, na prática e na autointerpretação de Derrida, o arquétipo do coup de dés mallarmeano sobre a atitude argumentativa ainda visível no capítulo introdutório da Gramatologia, em que a virada gramatológica era justificada por uma mudança epocal pela qual a palavra escrita tomava o lugar antes ocupado por linguagem, ação, pensamento ou inconsciente, verdadeiro hápax legómenon em sua obra, já que em nenhum outro texto ele justifica argumentativamente seu método ou os termos de que se ocupa, de modo que tanto o início quanto o desenvolvimento da meditação desconstrutiva se assemelham a uma performance de efeito dificilmente distinguível da experiência estética, o que explica a ausência de uma escola derridiana, já que Derrida, como um artista e como queriam Nietzsche e seu Zaratustra, não pode ser continuado, só imitado, traço positivamente desejado por ele, mas que implica um alto risco de esteticismo análogo ao de Rorty, ligado, como em boa parte da filosofia francesa do século, à experiência literária, ao simbolismo mallarmeano e às vanguardas, pois a arbitrariedade da escolha desconstrutiva testemunha a confiança simbolista em chegar ao essencial a partir de qualquer ponto da tradição textual ou da língua, enquanto a preferência pelas margens, molduras e bordas arrisca outra metafísica, que busca o verdadeiro e o mais autêntico fora do cânone, também esteticista até a retórica do artista boêmio, do poeta maldito e do intelectual criativo excluído da ordem burguesa. 5. O esteticismo e irracionalismo da hermenêutica assumem dois significados, o da distinção rortiana, em que a compreensão de novos sistemas de metáforas, oposta à atividade normal que argumenta dentro de um paradigma aceito, é assimilação estética do mundo aberto por eles, como a obra de arte em A origem da obra de arte de Heidegger, excluindo argumentação, demonstração e cogência lógica, e o da versão desconstrucionista, que, para fugir da metafísica, recusa toda justificação argumentativa de seu procedimento e de suas escolhas, apresentando-se como coup de dés que comporta um pesado retorno de fundos metafísicos, sobretudo simbolistas, traindo assim a vocação antimetafísica da hermenêutica. 6. A conexão entre essas duas formas de esteticismo e irracionalismo hermenêuticos aparece à luz da crítica gadameriana da consciência estética, que considera a obra como universo fechado e separado, acessível num Erlebnis intuitivo e pontual, crítica que atinge sobretudo a concepção rortiana do ato hermenêutico como encontro com um sistema de metáforas totalmente novo, mas também a arbitrariedade genial do ato desconstrutivo, pois a absoluta novidade e autonomia da obra oferecida à degustação pontual do Erlebnis tem seu correlato no gênio criador, que na era pós-romântica perdeu o enraizamento teológico-natural que ainda tinha em Kant e ficou reduzido a pura arbitrariedade. 7. Essas observações mostram que, cedendo a uma ou outra forma de esteticismo e irracionalismo, a hermenêutica trai as próprias premissas e reencontra a metafísica, repropondo antes de tudo uma concepção claramente metafísica da experiência estética. **2. A ‘fundação’ da hermenêutica** 1. Embora a crítica da consciência estética ofereça uma boa saída do esteticismo e do irracionalismo hermenêuticos, as recorrentes suspeitas de tradicionalismo ou de relativismo contra Gadamer justificam-se em parte por ele nunca ter discutido radicalmente, a partir de suas próprias premissas, a questão da racionalidade hermenêutica, já que Verdade e método não propõe uma fundação explícita da hermenêutica que valha como prova ou argumento persuasivo de sua validade, parecendo sustentá-la numa análise fenomenológica da experiência estética e histórica que mostraria o que realmente acontece no encontro com a obra de arte e com os textos do passado, incompreendido pelas teorias dominadas pelos preconceitos do cientificismo, o que implicaria fundar a teoria da interpretação numa descrição objetiva, metafisicamente verdadeira e adequada da experiência hermenêutica, contradição evidente com a polêmica do livro contra toda pretensão de descrever objetivamente a realidade. 2. Paralelamente ou mais profundamente que a análise fenomenológica, Verdade e método oferece a reconstrução histórica do processo pelo qual a autoconsciência metódica das Geisteswissenschaften se desenvolveu numa ontologia hermenêutica, mas permanece obscura a relação entre esses dois níveis, pois as razões pelas quais o predomínio do metodologismo científico desde o século XVII teria obscurecido conteúdos da tradição como sensus communis, discrição, gosto e cultura parecem buscadas numa análise fenomenológica que, sob pena de autocontradição, não pode ser descrição mais adequada do real, o que daria razão a Rorty, para quem adotar a hermenêutica seria aproximar-se dela como de uma obra de arte ou assimilá-la intuitivamente como um antropólogo assimila uma cultura de dentro, modo que contradiria, porém, a crítica gadameriana da consciência e do Erlebnis estéticos, assim como Gadamer não poderia recomendar a hermenêutica como coup de dés legitimado pela arbitrariedade, que lhe pareceria retomada injustificável da visão pós-romântica do artista como gênio desenraizado, marginal e excluído da racionalidade social burguesa. 