====== 3.4 Economia da relação ====== //STAROBINSKI, Jean. Montaigne en mouvement. Paris: Gallimard, 1982 (Coleção Bibliothèque des Idées).// **"A RELAÇÃO COM OUTREM"** **ECONOMIA DA RELAÇÃO** 1. Na relação com outrem três momentos apareceram sucessivamente: a dependência impensada, a recusa autárquica e a relação dominada, e esses momentos designam uma sucessão lógica e não uma ordem cronológica. 2. A um exame mais aproximado veríamos essa dialética governar muitos aspectos da experiência de Montaigne, e quando se trata de seu dinheiro Montaigne vive sua relação com outrem da mesma maneira que quando se trata de sua própria imagem. 3. Na ordem pecuniária o ritmo ternário dos três momentos é indicado de maneira ainda mais nítida e mais explícita, e o próprio Montaigne distingue três períodos de sua vida, divisão mais rica de ensinamento do que aquela que os comentadores tentaram estabelecer entre as fases estóica, cética e epicurista de seu pensamento. 4. A primeira fase durou cerca de vinte anos, durante os quais viveu de recursos fortuitos na dependência de outros sem renda própria, sem uma situação definida nem previsão orçamentária, e de início tudo vem de fora para esse jovem fidalgo cuja família não carece de recursos. 5. É graças a outrem, em primeiro lugar seu pai, que ele pode prover à sua subsistência ou às suas fantasias, e nesse período o temor da falta por certo jamais deve assaltá-lo, mas não era seu próprio senhor e permanecia dependente de uma vontade estranha, provindo seu gasto dos acasos felizes da sorte. 6. O segundo momento é o da dominação autártica, pois tornando-se o legítimo possuidor de sua fortuna Montaigne entende exercer sobre ela a mais rigorosa vigilância, e desconfiando dos outros exerce controle assíduo sobre seus bens para os conservar e aumentar, não deixando nenhum olhar estranho cometer intrusão. 7. A segunda fase de sua existência ocorreu quando tinha dinheiro, e tomando gosto nisso não demorou em criar reservas importantes para a sua condição, estimando que somente o que sobrexcede a despesa comum constitui um haver. 8. O resultado de pensamento tão fútil e doentio foi que se esforçou com a criação dessa reserva supérflua por se garantir contra qualquer eventualidade desagradável, e aos que observaram serem essas eventualidades demasiado numerosas para que se precavesse contra elas respondia que se não se podia resguardar de todas podia atentar para algumas e em particular para as mais prováveis. 9. Isso não se verificava sem lhe causar apreensões, e mantinha-as secretas, e ele que fala tão livremente de tudo que lhe diz respeito não falava a verdade quanto ao dinheiro que possuía, agindo como muitos outros, os ricos que se dizem pobres e os pobres que afirmam ser ricos. 10. Se viajava parecia-lhe sempre não estar suficientemente provido de dinheiro e quanto mais levava consigo tanto mais preocupado se tornava, já por causa da insegurança das estradas já porque não depositava confiança na fidelidade da criadagem encarregada das bagagens. 11. Se deixava seu cofre em casa quanta suspeita e inquietação tanto piores quanto não podia confessar-me a ninguém e tinha o espírito constantemente voltado para esse lado, e acumulação, concentração e vigilância são o que Montaigne prescreve quando convida o sábio a reunir suas forças para as retesar contra as usurpações exteriores e contra o temor da morte. 12. A preocupação parcimoniosa é paralela à tentação de não depender senão de si e de nada dever senão a si, e aí vemos edificarem-se as mesmas defesas e o mesmo recurso ao segredo ou até à máscara, mas descobre-se também que a recusa da dependência exterior provoca paradoxalmente um retorno ofensivo da exterioridade. 13. A premeditação da ruína, como a da morte, lança a consciência fora do presente estável em que almejaria estabelecer-se, e desejosa de dominar o tempo é dominada pelo pensamento do tempo por ser dominado. 14. Preocupada em escapar às empresas hostis ela se esforça por se manter a distância dos outros, mas a ruminação desconfiada imagina continuamente a agressão que teme, e o cofre de Montaigne representa a segurança, a possibilidade do ócio, o retiro confortável entre os livros, a independência da reflexão e toda a obra que pode edificar-se com base na autonomia protegida. 15. A salvaguarda do precioso cofre condena o pensamento a espreitar ansiosamente o espaço exterior, devendo empenhar-se em frustrar os embustes e prevenir os danos, e em vez de escapar aos outros o espírito é vítima de sua malevolência antecipada e permanece constantemente em alerta. 