====== 1.8 Morte ====== //STAROBINSKI, Jean. Montaigne en mouvement. Paris: Gallimard, 1982 (Coleção Bibliothèque des Idées).// **8. A iminência da morte.** 1. No aviso ao leitor, toda a empresa de escrever se coloca na perspectiva da morte, mas para logo arrancar o livro à morte e fazer dele a imagem viva e sobrevivente de um ser que não se resigna a ser esquecido, e uma imagem cheia e viva se desenhará nessas páginas em previsão de uma perda próxima. 2. A pintura de si, obra de vida, toma seu relevo sobre o fundo melancólico do desaparecimento esperado, e o congé dado ao mundo precede a opção estética e condiciona a atividade de representação literária. 3. A palavra atual se prepara para afrontar um futuro em que será o substituto e o único traço de um ser desaparecido, e, como Carlos Quinto, Montaigne antecipa suas exéquias, não para ostentar o luxo negro de uma pompa fúnebre, mas para fixar as mais fortes imagens da vida que foge. 4. Ainda não está assegurado de ter conseguido salvaguardar o melhor de si mesmo, pois além do que essa pintura morta e muda roubará a seu ser natural, ela não se reporta a seu melhor estado, mas muito decaído de sua primeira vigou e alegria, puxando para o murcho e o rançoso. 5. Imaginemos Montaigne apoiando-se sobre o futuro póstumo em que viverá apenas na memória de seus amigos para saborear mais intensamente a parte de existência que lhe resta aquém da morte. 6. A ponte que estabelece de antemão com o além-túmulo, ele a franqueia em seguida ao contrário para melhor saborear o antes-da-morte, e se não temesse o esquecimento como aniquilamento total, teria posto a mão à pena, sendo nisso pouco cristão. 7. Montaigne sente o cuidado de sobreviver segundo sua verdade particular na memória de outra geração, pois perdeu a esperança na imortalidade espiritual e na iluminação eterna que a Igreja prometia aos eleitos acolhidos na pátria celeste. 8. O tolo projeto que tem de se pintar, na reprovação de Pascal, não visa apenas um ato de orgulho, mas, mais profundamente, o pecado de desespero cometido por Montaigne quando, em vez de responder à morte com um ato de fé na promessa divina, recorre à literatura e à arte para traçar de sua vida uma imagem confiada à posteridade. 9. A existência nas páginas do livro vale mais que o nada e o esquecimento, e o livro dos Ensaios terá valor de monumento. 10. Mas não será um monumento como os que tantos gentis-homens mandam erguer para glorificar seus feitos de armas e o esplendor de sua casa, pois o que Montaigne deseja perpetuar não é uma série de altos feitos militares ou políticos, mas uma vida baixa e sem lustre, semelhante a todas as outras. 11. O monumento que Montaigne constrói não se assemelha mais ao que erguem os artistas e poetas que, a exemplo de Horácio, celebram triunfalmente a obra anteriormente acabada, pois Montaigne não tem atrás de si uma obra acabada de que possa se vangloriar de a ter vazado em matéria incorruptível. 12. Sua obra reside inteiramente no memorial cujo texto ainda não acabou de compor, e ele não pode se reclamar de nenhuma obra-prima antecedente, tomando antes o contrapé, acusando o desleixo e a imperfeição de sua palavra. 13. Assim a bela língua que maneja tira sua vigou, descarregada do cuidado de um acabamento formal segundo os modelos recebidos, enquanto tantos escritores e oradores da época, na ambição de se fazer admirar, se enredam num ciceronianismo pomposo. 14. Montaigne, aliás, só imagina uma posteridade breve, e o monumento que assegura sua sobrevivência é ele mesmo perecível, pois escreve seu livro para poucos homens e poucos anos, e se fosse matéria de duração seria preciso confiá-lo a uma linguagem mais firme. 15. O testemunho de Montaigne não se parece em nada com o dos apologistas que, à maneira de Santo Agostinho nas Confissões, dão em exemplo a intervenção de Deus em sua vida, pois só se trata de deixar a lembrança, na página do livro, de uma vida ordinária, e é isso mesmo que é exorbitante e escandaloso. 16. A vida em sua simplicidade mais nua, em sua naturalidade não reprimida mas ressaisida numa arte que nega a arte, retoma por sua própria conta a reivindicação que tinha sido, em outros, a do feito de armas ou da eleição divina. 17. Uma vida comum se expõe no que tem de não exemplar e se exibe como o contra-exemplo de todas as imagens paradigmáticas sobre as quais a vida moral, a vida guerreira e a vida religiosa tinham tomado modelo, e onde não há mais exemplos, tudo pode tornar-se exemplo. 18. O monumento funerário erigido por Montaigne a sua própria memória nos remete aos aspectos triviais de uma existência popular e privada que logo não será mais, e o último ensaio enumera minuciosamente as condições corporais, os gostos e os menus gestos de que se compõe o ordinário de uma vida particular. 19. A escrita viva que tentará transportar ao papel a inflexão familiar da palavra recebe da morte sua necessidade, e o passo pela pensamento da morte, em vez de desembocar no além, nos reconduziu ao detalhe mais íntimo e aparentemente mais fútil de um modo de vida pessoal inscrito na trama dos dias mortais. {{tag>Starobinski Montaigne morte}}