====== Hegel, Antígona e a Estrutura do Trágico Ético ====== //STEINER, George. Antigones. New Haven London: Yale University Press, 1996.// * Deslocamento da recepção comum da interpretação hegeliana * A leitura mais conhecida da tragédia em Hegel não corresponde à exegese inicial, mais sensível e concreta, mas a uma formulação posterior, abstrata e esquematizada, que se tornou canônica * Essa leitura tardia adquire notoriedade histórica por sua força sistemática e por inaugurar um debate duradouro acerca da natureza do trágico * A vinculação com a Fenomenologia do Espírito é real, mas mediada por uma redução conceitual que privilegia silhuetas lógicas em detrimento da densidade fenomenológica originária * Definição hegeliana de destino e necessidade na tragédia * Distinção rigorosa entre fatum e necessidade ética * Fatum designa aquilo que foi esvaziado de pensamento e conceito, um plano abstrato onde justiça e injustiça se anulam * A tragédia, ao contrário, situa o destino no interior da justiça ética, recusando a arbitrariedade do acaso cego * Caracterização da necessidade trágica como justiça pensada * Embora o destino individual permaneça opaco e incompreensível, a necessidade que o governa é reconhecida como racional e justa * A tragédia sofocliana constitui, assim, o paradigma da inteligibilidade ética do sofrimento * Antígona como exemplum absoluto da tragédia * Encenação plástica da colisão entre as duas potências morais supremas * De um lado, o amor familiar, o sagrado interior, vinculado ao sentimento e à lei dos deuses infernais * De outro, o direito do Estado, a ordem pública, a autoridade política enquanto exigência objetiva * Afirmação da legitimidade ética de ambas as potências * Nenhuma das forças em conflito é reduzida a erro, arbitrariedade ou perversão moral * A tragédia não emerge da oposição entre justiça e injustiça, mas da confrontação entre justiças parciais * Reabilitação ética da figura de Creonte * Negação explícita da caracterização de Creonte como tirano * Creonte é apresentado como uma potência ética efetiva, expressão legítima da ordem estatal * Sua exigência de punição não decorre de crueldade, mas da necessidade de preservar a autoridade da lei * Fundamento da sua ação na universalidade do Estado * A lei estatal exige respeito irrestrito para subsistir enquanto forma objetiva da eticidade * A violação da lei, se não punida, dissolveria o próprio princípio do político * Unilateralidade estrutural das posições em conflito * Cada parte atualiza apenas uma dimensão do ético * Antígona encarna exclusivamente a lei familiar e religiosa * Creonte encarna exclusivamente a lei cívica e estatal * A unilateralidade como condição do trágico * A injustiça não provém do conteúdo das posições, mas de sua exclusividade * Cada parte é justa em si e injusta enquanto negação da totalidade ética * Manifestação da justiça eterna no processo trágico * Dupla atribuição de justiça e injustiça às partes * Ambas sofrem punição porque permanecem unilaterais * Ambas são reconhecidas como válidas no curso não turvado da moralidade * A justiça plena como força corretiva da unilateralidade * A justiça não se identifica com nenhuma das posições * Ela emerge apenas como poder que se opõe à fixação exclusiva de qualquer uma delas * Fundamento sistemático da leitura hegeliana * Pressuposição da ontologia da cisão do Absoluto * A realidade ética é constituída por divisões internas necessárias * O trágico expressa essa autocontradição constitutiva do ser * Vinculação com a teoria hegeliana da punição * A punição é compreendida como necessidade trágica no processo de realização ética * O sofrimento não é acidental, mas estrutural à efetivação do Espírito * O conflito como motor do progresso ético * Impossibilidade de reconciliação imediata entre Estado e família * Espírito e história não coincidem plenamente * O Estado permanece o campo inevitável da realização ética humana * Centralidade do conflito como condição do avanço moral * Apenas por meio da colisão se tornam possíveis as explorações de valores * As contradições rudimentares são elevadas, por sublação, a formas mais complexas de dissenso * Necessidade lógica do enfrentamento entre Antígona e Creonte * Antígona só se constitui como Antígona ao desafiar Creonte * Creonte só se constitui como Creonte ao resistir a Antígona * Função negativa e produtiva da derrota de Antígona * Superioridade ética da lei familiar reconhecida e aniquilada * A imediaticidade e pureza da lei feminina devem ser manifestadas * Essa mesma pureza deve ser destruída para que o progresso seja possível * Impossibilidade de triunfo da esfera privada * A vitória de Antígona eliminaria o espaço do trágico * Sem o Estado, não haveria lugar para colisão significativa nem para desenvolvimento ético * Centralização da contradição ética na figura do Estado * O Estado como núcleo da negatividade histórica * A contradição do ser desloca-se para a relação entre indivíduo e Estado * Definição da moralidade apenas no interior do conflito estatal * A moralidade interna e externa só se tornam efetivas no embate com a ordem pública * Aproximação assintótica da unidade do Absoluto * A unidade não é dada, mas visada por meio de conflitos sucessivos * Imperativo de equilíbrio trágico * Exigência de equivalência ética entre os antagonistas * Se Creonte fosse apenas tirano, o conflito perderia dignidade trágica * A derrota de uma posição destituída de validade não teria sentido construtivo * O progresso como resultado da dupla derrota * As mortes de Antígona e Creonte inauguram conflitos mais ricos e mais conscientes * A substância ética permanece dividida, mas elevada a um nível superior de consciência * Paradoxo da unidade divisiva * Formulação da lógica da positividade da negação * O conflito extremo destrói e fortalece simultaneamente o Estado * Preservação de categorias opostas indispensáveis à dialética * A estase primordial do mundo subterrâneo e feminino * A dinâmica histórica da ação política e masculina * Resultado interpretativo * Uma leitura deliberadamente dura e esquemática * Formalmente coerente, mas existencialmente brutal {{tag>Steiner Antigona Hegel}}