16. Mais vale renunciar a carregar sozinho semelhante fardo e abdicar de tão custosa dominação cujos efeitos são o completo oposto da liberdade esperada, e Montaigne a partir da viagem à Itália aceita a despesa, está pronto a confiar-se a outrem e também a confiar-se ao capricho do instante. 17. Pois doravante é bastante forte para não se deixar entravar, e reconheceu que a preocupação solitária é mais escravizadora que a consciência avisada, e esta resignando-se aos riscos inevitáveis provará tanto mais da plenitude do instante presente e da relação momentânea sem lhes pedir mais do que podem dar. 18. Assim Montaigne pode fazer o elogio de uma independência que chega ao desapossamento e encontrou a fórmula de uma autonomia comunicativa, de um domínio de si que inclui a relação com outrem, senão mesmo o abandono. 19. Chegou desse modo a uma terceira fase certamente muito mais agradável e normal, deixando que corram despesas e renda sobrexcedendo-se mutuamente ao acaso mas sem diferenças sensíveis, e vive ao sabor do momento contentando-se com atender às necessidades do presente e às despesas previstas. 20. Se junto ainda não o faz em vista de despesa futura nem para comprar terras de que não precisa, mas para se divertir, e muito louva o sábio partido que tomou um velho prelado seu conhecido, o qual entrega muito simplesmente sua bolsa e suas rendas e o cuidado de sua existência ora a um ora a outro servidor. 21. Desse modo viveu longos anos tão ignorante de seus negócios domésticos quanto um estranho, e a confiança na bondade alheia é um testemunho nada desprezível da própria bondade, e Deus a protege. 22. Montaigne imagina uma autonomia superior que faz justiça aos outros porque o interesse verdadeiro do indivíduo não é zelar avidamente por suas vantagens particulares mas se divertir, e ele aceita uma despesa em que se consome uma parte relativa da provisão, imprevidência calculada que se transforma em intensidade sensível e em felicidade de existir. 23. Doravante a consciência libertada, voltando ao imediato e à heteronomia de que se eximira, sabe que uma relação eqüitativa deve reinar entre o fora e o dentro, entre mim e outrem, entre a integridade de uma existência única e o consentimento no risco material. 24. Nas páginas mais acabadas dos Ensaios a abertura para o mundo vai de par com a atenção em si mesmo, e contrariamente a uma opinião preguiçosa o esquecimento de si não é a condição indispensável da compaixão. 25. O singular capítulo Dos coches é particularmente ilustrativo, pois seu percurso de um tema relativo ao próprio corpo a um tema relativo à tortura sofrida pelos outros é de uma evidência exemplar, e Montaigne começa por uma confidência referente à sua sensibilidade ao enjoo dos transportes. 26. O eu, instância subjetiva livre, afirma-se duplamente pelo exercício do julgamento crítico em relação a uma teoria que a experiência pessoal contradiz e pela confidência sobre a experiência cenestésica da náusea e da revolta do estômago, sendo esse gênero de confissão referente à sensação corporal excepcional na prosa da época. 27. Em seguida o interesse pela Antigüidade e pelas civilizações índias da América conduz o pensamento guiado por leituras exatamente localizáveis para os lugares mais afastados no tempo e no espaço, e o impulso é dado pelo pensamento crítico, pois a crítica do pensamento médico de início limitada a um único objeto generaliza-se e se dirige para ignorâncias mais graves. 28. O afastamento temporal e espacial autoriza o julgamento a alçar um vôo mais vasto, e a ampliação do espetáculo oferece o pretexto de uma crítica intelectual, pois a soma das coisas conhecidas é apenas uma parte ínfima daquilo que é, daquilo que foi e que ignoramos. 29. Montaigne aí encontra em seguida a oportunidade de uma crítica cultural, pois a pompa e magnificência dos antigos especialmente nos jogos do circo ultrapassava a nossa e o fausto dos americanos em muitos aspectos nada tinha a invejar aos esplendores da Antigüidade, e nesse plano a vantagem é concedida aos outros contra nós. 30. A crítica não se detém aí, pois ao falar dos imperadores romanos incrimina de maneira mais geral a prodigalidade dos príncipes que tomam os recursos do povo para brilhar por suas liberalidades públicas e ataca sobretudo a brutalidade dos conquistadores da América, e é apenas então que a crítica adquire toda a sua envergadura ética e política. 