3. A solução do problema de evitar o irracionalismo implícito na fundação da hermenêutica passa por uma radicalização de Verdade e método que esclareça a relação entre análises fenomenológicas e reconstrução histórica, direção indicada pelo próprio Gadamer, que nunca separa a análise da experiência da referência à tradição, fundando a applicatio em Aristóteles e na hermenêutica jurídica e conduzindo a crítica da consciência estética em diálogo com Kant, Kierkegaard e a estética do século XX, o que significa radicalmente que não há análise fenomenológica da experiência que não seja possibilitada e qualificada pela pertença a uma tradição, de modo que até o coup de dés se descreve pela experiência histórica de um artista do passado e sua arbitrariedade reside apenas na recusa de explicar suas escolhas, situação conhecida da hermenêutica como domínio de preconceitos não tematizados e esquecimento da Wirkungsgeschichte, princípio pelo qual a obra, o texto ou o vestígio do passado só se compreendem pela história de seus efeitos e interpretações e que indica o caminho para uma racionalidade hermenêutica, pois a obscuridade gadameriana revela uma aplicação insuficiente à própria teoria de seus princípios, e radicalizá-los significa reconhecer que a hermenêutica só se legitima coerentemente mostrando ser ela mesma interpretação hermeneuticamente correta de uma mensagem vinda do passado ou de um alhures ao qual sempre já pertence, já que a crítica do objetivismo e do cientificismo não seria radical se a hermenêutica pretendesse ser descrição mais adequada do que realmente são a experiência, a existência e o Dasein, e a frase de Nietzsche de que não há fatos, só interpretações, não é enunciado de um fato, mas também apenas uma interpretação. 4. Paradoxalmente, só a consciência radical de seu caráter interpretativo, não descritivo nem objetivo, garante à hermenêutica a possibilidade de argumentar racionalmente, pois suas razões de validade são uma reconstrução interpretativa da história da filosofia moderna, como as razões de Nietzsche para afirmar que Deus morreu, que não era enunciado metafísico sobre a inexistência de Deus, mas interpretação narrativa da história da cultura mostrando que já não é necessário nem moralmente possível crer no Deus da tradição onto-teológica, à maneira do senso comum que espera que quem leu Marx, Nietzsche, Freud e Wittgenstein não possa mais aceitar certas ideias ou atitudes, um depois que não é premissa logicamente cogente nem fundação forte, mas tampouco simples convite a partilhar um gosto, que reconduziria ao esteticismo, sendo justamente a ideia de que o que não é prova lógica deve ser Erlebnis estético que revela a dependência do cientificismo, de modo que o modelo da verdade hermenêutica é estético, mas não no sentido pós-kantiano e kierkegaardiano de estético, como mostrou a primeira parte de Verdade e método. **3. Hermenêutica e modernidade** 1. A reconstrução da racionalidade do ponto de vista hermenêutico exige apenas radicalizar premissas já presentes, pois o modo de argumentar ilustrado pela frase de Nietzsche sobre a morte de Deus já é amplamente praticado não só em Gadamer, mas também em Rorty e, mais evidentemente, em Derrida, como mostram a desconstrução psicoterapêutica da metafísica ocidental em A filosofia e o espelho da natureza, a múltipla atividade desconstrutiva derridiana e a preparação histórica de Verdade e método, exemplos de argumentação narrativo-interpretativa, mas para escapar realmente dos riscos de relativismo, esteticismo e irracionalismo é indispensável explicitar as implicações ontológicas do discurso hermenêutico. 2. Como teoria filosófica, a hermenêutica prova sua validade apenas referindo-se a um processo histórico do qual propõe uma reconstrução que mostra a escolha pela hermenêutica, contra o positivismo por exemplo, como preferível ou mais justificada, formulação talvez dura demais para muitos hermenêuticos, mas primeiro passo indispensável para a reconstrução da racionalidade hermenêutica. 3. As reconstruções interpretativas da história da filosofia moderna de Gadamer, Nietzsche, Rorty e, de modo fragmentário, Derrida não se reduzem a imagens poéticas, e não por acaso o problema em torno do qual nasce e se desenvolve a hermenêutica é o da validade das Geisteswissenschaften e de sua distinção em relação às meras representações poéticas de formas de vida passadas ou de outros universos culturais, sem que haja aqui círculo vicioso, pois a hermenêutica só pode reivindicar validade como teoria na medida em que a reconstrução interpretativa da história é atividade racional, em que se pode argumentar e não apenas intuir, fühlen ou Einfühlen. 