31. Um engajamento inteiramente pessoal se assinala com referência a uma realidade aparentemente situada nos antípodas da existência pessoal, e esses acontecimentos aprendidos por meio da relação e do testemunho que deles fornecem os livros suscitam em Montaigne leitor atento e vulnerável uma resposta apaixonada. 32. Com isso ele estabelece em troca uma relação de uma ordem inteiramente diferente que não se limita ao exercício de um julgamento distante e neutro, e não se pode deixar de pensar que a atenção inicial de Montaigne a seu mal-estar corporal preparou e tornou possível a estreita simpatia pelos sofrimentos suportados por outros homens em um mundo longínquo. 33. Falando no começo do ensaio dos movimentos bruscos que são tão desagradáveis ele nos diz que tem por hábito reagir contra os seus defeitos e procurar submetê-los à sua vontade, e sua condição corporal infundira-lhe uma experiência do mal-estar, da dor e da resistência difícil. 34. Sofrer de cálculos nos rins é familiarizar-se com o suplício, e como Montaigne ficaria indiferente aos tormentos dos príncipes índios que os espanhóis torturam. 35. A ética humanista de Montaigne se manifesta aqui sem nem sequer ter de formular seus princípios, pois a anedota cruel comporta um valor demonstrativo e o exemplo não é apenas destacado como uma prova de firmeza de alma mas convida a imaginar o sofrimento suportado. 36. Se o começo do ensaio não nos houvesse mostrado em Montaigne tanta atenção ao mal-estar corporal e tanta resolução em combatê-lo a relação nos teria aparecido menos nitidamente entre a experiência pessoal do tormento físico e a intuição escandalizada do suplício sofrido pelos índios. 37. Poder-se-ia até chegar a dizer que a maneira pela qual Montaigne recusa deixar-se dominar pela náusea e seu desejo de domar o desfalecimento interno levam muito diretamente à compreensão da coragem do rei torturado e ao protesto contra os tratamentos inumanos infligidos aos índios cativos. 38. É preciso haver conferido o maior valor à posse de si para se indignar diante da violência que tenta desapossar um ser humano de sua vontade, e no caso o ideal do domínio de si se desenvolve e se inverte em imperativo do respeito pelo outro, sendo essa sua versão exteriorizada. 39. O individualismo de Montaigne, se faz justiça ao apelo do recolhimento na subjetividade pessoal, não se limita a isso, pois reivindica o mesmo direito para cada um sem se desinteressar de maneira alguma das condições políticas e sociais capazes de garanti-lo, e por isso o individualismo está estreitamente associado a um postulado universalista. 40. Montaigne, conhecendo de dentro pela experiência da vida corporal a fraqueza e a precariedade da existência individual, é levado a apoiar espontaneamente o partido dos fracos quando a violência, a injustiça e o fanatismo combatem seu pensamento, seus costumes e sua própria vida, para reduzir o escândalo e o desafio dissidente que toda individualidade representa aos olhos do poder tirânico. 41. A ideologia de que esse fidalgo provinciano de origem burguesa é o expositor é menos a de uma classe determinada do que a da mobilidade social de que sua família foi o testemunho exemplar, e o mobilismo de Montaigne não é apenas a visão de um mundo dominado por um fluxo incessante mas também a intuição da mudança inevitável que põe os pobres no lugar dos ricos e os vencidos no lugar dos vencedores. 42. Toda experiência humana, a mais elevada como a mais baixa, é virtualmente minha, e com base nessa visão do mundo e nessa intuição pode-se perceber a similitude profunda que assegura a ligação universal entre indivíduos de todas as nações e de todas as condições, e um universo de vicissitudes habitado pela consciência pode tornar-se um universo de reciprocidade. 43. A ligação universal só pode ser protegida pela salvaguarda de cada um de seus participantes, e o eu não se confere tão altos privilégios em Montaigne senão para fazer entender que nenhum ser humano deve ser preterido. 44. Montaigne evocou com demasiada frequência em seu próprio caso o movimento da queda para que não descubramos a simpatia dissimulada no relato aparentemente impassível da queda do último rei do Peru. 45. Para voltar a nossos coches, no dia em que o aprisionaram o rei do Peru fazia-se transportar sobre um assento de ouro durante o combate, e queriam-no vivo os espanhóis mas à proporção que matavam os carregadores outros surgiam para substituir os mortos, e o soberano só foi detido afinal quando um cavaleiro o derrubou por terra. {{tag>Starobinski Montaigne relação}}