4. A ontologia é necessária porque sem ela a hermenêutica parece apenas uma teoria da multiplicidade irredutível e inexplicável dos esquemas conceituais, aceita como a própria vida ou como fato último metafísico, sendo ela mesma um esquema entre outros preferível só por uma escolha não argumentável, seja o encontro estético com um novo sistema de metáforas de Rorty, seja o coup de dés vanguardista-simbolista de Derrida, e somente se o nascimento e desenvolvimento da hermenêutica pertencem ao que Heidegger chama destino do ser, e não a esquemas conceituais que não tocam o ser real lá fora, a escolha teórica pela hermenêutica e as escolhas interpretativas específicas, como as desconstruções derridianas, podem ser mais que Erlebnisse estéticos ou acrobáticos coups de dés. 5. O chamado irracionalismo da hermenêutica é o esteticismo presente em Rorty e Derrida e que é também risco de Gadamer na medida em que não esclarece como a hermenêutica prova sua validade, esclarecimento que exige que ela deixe de pensar-se como teoria fundada numa análise fenomenológica adequada da experiência e se reconheça como apenas interpretação, que, coerente com a crítica heideggeriana da verdade como correspondência, não funda suas pretensões num acesso às coisas mesmas, mas se concebe como resposta a uma mensagem e articulação interpretativa de sua pertença a uma tra-dição, Über-lieferung, que não é mera sucessão de esquemas conceituais, o que deixaria fora dela um ontos on metafísico, devendo por isso explicitar seu fundo ontológico, a ideia heideggeriana de um destino do ser articulado como encadeamento das aberturas e sistemas de metáforas que possibilitam e qualificam a experiência do mundo, no qual a hermenêutica se concebe como momento e cuja reconstrução, também interpretação, mas não apenas interpretação no sentido de deixar fora um ontos on, fundamenta argumentativamente sua validade, já que o destino do ser só se dá numa interpretação, sem cogência objetivo-determinista, como Ge-Schick no sentido de Schickung, envio, de modo que a racionalidade acessível consiste em que, envolvidos e sempre já lançados num processo, sabe-se em certa medida para onde ir e como, mas para orientar-se é preciso reconstruir e interpretar esse processo do modo mais completo e persuasivo possível, sem a ilusão de saltar fora dele para captar a arché, a essência ou a estrutura última, sendo a racionalidade apenas o fio condutor compreendido pela escuta atenta das mensagens da Schickung, base sobre a qual se justificam argumentativamente tanto a escolha teórica pela hermenêutica quanto as escolhas interpretativas específicas. 6. A radicalização ontológica da hermenêutica tem consequências significativas, entre elas a de sua relação com a modernidade, isto é, com o pensamento moderno como pensamento do advento do niilismo, pois, se a hermenêutica não tem outra fonte de validade senão sua pertença a uma Über-lieferung que é especificamente a do pensamento moderno, sua relação com essa tradição deve ser pensada em termos muito mais positivos do que em Verdade e método, não como recusa polêmica do cientificismo e da racionalidade técnica em nome de um saber mais verdadeiro e de uma existência mais autêntica contra os erros da modernidade, mas como reconhecimento de que a hermenêutica é consequência da modernidade e não sua refutação. 7. Isso implica desenvolver o controverso aspecto da herança heideggeriana relativo ao Ge-Stell, o mundo tecnocientífico entendido tanto como consumação da metafísica quanto como primeiro anúncio de sua superação, no famoso passo de Identidade e diferença sobre o primeiro lampejar do Ereignis, de modo que a hermenêutica não opõe à alienação da sociedade racionalizada uma autenticidade fundada no privilégio das ciências do espírito, mas busca captar o sentido da transformação da noção de ser produzida pela racionalização tecnocientífica do mundo, modo de desenvolver o discurso hermenêutico diferente do esteticismo de Rorty ou de Derrida e talvez mais próximo de Foucault e do que ele chamou ontologia da atualidade. 8. Como teoria da modernidade, no duplo sentido do genitivo, a hermenêutica pode recuperar em parte os dois sentidos principais da racionalidade moderna, o científico e o historicista, pois as ciências podem ser vistas não apenas como extremização do esquecimento metafísico do ser, mas também, com a tecnologia, como condições de uma transformação do sentido do ser rumo a seu dar-se pós-metafísico, já que o mundo da objetivação científica, como mostram as páginas finais de A época da imagem do mundo, é também aquele em que, por um processo inflacionário de multiplicação das imagens que anula a pretensa objetividade, tende a dissolver-se a qualificação metafísica do ser, enquanto a racionalidade historicista se reencontra no modo de argumentar a validade da hermenêutica, que, ao contrário do historicismo metafísico de Hegel, Comte e Marx, não vê o sentido da história como fato a reconhecer e aceitar como ultimidade metafísica, mas como fio condutor que só se dá num ato interpretativo validado no diálogo com outras interpretações e que contribui para modificar a situação de fato de modo a tornar a interpretação verdadeira, razão pela qual a reconstrução hermenêutica da história não é vocabulário poético oferecido a um Erlebnis estético, assim como não se poderia abordar como criação poética um sistema que se pretende universalmente verdadeiro como o hegeliano sem falseá-lo no essencial, de modo que a novidade e importância da hermenêutica estão na afirmação de que a interpretação racional e argumentativa da história não é científica no sentido positivista nem puramente estética, cabendo à hermenêutica contemporânea articular cada vez mais explicitamente essa inspiração original e corresponder responsavelmente ao apelo que lhe vem de sua herança. {{tag>Vattimo hermenêutica racionalidade}}